Os estudos decoloniais apareceram no fim do século passado com a ambição de redefinir as condições atuais para um pensamento crítico latino-americano. Desenvolvidos nas salas de aula das universidades, sobretudo americanas, reconstruíram nos últimos anos a sensibilidade política e cultural em vários níveis. Sua influência atinge desde os movimentos sociais até as instituições culturais, como museus e galerias de arte, sem falar na influência exercida em discursos políticos, debates literários, desfiles de escolas de samba e até revistas de moda.
Na piauí deste mês, o professor de filosofia Vladimir Safatle reflete sobre essa corrente de pensamento que se impôs com tanta força no mundo universitário e cultural. Para ele, os estudos decoloniais implicam um paradoxo: trata-se de um movimento teórico que insiste em dizer que o processo de decolonização ainda não terminou, enquanto estabelece um novo paradigma crítico que repete dinâmicas do próprio colonialismo e da hegemonia cultural exercida pelos países centrais, sobretudo pelos Estados Unidos.
Apesar de formulados sobretudo por intelectuais latino-americanos, os estudos decoloniais representam o primeiro momento de hegemonia anglo-saxã sobre o pensamento crítico e se desenvolvem em um momento histórico no qual as lutas de libertação nacional já não ocorrem mais. A última foi a Revolução Sandinista, na Nicarágua, em 1979. Para Safatle, essa mudança na estrutura concreta das lutas não será sem consequências. “Pode-se perguntar se a discussão decolonial não funciona como uma espécie de compensação a essa retração do horizonte de transformações materiais”, ele observa.
A crítica da modernidade é um dos focos dos estudos decoloniais. Safatle diz que ela pode parecer radical, mas, no fundo, tem um traço marcadamente idealista, pois ignora as condições materiais de produção dos sistemas de ideias. “É impossível que as sociedades europeias, marcadas por conflitos sociais e lutas de classe violentas, a ponto de serem sacudidas periodicamente por revoluções e insurreições populares, tenham criado um sistema de ideias monolítico e que não expresse tais divisões e conflitos”, ele escreve. “Por isso, não faz sentido algum transformar a ‘modernidade’, monoliticamente pensada, em um objeto de crítica. O mais correto seria recordar que lidamos, desde sempre, com modernidades em conflito. Isso nos ajudaria a lembrar que, se as tradições críticas dos países periféricos se serviram de ideias produzidas em solo europeu, como o marxismo da América Latina, o bergsonismo na África e a psicanálise da Índia, entre tantas outras, não foi porque elas estavam simplesmente dando continuidade a alguma forma de sujeição colonial.”
Segundo Safatle, é também por causa de certo idealismo e de uma visão imprecisa das estruturas materiais da sociedade que não há nos estudos decoloniais uma teoria do monopólio como estratégia privilegiada de sujeição colonial. “Uma reflexão sobre o colonialismo sem uma teoria do monopólio é como uma bomba que só produz barulho”, diz o professor. “O capitalismo cria a ilusão de que vivemos em espaços potencialmente múltiplos e plurais, quando de fato estamos sujeitos às mais brutais estruturas monopolistas. Por isso, uma crítica do colonialismo deveria começar pelo cartão de crédito. Esse é um dos piores e mais silenciosos instrumentos coloniais. Até o mero ato de pagar o supermercado com o cartão de crédito está sujeito aos interesses monopolistas de três empresas cujas sedes estão no mesmo lugar, no mesmo país, submetido às leis do mesmo governo. Vimos isso há poucos meses com as tentativas americanas de atacar o Pix brasileiro.”
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