colunistas

Espanto e incredulidade entre nós

Cultivar o passado ou lidar com a realidade: formas de reagir a novos tempos na política

Eduardo Escorel
09jan2019_12h33

O critério para escolher alguns dos novos ministros, exceto os de notório saber em suas respectivas áreas, parece ter sido a capacidade de fazer afirmações mais estapafúrdias do que as do recém-empossado presidente, cujo repertório de absurdos, acumulado há anos, é bem conhecido dos brasileiros.

Nos primeiros dias de governo, os ministros das Relações Exteriores e do Gabinete de Segurança Institucional, assim como a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, causaram espanto dizendo patacoadas a respeito de assuntos sérios, mas devem ter agradado ao presidente.

Depois de ficar conhecido, antes de tomar posse, por desdizer afirmações feitas na véspera, o presidente inaugurou um novo estilo – o de ser desmentido em questão de horas por integrantes do segundo escalão do seu próprio governo, como ocorreu dias atrás, depois de ter anunciado que assinaria decreto aumentando o Imposto sobre Operações Financeiras, o IOF.

Por sua vez, o titular do ministério que ele mesmo apelidou de “monstro”, por reunir Cidadania, Desenvolvimento Social, Esporte e Cultura, foi mais discreto. Mantido em semiclandestinidade pela mídia, o ministro da Cidadania se limitou a anunciar que o 13º salário será pago aos beneficiários do Bolsa Família, repetindo promessa de campanha do então candidato à Presidência.

Na foto do presidente com seu vice e seus ministros, feita no dia da posse por Daniel Marenco, da Agência O Globo, o ministro da Cidadania se destaca por ser o mais alto da primeira fila. Sendo um dos raros políticos experientes do grupo, falou pouco, sem evitar, mesmo assim, derrapadas ao falar de cultura e, em particular, de cinema, áreas sobre as quais revelou conhecimento superficial e ideias esquemáticas.

Surpreendente, nesse quadro, seria ocorrerem mudanças que revitalizassem o cinema brasileiro, favorecendo sua inserção no mercado interno e externo com filmes que não sejam mais do mesmo – filmes criativos cuja ambição não seja reproduzir modelos consagrados na televisão e na indústria norte-americana. Filmes que se destaquem por sua originalidade e tratem, qualquer que seja seu gênero – comédia ou drama, ficção ou documentário – de temas relevantes, sintonizados com interesses e questões vitais da sociedade brasileira.

Se, passada a eleição de outubro, já não tínhamos mais direito de nos espantar com declarações do novo presidente, a partir de agora tampouco poderemos nos surpreender com o que seus ministros mais falastrões disserem. É preciso admitir ter sido mais do que atestada a capacidade do governo de emitir absurdos e, em consequência, de cometer desastres no exercício do poder.

À primeira vista, seria razoável supor que só pode ficar estupefato quem ignora o que ocorre à sua volta. Por exemplo, alguém que volta ao convívio social depois de viver recluso, desinformado do que aconteceu no mundo enquanto esteve isolado. Esse foi o famoso caso do segundo tenente Hiroo Onoda (1922-2014), treinado no Serviço de Inteligência do Exército imperial japonês. Ele viveu 29 anos escondido na selva da ilha de Lupang, nas Filipinas, sem ter sido informado oficialmente que o Japão havia se rendido e a Segunda Guerra Mundial terminado em outubro de 1945. Quando soube o que acontecera diretamente do major Yoshimi Taniguchi, antigo comandante da sua divisão, ficou, com razão, “atônito”, “incrédulo” e “levou algum tempo para assimilar a notícia”, escreveu a historiadora Jennifer Rosenberg.

A postura de Onoda se contrapõe à conduta de Andres, protagonista de Para La Guerra (Para a Guerra, 2018), primeiro filme de Francisco Marise, ex-aluno da Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, em Cuba. O documentário estreou na seção Novos Diretores do 66º Festival de San Sebastián, em setembro de 2018, e foi exibido, em novembro, no 31º Festival Internacional de Documentários em Amsterdã, mas não tem lançamento previsto no Brasil.

Andres foi um dos 36 mil cubanos que enfrentaram, a partir de 1975, junto com o Movimento Popular de Libertação de Angola, as tropas invasoras do Zaire e da África do Sul. Ele participou também do apoio militar dado por Cuba, até 1987, à Frente Sandinista de Libertação Nacional, na Nicarágua, durante a luta revolucionária e, depois da vitória, quando no poder.

Cena de Para la guerra


As mudanças ocorridas em Cuba após o fim da União Soviética, em 1991, foram testemunhadas por Andres. Mesmo assim, ele se manteve fiel ao internacionalismo cubano e apegado ao tempo heroico da sua mocidade. Passados 27 anos, devidamente camuflado diante da câmera de Para La Guerra, ele faz demonstrações de treinamento militar, na expectativa de uma nova, mas improvável, convocação para voltar a combater no exterior.

O Andres de Para La Guerra é um personagem solitário e desconcertante. Parece ignorar as mudanças ocorridas no mundo e em Cuba desde o fim da Guerra Fria, apesar de ter vivido o chamado “período especial”, no qual, além das medidas de austeridade, foi implantada uma economia de guerra para fazer frente ao embargo comercial, econômico e financeiro imposto pelos Estados Unidos.

Quando Fidel Castro morre, em 2016, Andres vai a Havana participar da manifestação em homenagem ao líder da revolução vitoriosa, primeiro secretário do Partido Comunista de Cuba por 46 anos, ex-primeiro ministro e ex-presidente. Em coro, Andres entoa com a multidão “Fidel! Fidel! Fidel!”, em resposta à conclamação feita no discurso de Raúl Castro.

Prisioneiro do passado, sem ter assimilado o que aconteceu diante dos seus olhos, Andres parece conformado com a precariedade que o cerca. Ele tenta entrar em contato pelo telefone com antigos companheiros de luta, mas custa a encontrá-los. Chega a falar com um homônimo, antes de localizar outro que o reconhece e com quem confraterniza. Mas as ligações, feitas pelo celular, são precárias e ele tem dificuldade para conversar. A busca através de telefonemas acaba sendo uma representação metafórica da fragilidade do personagem e da precariedade do país.

Era previsível que Onoda ficasse atônito ao abandonar a selva depois de 29 anos e custasse a se adaptar aos novos tempos. Andres, por sua vez, aparenta desconhecer as mudanças ocorridas à sua volta. O veterano combatente cubano nos deixa incrédulos diante do seu apego ao passado, preservado durante três décadas.

De qualquer forma, os dois personagens talvez sirvam de alerta para diferentes maneiras de reagir à chamada novidade indigesta representada pela nova Presidência (Eliane Brum refere-se à novidade “difícil de engolir” em seu artigo “O homem mediano assume o poder”, publicado no El País.). Como Onoda, passado o choque inicial, podemos assimilar o que aconteceu, lidar com a realidade e seguir adiante; ou, como Andres, ficar alheios aos fatos, paralisados pela nostalgia.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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