questões das urnas

Eleito, Witzel agradece aos mensageiros de WhatsApp

Em discurso após a vitória no Rio, ex-juiz se disse grato a quem "passou a noite" enviando conteúdo a favor dele e chamou críticas de fake news

Allan de Abreu
29out2018_00h45
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Governador eleito do Rio de Janeiro, Wilson José Witzel, do PSC, agradeceu “a quem ficou a noite inteira no WhatsApp, tentando convencer as pessoas” em discurso para cerca de 2 mil apoiadores na noite deste domingo, no Centro de Convenções Ribalta, na Barra da Tijuca, Zona Oeste da cidade.

O aplicativo WhatsApp ficou marcado nestas eleições por ser a principal ferramenta de difusão de fake news, com denúncias direcionadas principalmente à campanha do presidente eleito Jair Bolsonaro, do PSL, a quem o ex-juiz federal Witzel colou sua imagem durante a campanha. O governador eleito, por sua vez, associou fake news a reportagens críticas a ele – como as que foram publicadas nas últimas semanas, mostrando sua relação com o ex-advogado do traficante “Nem da Rocinha”, e a que trazia trecho de uma palestra em que Witzel explica meios de burlar a Justiça e garantir gratificação no salário. “O que tentaram fazer com o meu passado ninguém apaga, mas o povo não é burro”, disse, sob aplausos e gritos de “bota na cadeia!” O ex-juiz aproveitou para atacar os institutos de pesquisa, que nos últimos dias apontaram uma diminuição nos percentuais de intenção de voto no candidato. “As ‘fake news’ e as ‘fake pesquisas’ não podem mais continuar.”

Minutos antes, em entrevista coletiva no Hotel Ribalta, contíguo ao centro de convenções, Witzel, que venceu com 59,9% dos votos válidos contra 40,1% de Eduardo Paes, do DEM, ressaltou as “preocupações” dos eleitores do interior e da Baixada Fluminense, que lhe deu a vitória nas urnas, já que na capital o candidato do PSC foi derrotado por Paes por 51,7% a 48,3%. “Os municípios do interior estão abandonados, com graves problemas na segurança, e os da Baixada com hospitais superlotados. Isso se revelou no desejo de mudança expresso nas urnas”, afirmou, no discurso, ao lado da mulher, Helena, e do vice, Cláudio Castro, também do PSC. Entre os presentes no Ribalta estavam o ex-prefeito de Nova Iguaçu, Nelson Bornier, do Pros, aliado de Witzel.

O ex-juiz disse que sua prioridade à frente do governo será sair do regime de recuperação fiscal, assinado pelo atual governador Luiz Fernando Pezão, do MDB, no ano passado. “É uma proposta muito ruim, com juros altos, aumento de impostos e demissão de servidores”, disse. Para combater a forte crise fiscal do estado, Witzel defendeu a necessidade de abertura econômica para o capital estrangeiro.



Durante a entrevista, o governador eleito não repetiu suas propostas mais polêmicas na segurança pública, como a autorização para que as polícias atirem em quem esteja portando armas nas comunidades dominadas pelo narcotráfico. Disse apenas que pretende ampliar o conselho de segurança pública já existente, com a participação da Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal e Forças Armadas. Por fim, defendeu um secretariado com perfil técnico. “Não tenho compromissos com o partido. Tenho com o povo.”

Apesar de não estar no centro de convenções, a família Bolsonaro era onipresente no evento. Um banner gigante no palco trazia a imagem do ex-juiz ao lado de Bolsonaro e do filho Flávio. As luzes no ambiente eram verde e amarelas, cores associadas ao bolsonarismo, e a maioria da plateia trajava camisetas amarelas ou pretas com frases de apoio a Bolsonaro – em uma delas, um fuzil na vertical formava o algarismo “1” do número do presidente eleito neste domingo, o 17. Witzel agradeceu o apoio de Flávio e de Rodrigo Amorim, deputado estadual mais votado do Rio, que estava ao lado do ex-juiz no palco.

Witzel disse aos jornalistas que Paes o telefonou logo após a confirmação da vitória do ex-magistrado. “Eu agradeci o gesto e o parabenizei pela disputa. Os eleitores dele precisam ser respeitados. Vou governar para todos.” Um pouco depois, já no palco, tão logo Witzel iniciou seu discurso um integrante da plateia gritou: “Vai pra cadeia, Eduardo Paes.” O ex-juiz apenas sorriu.

Naquele momento, Paes estava a cinco quilômetros de distância da festa no Ribalta, separados pela Lagoa de Jacarepaguá. Em hotel vizinho ao Parque Olímpico, o candidato do DEM creditou sua derrota ao desejo do “novo” e disse que vai trabalhar na iniciativa privada.

Allan de Abreu (siga @allandeabreu1 no Twitter)

Repórter da piauí, é autor dos livros O Delator e Cocaína: a Rota Caipira, ambos publicados pela editora Record

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