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Em Trânsito – um olhar sobre o monstro que habita vários tempos históricos

Demonstração de talento neste filme notável tem sido desperdiçada pelo público brasileiro

Eduardo Escorel
22maio2019_11h47

Há um filme notável para assistir, em exibição nas salas de cinema desde 11 de abril, mas dando sinais de que poderá desaparecer em breve do circuito. Em seis semanas em cartaz, apenas 6 678 ingressos foram vendidos para ver Em Trânsito (2018), de Christian Petzold. Como entender que tamanha demonstração de talento esteja sendo tão desperdiçada?

Ter participado da mostra competitiva do 68º Festival de Berlim,no ano passado, não bastou para despertar maior interesse entre nós pelo filme de Petzold, inspirado no romance homônimo da alemã Anna Seghers, escrito no exílio, entre 1941 e 1942. Publicado pela primeira vez em inglês e espanhol, em 1944, e editado no Brasil, em 1987, pela editora Paz e Terra.

Em abril, na quinta-feira de estreia, O Globo, em sua versão impressa, dedicou quatro linhas de Marcelo Janot a Em Trânsito, acompanhadas do afamado bonequinho sentado batendo palmas, sem com isso atrair público ao cinema. Janot situa Petzold “entre os grandes realizadores contemporâneos” e destaca a “premissa absolutamente original” do filme. No dia seguinte, no suplemento Rio Show impresso, Janot descreve a trama que “nos oferece um cenário distópico que permite associações imediatas com o drama dos refugiados na Europa contemporânea” – palavras que tampouco foram capazes de mobilizar um número significativo de espectadores.

Ao completar a primeira semana em exibição, na quarta-feira seguinte, entrevista de Petzold a Carlos Helí de Almeida, em meia página do Segundo Caderno, também não teve repercussão na bilheteria. O diretor de  Em Trânsito enfatiza o paralelo entre os refugiados do nazismo, na década de 40, e os atuais: “Há refugiados em toda parte do mundo, e vivemos em uma Europa que fala em esforços de renacionalização. Essa fantasmagórica discussão está presente no filme, de forma implícita.”

Além disso, Petzold fala na entrevista sobre sua relação com Harun Farocki, falecido em 2014, de quem primeiro foi aluno na Academia Alemã de Cinema e Televisão de Berlim, e depois também colaborador: “Farocki e eu obedecíamos a algumas regras básicas de cooperação. Nossos projetos, por exemplo, sempre tinham que falar sobre personagens em movimento, eles deveriam existir em uma situação de transição geográfica ou existencial” – em trânsito, em suma.

Casualidade ou não, o fato é que Em Trânsito foi lançado quando videoinstalações de Farocki estavam em exposição desde o mês anterior no IMS Rio, onde podem ser vistas até o final de junho. Entre os mais de cem filmes realizados por Farocki, o documentário de arquivo silencioso Intervalo (2007) foi um dos dois escolhidos para ser exibido como parte do evento.

O título em português, mais próximo do adotado em inglês – Respite – do que do original alemão – Aufschub –, indica a similaridade da situação transitória dos internos do campo de Westerbork, na Holanda, filmado em 1944, com a dos personagens de Em Trânsito. O que os diferencia é o destino fatal de uns ao serem deportados para o leste da Europa, e a esperança de salvação dos outros ao embarcarem para a América.

A peculiaridade do campo de Westerbork foi ter servido primeiro para receber refugiados alemães e, depois da ocupação da Holanda pelos nazistas, em 1941, passado a ser um campo de trânsito onde os internos ficavam às vezes por horas ou poucos dias, outras vezes por períodos mais longos, antes de serem levados para os campos de extermínio.

Em entrevista à distribuidora Criterion, Petzold diz que Farocki e ele passaram quinze anos lendo juntos o romance de Seghers. Lendo e relendo, na verdade, conforme o método pedagógico adotado por Farocki em Berlim e Viena – assistir aos filmes, “primeiro na mesa de edição, depois com o auxílio do vídeo, hoje com o DVD, sequência por sequência, por quatro dias, passando para a frente e para trás várias e várias vezes” (Farocki, “Trailers Escritos”, em Harun Farocki: por Uma Politização do Olhar, Maria Dora Mourão, Cristian Borges, Patrícia Mourão, org. Cinemateca Brasileira, 2010, p. 92).

Farocki e Petzold escreveram juntos os roteiros de Yella(2007) e Phoenix (2014), filmes anteriores de Petzold que formam com Em Trânsito a trilogia para a qual ele deu o título: “Amor em Tempos de Sistemas Opressivos.”

No terceiro filme da trilogia, realizado após o falecimento de Farocki, a trama do romance de Seghers, situada na França ocupada, no início da década de 40, é transposta para os nossos dias, correndo o alto risco de haver uma desconexão entre o enredo e o cenário de Paris e Marselha por onde os personagens transitam. Mas, não. Por mais improvável que pareça, isso não ocorre. O pequeno estranhamento que pode haver de início é passageiro. A verossimilhança resiste e não é posta em questão.

Uma pista para entender o êxito de Petzold ao não fazer um filme “de época” convencional, no sentido que pressupõe reconstituir cenários e figurinos de determinado período histórico, talvez possa ser encontrada na narração de Jean Cayrol escrita para Noite e Neblina(1955), de Alain Resnais.

As imagens coloridas da sequência final do documentário de Resnais são de crematórios alemães desativados, filmados na década de 50. Dez anos se passaram desde o fim da Segunda Guerra. Mas o antissemitismo na França perdura e a guerra de independência da Argélia tivera início. A intenção de falar do presente é clara: “Nove milhões de mortos assombram essa paisagem. Desse estranho observatório, quem vela para nos alertar sobre a chegada dos novos carrascos? Terão um rosto tão diferente dos nossos? Em algum lugar entre nós subsistem kapos felizes, chefes recuperados, delatores desconhecidos. Subsistimos nós, que olhamos sinceramente essas ruínas como se o velho monstro concentracionário (aos 30:04 do filme) estivesse morto sob os escombros; nós, que fingimos recobrar a esperança diante dessa imagem que se afasta, como se curados da peste concentracionária (aos 30:11); nós, que fingimos acreditar que tudo isso não pertence senão a um país e a uma época, e que não cogitamos olhar ao redor e não ouvimos o grito infindável” (a tradução é de André Telles, publicada na revista serrote nº 9, novembro de 2011, salvo a substituição de “totalitário” por concentracionário, e a inclusão de concentracionária onde foi omitida. No original francês concentracionaire aparece, de fato, duas vezes na mesma frase).

Minha hipótese é se tratar disso: um substrato comum a diferentes circunstâncias históricas em que, através dos tempos, o “monstro concentracionário” continua atuante. Essa seria a razão do espectador de Em Trânsito aceitar o que ocorre no filme sem estranhar as motivações dos personagens. E tornaria ainda mais incompreensível a falta de interesse do público brasileiro nestes dias sombrios em que a incerteza quanto ao futuro persiste entre nós.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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