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A era do testemunho e o impeachment

Julgamento de Trump ignorou imagens e relatos dos acontecimentos

Eduardo Escorel
24fev2021_10h06

Além de apreciar a importância política dos fatos em si, tive a impressão de ter assistido a acontecimentos marcantes da “era do testemunho”, primeiro, ao ver na televisão, em 6 de janeiro, a invasão do Capitólio por uma turba de adeptos do então presidente Donald Trump; depois, ao acompanhar a transmissão, em 13 de fevereiro, do julgamento do impeachment de Trump no Senado, acusado de ter incitado a insurreição.

O destaque dado no julgamento às múltiplas gravações feitas no dia em que a multidão desenfreada tomou de assalto o Capitólio, enquanto o Congresso estava reunido para contar os votos do colégio eleitoral e certificar a vitória de Joe Biden e Kamala Harris na eleição para presidente e vice, remete à ilusão secular, formulada no final do século XIX, que veio a ser considerada irrefutável na Justiça, no cinema e na mídia em geral do nosso tempo.

Foi o fotógrafo e cinegrafista polonês Bolesław Matuszewski (1856 – 1943) quem proclamou, em 1898, que a “fotografia animada” daria a “visão direta” do passado. “O cinematógrafo”, ele escreveu, “talvez não dê a história integral, mas ao menos o que ele oferece é incontestável, é de uma verdade absoluta. […] Podemos dizer que a fotografia animada tem uma característica de autenticidade, de exatidão, de precisão que é própria dela mesma. Ela é por excelência a testemunha ocular verídica e infalível” – previsão formulada no panfleto Une Nouvelle Source de l’HistoireCréation d’un Dépot de Cinématographie Historique (Uma nova fonte da história – Criação de um depósito de cinematografia histórica, em tradução literal; sem edição brasileira) e reconhecida hoje como falaciosa, embora sem ter deixado de ser um dos pilares do senso comum a respeito da linguagem audiovisual.

Cena do filme ‘Fúria’ – Foto: Divulgação


A crença no valor de prova da imagem animada está presente em
Fúria, dirigido por Fritz Lang, em 1936, a partir do roteiro que ele escreveu com Bartlett Cormack, baseado na história escrita por Norman Krasna intitulada Mob Rule (Domínio da Turba, em tradução literal). No filme, linchadores enfurecidos ateiam fogo à prisão onde Joe Wheeler (Spencer Tracy), um americano comum, está detido, acusado de ter sequestrado uma menininha – crime que não cometeu. Ele consegue escapar despercebido e ileso do incêndio. Reaparece em público, para surpresa geral, durante o julgamento dos linchadores, depois de eles negarem qualquer participação no ataque em que todos supõem Joe teria morrido. A culpa dos acusados é comprovada, porém, por meio da projeção feita na sala do tribunal, diante do juiz, dos jurados e dos assistentes, das imagens do vandalismo, filmadas por um cinejornal, em que os agressores aparecem em ação um a um. Não há espaço para dúvida – o que as imagens mostram é tomado como expressão irretorquível da verdade factual.

Em entrevista publicada três décadas após o lançamento de Fúria, Lang declarou que, ao fazer o filme, “não sabia muito sobre o procedimento legal em um julgamento americano […] e todos os especialistas consultados se opuseram a que mostrasse os filmes no tribunal, além de o fotograma fixo, projetados como provas documentais. Eu tomei a liberdade de fazê-lo e, depois, em muitos casos, isso passou a ser permitido.”

Dez anos depois do lançamento de Fúria, nos julgamentos de líderes da Alemanha nazista responsáveis pelo Holocausto, realizados em Nuremberg, entre 1945 e 1946, filmes foram exibidos para comprovar os crimes cometidos. Conforme escreve Christian Delage, o juiz americano Robert H. Jackson “tomou duas iniciativas inéditas ao mesmo tempo: apresentar imagens animadas ao público como prova; filmar as sessões do processo para torná-lo um arquivo histórico.” De acordo com Delage, “a prioridade anunciada por Jackson era […] estabelecer um dispositivo jurídico capaz de submeter os acusados à visão de seus crimes e de favorecer, fora do tribunal, a tomada de consciência da desumanidade radical dos atos que eles haviam planejado ou executado. Nessa perspectiva, as imagens iriam desempenhar uma função maior”. (La Vérité par l’image, de 2006. A verdade por meio da imagem, em tradução livre, sem edição brasileira). Houve testemunhas em Nuremberg, mas o que se pretendia obter com seus depoimentos, escreve a historiadora Annette Wieviorka, era “confirmar, comentar e completar o conteúdo de documentos escritos”, e não ouvir relatos de experiências pessoais. “Os julgamentos de Nuremberg”, para Wieviorka, “marcaram o triunfo do escrito sobre o oral.” (L’ère du témoin, 1998, A era do testemunho, em tradução literal, sem edição brasileira).

Cena do filme ‘Fúria’ – Foto: Divulgação


Realizado em 1961, o julgamento em Jerusalém do ex-oficial nazista Adolf Eichmann, um dos responsáveis pelo que chamavam de “a solução final da questão judaica”, é considerado por Wieviorka um marco crucial do “advento da testemunha”. O jurista Gideon Hausner, responsável pela organização do julgamento, decidiu que testemunhos ocupariam o centro do palco. Para ele, diz Wieviorka, não se tratava apenas de obter um veredicto. Ele esperava por algo mais: “um atestado vivo de um gigantesco desastre humano e nacional, embora nunca poderia ser mais do que um registro débil dos eventos reais.” Daí ter baseado o caso em “dois pilares principais, em vez de um: documentos e provas orais”.

 A “era do testemunho” propriamente dita, segundo a historiadora, teria iniciado a partir do final dos anos de 1970, com a formação de grandes acervos audiovisuais como, por exemplo, o Yale Video Archive for Holocaust Testimonies, criado em 1982. Renomeado Fortunoff Video Archive for Holocaust Testimonies, em 1995 esse arquivo havia reunido cerca de 3600 testemunhos.

Não terá sido casual, nesse contexto, o surgimento, em 1985, do soberbo filme Shoah, de Claude Lanzmann. Realizado ao longo dos dez anos anteriores e formado na maior parte por testemunhos pessoais em suas mais de nove horas de duração, o documentário não inclui quaisquer imagens de arquivo, que Lanzmann não apenas abominava, mas negava sua existência, tendo chegado ao ponto de dizer que as destruiria caso as encontrasse –“Estritamente sobre o extermínio não há nada”, declarou. “E mesmo se houvesse, eu não gosto muito de montagens de imagens de arquivo […] Tínhamos de fazer um filme a partir da vida, exclusivamente no presente do indicativo.”

Durante o julgamento no Senado do impeachment de Donald Trump, por sua vez, houve farta projeção de vídeos e havia centenas de depoimentos de participantes da insurreição de 6 de janeiro que poderiam ter sido ouvidos. As testemunhas, porém, ficaram em casa, devido ao acordo entre os partidos Democrata e Republicano de não ouvi-las. Nem o extenso e variado registro audiovisual do ataque ao Capitólio nem os argumentos dos promotores democratas foram suficientes para obter os dez votos republicanos a mais necessários para, além da condenação por 57 a 43, impedir Trump de voltar a ser candidato a cargos públicos.

Do lado republicano, estavam em jogo interesses e convicções políticas dos senadores. Da parte dos democratas, a disposição de evitar que a oitiva de testemunhas prolongasse o julgamento, o que não convinha à Presidência Biden, voltada para providências urgentes relacionadas à pandemia e à crise econômica. Assim, no julgamento essencialmente político de Trump, em desacordo com a era do testemunho, o que prevaleceu não foi nem a evidência das imagens nem o poder de persuasão de testemunhos orais que sequer chegaram a ser ouvidos.

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Dia 2 de março, terça-feira, como sempre às 11 horas, Piero Sbragia, Vanessa Oliveira e este colunista conversam com Alice Lanari e Pedro Asbeg, codiretores de América Armada (2018), no programa #TerçaAoVivo do canal de YouTube 3 Em Cena. Após ter participado de diversos festivais, no Brasil e no exterior, o documentário estreia em 11 de março no NOW, Vivo Play, Oi Play e será exibido na GloboNews em 25 abril. América Armada “acompanha três pessoas no Brasil, Colômbia e México que, ameaçadas de morte, resistem à violência usando armas como a informação, a conscientização e o afeto” (release). Em entrevista ao site Cinema para sempre, o codiretor Pedro Asbeg declara: “Em relação ao tema central do filme, acredito que a principal descoberta tenha sido a confirmação de que a violência é um fenômeno regional, que afeta todos os países da América Latina, em particular os três em que filmamos.” O acesso à conversa com Alice Lanari e Pedro Asbeg, em 2 de março, pode ser feito através do link https://youtu.be/QnIzClsZEnQ .

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Esta semana estreia no circuito de salas pelo menos um filme que eu recomendaria. Deixo, porém, de fazê-lo por considerar uma temeridade ir ao cinema. Confira a média móvel de óbitos e de contagiados pelo novo coronavírus no país. Verifique o percentual ínfimo de vacinados. E fique em casa, se puder. Caso contrário, lave as mãos, use álcool em gel, máscara e respeite o distanciamento. A pandemia prossegue, e todo cuidado é pouco.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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