questões do voto

Extrema direita chega ao poder com Bolsonaro

Foro de Teresina discute as consequências da guinada conservadora no país

29out2018_04h13
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Com 55,1% dos votos válidos no segundo turno, Jair Bolsonaro, do PSL, se elegeu presidente da República. O candidato de extrema direita recebeu neste domingo o aval de 57,8 milhões de brasileiros. Já seu adversário, Fernando Haddad, do PT, somou 44,9% dos votos, cerca de 10 milhões a menos que o capitão reformado do Exército.

Desde a redemocratização, entre todas as eleições presidenciais que se definiram no segundo turno, essa foi a terceira mais apertada. Ficou atrás apenas dos pleitos de 2014 e 1989, decididos por uma diferença de 3 milhões e 4 milhões de votos, respectivamente (o primeiro em favor de Dilma Rousseff e o segundo, de Fernando Collor). De 2002 a 2010, os eleitos ganharam por uma margem de, no mínimo, 12 milhões de votos. A maior diferença se deu em 2006, quando o petista Luiz Inácio Lula da Silva venceu Geraldo Alckmin, do PSDB, por mais de 20 milhões de votos. Na ocasião, Lula alcançou 60,8% dos votos válidos, contra 39,2% do tucano.

As eleições nos estados reforçaram a onda conservadora que levou Bolsonaro ao Planalto. Dos 27 novos governadores, doze declararam apoio ao presidente eleito, sete se disseram neutros e oito estiveram ao lado de Haddad.

Como havia feito no primeiro turno, piauí transmitiu neste domingo uma edição especial, em vídeo, do podcast Foro de Teresina. A transmissão começou às 17 horas e se estendeu até as 22h30, sob o comando do diretor de redação Fernando de Barros e Silva, do editor do site José Roberto de Toledo e da repórter Malu Gaspar. Logo na abertura do programa, os apresentadores conversaram com a jornalista Consuelo Dieguez, que escreveu o perfil de Bolsonaro para a revista. Intitulada Direita, Volver, a reportagem saiu em setembro de 2016, quando quase ninguém acreditava que o presidenciável pudesse se eleger. A jornalista contou que o candidato relutou em dar entrevistas. “Ele se sentia injustiçado pela imprensa. Foi uma longa negociação até convencê-lo.” Em seu gabinete, o então deputado federal mantinha nas paredes fotos de todos os generais que ocuparam a Presidência da República. “Gostou da decoração?”, perguntou à repórter. O capitão reformado fez questão de filmar a segunda entrevista. “Vou registrar porque vocês, jornalistas, são todos mentirosos”, esclareceu.

Dieguez avaliou que, ao contrário de boa parte dos eleitores de Lula em 2002 e 2006, os de Bolsonaro tendem a ser menos fiéis e podem abandoná-lo caso o presidente eleito não consiga resultados expressivos nos três pilares em que sustentou sua campanha: a redução da criminalidade, o combate à corrupção e a diminuição das taxas de desemprego. Se Lula dispunha de um partido forte e uma militância convicta, angariada ao longo de décadas, Bolsonaro conta com uma legenda até pouco tempo inexpressiva e com um número considerável de apoiadores de ocasião, que votaram nele menos por suas características e mais como uma expressão do antipetismo e da descrença no sistema político atual.

 

No segundo bloco do Foro, os apresentadores receberam Alessandra Aldé, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), onde coordena, desde maio, uma pesquisa que monitora noventa grupos de WhatsApp responsáveis por disparar mensagens de conteúdo eleitoral. Cerca de sessenta desses grupos apoiam Bolsonaro. “É uma amostra pequena. Mesmo assim, por meio dela, pudemos entender o funcionamento do todo”, explicou. A cientista política disse que, em geral, eleitores não gostam de quem ataca adversários. No WhatsApp, porém, é possível desferir ataques sem manchar diretamente a imagem dos candidatos que os fazem, e sem que se consiga rastrear a origem das investidas. Daí o protagonismo dessa rede social ao longo da campanha.

Aldé afirmou ter percebido uma mudança na atitude dos eleitores que recebiam as mensagens. “Nos primeiros meses, ainda havia certo questionamento: será que o conteúdo é verdadeiro? Mas, aos poucos, a contestação desapareceu. As pessoas mais críticas eram enquadradas como inimigas. Em paralelo, passou a haver um incentivo cada vez maior para que os participantes dos grupos enviassem as mensagens a seus familiares.”

A pesquisadora também notou que a campanha bolsonarista funcionava como um combo que unia apoiadores espontâneos e criadores profissionais de conteúdo. Tal aliança se revelou bastante eficiente para ajudar a eleger parlamentares e governadores do PSL ou de partidos simpáticos ao capitão reformado. “As mensagens investiam muito na ideia de que Bolsonaro precisaria de apoio, de que não bastaria elegê-lo presidente.”

O WhatsApp voltou à pauta durante a conversa com o advogado Ronaldo Lemos, especialista em direito digital e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro. Ele disse que a campanha do ex-capitão colocou o Brasil “na ponta” em termos de uso político da tecnologia. “A utilização que os apoiadores de Bolsonaro fizeram do WhatsApp funcionou como o modelo de broadcast televisivo. Alguém produzia uma informação e a disparava para centenas de milhares de seguidores, mas com um poder persuasivo muito mais elevado que o da tevê, porque a informação era reencaminhada e acabava parecendo íntima, por vir de um familiar.”

O advogado acredita que o novo governo manterá a comunicação pela internet. “É como se a campanha eleitoral não terminasse nunca.” Ele comparou a estratégia de Bolsonaro a uma casa com porão. “Você tem a parte de cima, onde vale o discurso da liberdade de imprensa, e o porão, onde as pessoas são informadas (ou desinformadas) por meio de uma rede própria. Na parte de cima, você parece um sujeito nobre. No porão, você bota para quebrar, dizendo coisas que seriam impronunciáveis numa mesa de jantar.”

Por telefone, Pablo Ortellado, doutor em filosofia e professor da Universidade de São Paulo, ressaltou que a campanha do presidente eleito se valeu das redes sociais também para deslegitimar o discurso de artistas e acadêmicos. “Os bolsonaristas criticavam tanto as elites políticas quanto as culturais e intelectuais.”

 

Colaborador da piauí e colunista da Folha de S.Paulo, o sociólogo Celso Rocha de Barros afirmou que a eleição do capitão reformado marca o fim da política brasileira como a conhecíamos, dominada pela rivalidade entre PT e PSDB. “A Nova República acabou e a extrema direita conquistou o Brasil. Neste momento, temos que torcer pelo MDB e pelo Centrão. Torcer para que as forças do atraso que atrapalharam os governos tucanos e petistas consigam moderar Bolsonaro.”

O sociólogo considera que, com quase 47 milhões de votos no segundo turno, Haddad saiu das eleições maior do que entrou. “Havia o risco de um vexame que encerraria sua carreira, mas ele conseguiu uma recuperação impressionante na última semana da campanha.” Quanto ao PT, Barros disse que, embora possua a maior bancada da Câmara, a sigla não se garantiu como líder da oposição. “Se todas as reformas passarem no Congresso, o partido perderá a capacidade de comandar os adversários do governo.” Na avaliação do sociólogo, o PT precisará vislumbrar um futuro em que a figura de Lula será cada vez menos central. “O lulismo acabou.” A partir de agora, concluiu Barros, o Brasil terá o presidente mais extremista de todos os países democráticos. “Viramos um foco de instabilidade geopolítica e um dos principais pontos de difusão da ideologia autoritária no mundo.”

Também colunista da piauí, o filósofo Marcos Nobre salientou que o bolsonarismo ainda não existe, pois carece de organização, apesar de dispor de muita mobilização. “O lulismo, em contrapartida, juntava carisma e mobilização com organização.” Segundo Nobre, o presidente eleito encontrará um sistema político em frangalhos, que já está apostando no fracasso do governo dele.

Diferentemente de Celso Rocha de Barros, o deputado federal Miro Teixeira, da Rede, disse não acreditar que a ascensão de Bolsonaro signifique um retrocesso democrático. “As pessoas que votaram nele não votaram num projeto ditatorial.” O parlamentar contou que, antes das eleições, fez palestras em escolas das Forças Armadas e não viu em nenhuma “a menor possibilidade de os militares desejarem o retorno da ditadura”. 



Na opinião do advogado Oscar Vilhena Vieira, a eleição de Bolsonaro não representa propriamente a vitória de um liberal ou de um conservador, mas de um político que nutre discurso hostil às igualdades e às liberdades. O diretor da Escola de Direito de São Paulo, ligada à Fundação Getulio Vargas, teme que o capitão reformado promova uma regressão na já falida política brasileira de segurança pública e aprofunde o padrão de violência na sociedade. “Nosso sistema de segurança pública é ruim não porque se submete à lei, mas porque não se submete. Ele desrespeita todos os direitos. Acontece que é contraintuitivo pensar que um controle maior dos órgãos de segurança reduzirá os índices de violência. A intuição é justamente oposta: a de que precisamos liberar a polícia para matar os bandidos.”

Por sua vez, o cientista político Miguel Lago – colunista da piauí e diretor da ONG Nossas – receia que a gestão de Bolsonaro piore o trabalho das agências não-governamentais dedicadas a monitorar os órgãos de segurança pública. “O maior risco é que o governo seja apenas uma democracia formal.” Ou melhor: que esvazie as leis, sem romper completamente a ordem democrática. Lago teme, por exemplo, que o governo corte recursos financeiros do exterior destinados às ONGs, como aconteceu na Hungria, na Polônia e em outros países controlados pela extrema direita.

 

Roteirista do programa Conversa com Bial, da Rede Globo, e ex-editor da piauí, o jornalista Rafael Cariello afirmou que a equipe econômica do presidente Michel Temer é séria e vem fazendo um bom trabalho para ajustar as contas públicas. “Bolsonaro, portanto, deverá encontrar parte da casa arrumada. A questão é saber o que vai fazer daí em diante. Há uma incerteza sobre suas propostas para a área.”

A economista Ana Carla Abrão também usou a palavra “incerteza” ao falar de suas expectativas sobre o novo governo. Ela mencionou a dissonância entre as declarações de Bolsonaro e de Paulo Guedes, seu guru econômico, a respeito de temas como privatização. “Guedes disse que privatizaria várias empresas para trazer um trilhão de reais ao caixa do governo e, assim, resolver os problemas fiscais. Mas não explicou como chegou a esse número. Já Bolsonaro falou que não vai privatizar o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e a Petrobras.”

Na etapa final do programa, o repórter da piauí Bernardo Esteves, especializado na cobertura de ciência, entrevistou o ambientalista Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, uma rede de ONGs da área ambiental. Esteves lembrou que Bolsonaro fez declarações que soaram como ameaça aos ambientalistas – como a ideia de deixar o Acordo de Paris (depois ele recuou em relação ao tema), ou de subordinar a pasta do Meio Ambiente ao Ministério da Agricultura (sobre a qual também recuou). O presidente eleito também chegou a prometer acabar com as multas ambientais do Ibama e com qualquer forma de ativismo.

“O meio ambiente surgiu na plataforma do candidato com o olhar de cinquenta anos atrás, como algo a ser conquistado, dominado, e não como um ativo”, afirmou Rittl. O ambientalista disse ter pouca esperança de que a política do presidente eleito para a área venha a mudar. “Ainda não dá para saber se os recuos em relação ao Acordo de Paris e ao Ministério do Meio Ambiente são reais ou se eram apenas para garantir apoio na eleição.”

Rittl afirmou ter esperança, no entanto, de que Bolsonaro seja obrigado a recuar por motivos econômicos. “Esse tipo de retrocesso afeta a reputação das empresas brasileiras que atuam em mercados internacionais”, explicou. “Os consumidores dos mercados mais premium têm uma preocupação grande com o que estão comprando. Há uma demanda por sustentabilidade e respeito ao meio ambiente. Passar por cima disso significa dar um imenso tiro no pé até para os ruralistas.”

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