questões ambientais

No meio do fogo, entre o atraso e o retardante

Diante do avanço das queimadas no Pantanal, governo de Mato Grosso apela a produto químico de efeitos ainda desconhecidos no meio ambiente após longo tempo de uso

Lázaro Thor Borges
21set2020_17h25
Bombeiros apagam fogo em Mato Grosso
Bombeiros apagam fogo em Mato Grosso Fotos: Marcus Mesquita

Às margens da Transpantaneira, na altura do quilômetro 100, Glória Vilalba garante que encontrou a cura para a Covid-19. “A receita é simples: basta pingar duas gotinhas de creolina no polvilho e enrolar até formar uma massinha”, diz a pantaneira de 55 anos, dona de uma pequena propriedade praticamente destruída pelos incêndios florestais na região. Num potinho de vidro ao lado do filtro de barro está o polvilho misturado em gotas de creolina (não confundir com cloroquina). “Isso aqui já foi até para São Paulo”, orgulha-se. 

No Pantanal, o fogo e a pandemia chegaram quase ao mesmo tempo. As chamas assustaram Glória, queimaram o pasto, afugentaram o gado e ameaçam o modo de vida pantaneiro. Para combater a Covid-19, Glória confia mesmo é na creolina, uma espécie de bálsamo de Ferrabrás dos pantaneiros mais antigos. Na maior planície alagada do mundo, onde o gado vivia solto, a creolina é vista como capaz de curar todas as enfermidades dos bichos e dos homens – embora o produto seja contraindicado para uso em humanos. Contra o fogo, a fazendeira ainda não sabe o que fazer. 

Não muito longe da propriedade de Glória, no quilômetro 17 da mesma rodovia, exatamente na entrada da Transpantaneira, Paulo Barroso, coronel do Corpo de Bombeiros de Mato Grosso, está entusiasmado com um produto apregoado como a solução para o fogo no Pantanal: o retardante, composto químico que vem sendo distribuído na região com a promessa de reduzir as chamas, contendo o avanço do incêndio sem poluir o meio ambiente. A piauí acompanhou o quinto teste do produto, no dia 15 de agosto, na Fazenda Piuval. No caminho até lá, uma paisagem cinza, com animais mortos e fogo nas margens da rodovia, além da fumaça cobrindo o céu. No trabalho liderado por Barroso e acompanhado  por jornalistas, um grupo de bombeiros combateu um incêndio incipiente no pasto da fazenda com bombas costais. Um avião despejou retardante nas áreas em chamas. O fogo foi contido em algumas áreas, mas continuou em outras.

Pelo menos desde junho há registro de focos de calor. De lá para cá, o fogo consumiu 17% de todo o Pantanal, de acordo com o ICV (Instituto Centro de Vida), organização não governamental que atua na região. O Pantanal já soma 5.820 focos de calor, o maior número no mês de setembro da história, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A Operação Pantanal II começou no fim de julho, em Mato Grosso do Sul, e no início de agosto se estendeu a Mato Grosso. 



Com o fogo se espalhando, a secretária de Meio Ambiente de Mato Grosso, Mauren Lazzaretti, chefe de Barroso, mudou de opinião  sobre o retardante desde que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, veio a Mato Grosso, no dia 18 de agosto. Na ocasião, Salles cobrou a secretária e defendeu a aplicação do produto. Até então, o governo estadual avaliava que não havia respaldo científico e técnico para utilizar o produto, por conta das suspeitas de dano ao meio ambiente. No dia 3 de setembro, Lazaretti voltou atrás durante encontro virtual com secretários de Meio Ambiente da Amazônia Legal. “Eu vou ter uma alteração pela aplicação do produto, mas eu vou evitar perda de biodiversidade, enfraquecimento do solo e o sofrimento da fauna”, disse Lazzaretti. 

Desde então, o respaldo científico para adoção de retardantes em Mato Grosso vem do parecer  técnico 514/2018 do Ibama, que,  segundo o coronel Paulo Barroso, atesta que o produto é “biodegradável e atóxico”. Dos quatro retardantes selecionados para análise, apenas dois foram avaliados. O estudo faz dezoito recomendações e  afirma que os dados disponíveis não permitem concluir quais danos a utilização repetida do produto no meio ambiente poderia acarretar aos ecossistemas terrestres e aquáticos.

O parecer do Ibama cita, mas não avalia especificamente, o Hold Fire, produto que vem sendo usado pela Sema no Pantanal. O documento aponta que as informações solicitadas não foram disponibilizadas pela fabricante. 

Na avaliação preliminar do Ibama, os retardantes devem ter aplicação evitada em faixas marginais de qualquer curso d’água natural perene e intermitente. Um problema diante da imensidão de águas do Pantanal, onde praticamente toda as terras que atualmente pegam fogo são alagadiças.  

“Em caso de aplicação do produto em terras indígenas ou próximo a locais populosos, informar à população da área sobre os possíveis riscos do consumo de água e alimentos provenientes do local nos quarenta dias seguintes à aplicação do retardante de chamas”, diz trecho do parecer.

Integrante do Corpo de Bombeiros se prepara para usar o retardante,
Integrante do Corpo de Bombeiros se prepara para usar o retardante,
produto distribuído como amostra grátis em Poconé, Mato Grosso,
produto distribuído como amostra grátis em Poconé, Mato Grosso,
e comprado por várias prefeituras como forma de tentar conter os incêndios na região.
e comprado por várias prefeituras como forma de tentar conter os incêndios na região.
Soldado combate foco de calor durante teste para uso do retardante em Mato Grosso.
Soldado combate foco de calor durante teste para uso do retardante em Mato Grosso.

 

Questionada pela piauí sobre o uso de retardantes, a Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso afirmou que no Brasil existe um “tabu” em relação ao uso de novas tecnologias para combater incêndios. A pasta lembrou que o fabricante atesta que o produto é atóxico e biodegradável e que o Comitê Estadual de Gestão do Fogo realizou coletas de amostras de solos em diferentes situações (antes e após a aplicação do produto e passagem do fogo) para analisar e avaliar se houve algum tipo de alteração significativa. A Sema afirma que ainda não tem os resultados desses testes. 

Mesmo depois de cinco testes, o Corpo de Bombeiros tem poucas informações sobre a efetividade do Hold Fire, vendido como solução rápida para o fogo no Pantanal, bem como seus efeitos colaterais. O major Fernando Rodrigues, responsável pela Operação Pantanal II na segunda semana de setembro, não sabe muito sobre os resultados do composto químico. “Foi criado um protocolo para poder analisar a efetividade desse produto”, disse o major. “Tivemos alguns ensaios na região porque temos uma autorização da Sema para utilizar em parques e reservas estaduais, mas eu ainda não tenho dados.”

Depois dos testes, o governo federal liberou mais 10 milhões de reais para gastar principalmente com a compra do Hold Fire, fabricado pela empresa Start Química. Na última semana de agosto, os fabricantes entregaram amostras grátis do produto ao grupo que atua na Operação Pantanal II, formada para combater incêndios florestais no bioma. 

“A diluição depende de como você vai lançar o retardante, entendeu?”, ensinava Barroso enquanto dirigia empolgado sua caminhonete 4×4 até a Fazenda Piuval, onde um dos testes seria realizado.  “Você aplica 10 litros de retardante em mil litros de água se for jogar de forma terrestre, com bombas costais, e aplica 15 litros de retardante em mil litros de água se for jogar com o avião”, completou o coronel da reserva, que atualmente trabalha na Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso (Sema-MT). 

Barroso é alto e jovial. Seu perfil lembra, curiosamente, um rascunho de pássaro: nariz aquilino, cabelos longos e lisos, olhar lépido e sempre entusiasmado. “Um fogo pequeno une as pessoas, um fogo grande pode unir todo mundo”, diz o bombeiro ao som de You Know I’m No Good, de Amy Winehouse. A música toca na playlist Férias 2020, que Barroso não aproveitou por conta da pandemia e, em seguida, por conta dos incêndios. 

Não houve férias. Mas o militar não está cansado. Dá entrevistas, combate o fogo e defende o retardante. “É melhor perder um pedaço de vegetação e nascer algumas plantas invasoras ou deixar queimar tudo?”, questionou. Barroso defende o uso do produto, ainda que conheça estudos que apontam um de seus efeitos colaterais: a capacidade do produto de reduzir o crescimento de plantas nativas e acelerar o crescimento de espécies invasoras, como capins plantados no campo para a criação de gado. 

Chefiados por policiais militares desde o início do governo Bolsonaro, o ICMBio tem sido pouco consultado quando o assunto é retardante. O órgão vive um período de mudanças, com a proposição de um código de ética chamado pelos servidores de “Lei da Mordaça”, por proibir manifestações políticas contra o governo Bolsonaro. Além das complicações com a possibilidade de fertilizar plantas invasoras em detrimento das nativas e da capacidade de comprometer a qualidade das águas pantaneiras, a avaliação de muitos técnicos é de que o retardante é ineficaz no combate no Pantanal por conta do chamado incêndio subterrâneo. 

O fenômeno ocorre nas turfas pantaneiras. As turfas são um conjunto de plantas aquáticas que, nas cheias, são compostas por buracos cheios de água. Na seca, essas plantas morrem e formam camadas sobre o solo. É no interior dessa vegetação que o fogo fica escondido, em pequenos focos, e se alastra aos poucos até se propagar nos arbustos e nas árvores mais altas. Como a ação do retardante dura em torno de doze horas, há o receio de que, mesmo depois de aplicado o produto, o fogo durma na matéria orgânica seca que fica abaixo e apareça algumas horas ou dias depois, como tem acontecido no Pantanal. 

De acordo com a professora de química do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) Sônia Biaggi, é preciso cautela na utilização de retardantes. Ela explica que esses tipos de produtos são comuns no dia a dia e estão presentes no ramo automobilístico, aeroespacial e na construção civil. “O que acontece é que esses compostos combatem um mal, que seriam as chamas, mas eles produzem muitos outros males, e com o agravante de que eles permanecem por muito tempo no ambiente. Há estudos que indicam danos à saúde humana, por exemplo”, disse a professora, que evitou comentar especificamente uma marca ou outra 

Avaliação semelhante faz Anderson Martinez Santana, doutor em química e  professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Segundo ele, as informações sobre o Hold Fire ainda são muito exíguas. Ele acredita que não é possível avaliar o produto sem ensaios de laboratórios. “É preciso deixar bem claro que no Brasil, ao contrário dos Estados Unidos, nós não temos uma legislação que norteie o uso desse tipo de composto, principalmente em meio ambiente aberto, como florestas e proximidades de rios e lagos”, diz. “A legislação americana faz uso desses compostos e alerta para a sua utilização próxima de corpos d’água, no Brasil não existe esse alerta”, conclui. 

 

Um dos primeiros testes com o retardante foi num incêndio na Fazenda São João, no dia 14 de agosto. Tudo que o Corpo de Bombeiros de Mato Grosso tentou deu errado. A ideia inicial era criar uma espécie de ilha de vegetação incólume com 20 km2 no Parque Estadual Encontro das Águas, uma unidade de conservação sem plano de manejo que fica nos fundos da fazenda. A ilha seria protegida com o uso de retardantes e da técnica do aceiro, a limpeza da vegetação, deixando o chão nu para evitar que o fogo se espalhe por outros galhos.

Mais de 3 mil litros de retardante deveriam ser utilizados na ação. O problema é que o caminhão-tanque que carregava o produto tombou e o trabalho se perdeu. Em seguida, um trator pegou fogo ao ser deslocado para rebocar o caminhão. No fim das contas, apenas 360 hectares de vegetação foram salvos. Naquele momento, o fogo já havia queimado 85% do Encontro das Águas, segundo o ICV. 

Naquele mesmo dia, os incêndios produziram labaredas de 25 metros de altura que mais de uma vez atravessaram os 150 metros de largura do Rio São Lourenço, perto da divisa de Mato Grosso com Mato Grosso do Sul. Na visita que fez à ação, a secretária Mauren Lazzaretti viu seu carro pegar fogo quando uma equipe da Sema atravessava um arco de chamas que se formou sobre a Transpantaneira. As chamas foram apagadas com a água dos cantis dos bombeiros. 

O diretor comercial da empresa Start Química, Leonardo Vitorino Camargos, acompanhou o teste. Disse que os testes realizados pela empresa verificaram que o produto tem efetividade no combate aos incêndios florestais e não polui o meio ambiente. Vitorino é um homem baixo, discreto, de barbas rorejadas, ralas, ao redor da boca.  “Eu virei até tratorista para ajudar”, disse ele sobre o episódio. Mesmo com a doação inicial, a Start Química espera fazer mais vendas por conta do fogo no Pantanal. Segundo ele, a Sema deverá  comprar mais 600 barris do retardante, cada barril de cem litros a 850 reais, o que levará a empresa a receber mais de 500 mil reais. “Agora nós estamos na nossa safra”, diz Vitorino sobre o negócio do fogo. Em condições normais, um barril é vendido por cerca de 1040 reais, mas a Start Química achou melhor reduzir o preço para facilitar a negociação. 

A prefeitura de Poconé, município onde o começa o pantanal mato-grossense, já comprou da Start Química 284 mil reais em retardante. “Minha filha conta que não aguenta mais o fogo, não gosta nem de ouvir falar”, desabafa  a secretária de Meio Ambiente do município, Danielle Assis. “A gente não pode afirmar com certeza sobre os resultados, mas em todas as frentes que foram utilizadas os bombeiros perceberam uma melhor eficiência no combate, porque cria-se uma barreira de umidade.” 

A secretaria funciona em um prédio todo colorido na Rua Coronel João Epifânio, cujas paredes são ilustradas por gravuras de araras. O prédio fica ao lado da antiga sede do Prevfogo de Poconé, desativado em 2019 porque o chefe dos brigadistas foi preso com pescado em período proibitivo. O governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (DEM), jogou a culpa nas prefeituras quanto questionado sobre o fogo no Pantanal. Ele lembrou que, nos seus tempos de prefeito de Cuiabá, a cidade contava com brigadistas. Nesta segunda-feira (21), Mauro Mendes pediu pela segunda vez o apoio de aeronaves e tropas militares da Força Nacional de Segurança Pública para auxiliar no combate aos incêndios. 

Procurado pela piauí, o prefeito de Poconé, Tatá Amaral (DEM), não quis dar entrevista. Há mais de dois meses, Poconé está coberta de fumaça. Nada diferente de outras cidades da chamada “baixada cuiabana”, que inclui catorze municípios, inclusive a capital de Mato Grosso. No dia 13 de setembro, o calor em Cuiabá chegou em 42,7°C, o maior  dos últimos 109 anos. No dia 15, o governo do estado decretou situação de emergência.

Entre o fogo e a pandemia, os pantaneiros tentam encontrar esperanças e soluções. No caminho de volta, de novo passo diante da casa de Glória Villalba,  que confiava na creolina para combater a Covid-19. “Este fogo a gente não apaga, só vai acabar quando chover, e chover muito”, lamentou ela, citando, sem saber, o poeta pantaneiro Manoel de Barros – para quem a água tem mais qualidades para a paz do que os homens.

*

Nota: Reportagem reeditada e atualizada em 29 de setembro.

Lázaro Thor Borges

Repórter freelancer em Cuiabá, com foco na cobertura socioambiental. Colabora com Folha de São Paulo e The Intercept Brasil, entre outros veículos.

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