questões cinematográficas

Fábulas políticas – invencionices e hipocrisias

De quantas vítimas precisaremos para que medidas legais e efetivas sejam tomadas para destituir o presidente?

Eduardo Escorel
24jun2020_07h41

Na quinta-feira (18/6), a pergunta feita à boca pequena – “Cadê o Queiroz?” – foi, afinal, respondida. Logo cedo, soube-se que ele estava refugiado há um ano em Atibaia, a 66 km de São Paulo, na casa de Frederick Wassef, conhecido como Anjo, advogado do 01 e de seu pai, o atual morador provisório do Palácio da Alvorada. Na véspera, Wassef havia estado na cerimônia de posse do ministro das Comunicações no Palácio do Planalto.

Preso e transferido de helicóptero para o Rio de Janeiro, Queiroz foi recolhido a Bangu 8, no Complexo Penitenciário de Gericinó, bairro na Zona Oeste do Rio, onde está em uma cela de 6 m2, isolado dos demais presos para cumprir o protocolo de proteção da penitenciária contra a Covid-19. Ele teria chorado muito nas primeiras horas passadas no presídio, segundo a TV Globo.

Sabemos, agora, onde Fabrício Queiroz está, mas desconhecemos o paradeiro de sua mulher, Márcia Oliveira de Aguiar, que haverá de ter motivos para estar foragida. E o ocupante temporário do Gabinete da Presidência da República, no terceiro andar do Palácio do Planalto? Sabemos onde ele está, mas ignoramos onde anda com a cabeça?

No dia da prisão de Queiroz, o país contabilizou quase 1 milhão de pessoas contaminadas com o novo coronavírus, e 47.869 vítimas fatais da Covid-19. De manhã, o comboio oficial da Presidência da República passou direto pelo portão de acesso ao Palácio da Alvorada, sem fazer a parada habitual para conversar com o grupo de simpatizantes que aguardavam o presidente. No início da noite, visivelmente desorientado, ele contou uma fábula – narrativa curta de fatos imaginários ou não – ao dizer que “Queiroz não estava foragido e não havia nenhum mandado de prisão contra ele e… foi feita uma prisão espetaculosa… mas parecia que estavam prendendo o maior bandido da face da terra… e, tranquilamente, se tivessem pedido ao advogado, creio eu, acredito, o comparecimento dele a qualquer local, ele teria comparecido. E por que estava naquela região em São Paulo? Porque é perto do hospital onde faz tratamento de câncer. Então, esse é o quadro. Da minha parte, está encerrado o caso Queiroz.” É pouco provável, porém, que o presidente consiga se livrar tão cedo desse fantasma. Além de invencionices, e alguns fatos verdadeiros, ele disse também, e repetiu: “que a Justiça siga o seu caminho.” Com isso deu impressão de que Queiroz havia sido largado à própria sorte e certamente haverá, se esse for o caso, preço alto a pagar pelo abandono.



Tamanho conjunto de falsidades talvez sirva ainda para satisfazer seguidores fanáticos, crédulos por definição. Mas quem guarda um resto que seja de racionalidade e lucidez só pode concluir que a desmoralização do ocupante provisório do Gabinete da Presidência da República está pronta e terminada.

É difícil aceitar sermos obrigados a tolerar essa situação por mais tempo, em nome do respeito à Constituição e da defesa do regime democrático. Difícil e injusto. Milhares de brasileiras e brasileiros já pagaram com a vida pela inépcia do governo federal. Milhares mais morrerão nas próximas semanas. A quantas vítimas precisaremos chegar antes que medidas legais, mas efetivas, sejam tomadas para destituir o presidente?

Outra fábula contada na quinta-feira foi a da demissão do ministro da Educação, após ter cometido despautérios durante 14 meses e 10 dias. No inusitado vídeo publicado em rede social no qual a exoneração foi confirmada, o demitido afirma, ao lado de quem o demitiu, não querer discutir os motivos de sua saída, pois “o importante” é dizer que recebeu “um convite para ser diretor de um banco… no Banco Mundial… e com isso eu, a minha esposa, os nossos filhos e até a nossa cachorrinha Capitu, a gente vai poder ter a segurança que, hoje, está me deixando muito preocupado.” Ou seja, o demitido procura dar a entender que deixa o ministério em função do convite para ser diretor do Banco Mundial (BIRD), não por ter se tornado inconveniente para o governo federal, entre outras ocasiões, quando chamou os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) de “vagabundos” e disse que por ele “botava todos na cadeia”. Insinua, além disso, estar sofrendo algum tipo de ameaça. Hirto, ao lado do demitido, quem o demitiu quase não olha para ele, parecendo estar constrangido. Mantém o olhar fixo, à frente, salvo por instantes. Mais uma vez, como aconteceu com a ex-secretária da Cultura, o presidente ofereceu um presente de consolação para quem exonerou. Desta vez, porém, foi um regalo e tanto – o salário anual de diretor do BIRD é de 258.570 dólares, equivalentes hoje a 115,8 mil reais por mês, mais de três vezes o que é pago a um ministro.

O ocupante provisório do Gabinete da Presidência da República, que considerou a prisão do Queiroz “espetaculosa”, ignora, ou finge ignorar, ser ele mesmo um mestre em espetaculosidades, ou seja, cenas ridículas, espalhafatosas ou escandalosas. Exemplar desse atributo é o final do vídeo em que o ministro da Educação demitido agradece a quem o demitiu, e este pergunta se pode falar antes de ele fazer o que seria sua despedida. Depois de o presidente dizer breves palavras, desconexas e difíceis de decifrar, o ministro da Educação exonerado pede, afinal, “um abracinho”. Desajeitados a princípio, os dois acabam enlaçados em um abraço apertado, dando tapas vigorosos nas costas um do outro.

Pouco depois, ao responder a pergunta de uma repórter, Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, disse, com um sorriso discreto, que a ida do ministro da Educação demitido para o Banco Mundial se explicava “porque não sabem que ele trabalhou no Banco Votorantim, que quebrou em 2009 quando ele era um dos economistas do banco.”

No dia seguinte, foi tomada uma iniciativa que tenta impedir o presentão oferecido ao demitido de ser entregue. Mesmo com pouca possibilidade de ser bem-sucedida, foi enviada uma carta com quase trezentas assinaturas de representantes da sociedade civil e ONGs às embaixadas de países que integram o grupo do Brasil no BIRD, fazendo um apelo para que o ministro da Educação exonerado não seja eleito diretor-executivo da instituição por “não ter competência e condições técnicas de assumir essa função”, além de sua gestão no ministério ter sido “destrutiva e venenosa”.

O final da fábula, por enquanto ao menos, aconteceu quando o demitido, alegando temer ser preso, fugiu com a conivência do presidente da República para os Estados Unidos, onde entrou apresentando passaporte diplomático a que tinha direito como ministro da Educação. Sua exoneração só foi publicada no Diário Oficial depois de ele ter passado pelo Serviço de Imigração americano.

O jogo de cena político do governo federal brasileiro alcançou um paroxismo com a prisão do Queiroz e a fuga do ex-ministro da Educação. As duas fábulas, misturando fatos reais, alguns inverossímeis, com mentiras e invencionices, devem ter desdobramentos e serem sucedidas por novos episódios.

Para coroar a semana, o Brasil ultrapassou 1 milhão de casos de Covid-19 e mais de 50 mil vítimas fatais da doença, sem contar as possíveis 20 mil mortes que teriam ocorrido sem serem registradas como Covid-19. Estamos nos encaminhando para nos tornarmos os infames campeões mundiais da pandemia, superando os Estados Unidos.

Edição extra do Diário Oficial, publicada na sexta-feira (19/6) à noite, trouxe a nomeação do quinto secretário Especial da Cultura em menos de dezoito meses de governo. O escolhido é uma nulidade no sentido de que não se sabe o que ele pensa sobre as atribuições da Secretaria, nem qual é sua qualificação para o cargo. Trata-se, informa O Globo, de um ator e apresentador de 48 anos que é surfista e mora na Barra da Tijuca. Currículo ralo que ratifica o desapreço do governo pela cultura e suas múltiplas ramificações.

Fábulas políticas baseadas em mentiras, incluindo encenações hipócritas, como as que prevalecem na atual Presidência da República, contribuem para entorpecer a opinião pública e amortecer o senso crítico de todos. Nessas horas, mensagens publicitárias podem vir ao encontro dessa tendência. É o que ocorre com o comercial de uma concessionária de telefonia móvel, telefonia fixa, banda larga e tevê por assinatura que, segundo dados da Anatel, tem cerca de 82 milhões de clientes. É fácil imaginar o alcance de uma peça como essa e seu potencial para moldar corações e mentes.

Como é costumeiro nesses comerciais, uma sucessão rápida de imagens de janelas e situações iluminadas pela luz do sol é conduzida por uma voz em off durante 45 segundos. O texto afirma de forma categórica que “pela primeira vez estamos vendo o mundo pelas janelas. As reais e as virtuais. E por elas o sol quer entrar. O sol da simplicidade, das brincadeiras com os filhos, da empatia, da solidariedade. Deixe o sol da gratidão e da esperança entrarem. A grande inovação que estamos preparando agora é reaprender a sermos mais humanos. Deixe o sol entrar.” Em seguida, vem a assinatura da concessionária de telefonia.

Descontada a premissa errada de que “pela primeira vez estamos vendo o mundo pelas janelas reais e virtuais”, destaca-se a exaltação feita a valores sem correspondência com a realidade atual do país e as previsões mais razoáveis para a era pós-pandemia. Janelas sempre foram, por um lado, postos de observação privilegiados do mundo exterior, ao menos desde que passaram a ser incorporadas às construções, de modo sistemático, na Idade Média. E cada vez mais a partir dos registros heliográficos na primeira metade do século XIX, seguidos do desenvolvimento da fotografia, e do cinema, no século XX. Basta lembrar de alguns clássicos, de Janela Indiscreta a Tishe!, passando por Não Amarás.

De outro lado, e mais relevante do que esse erro, é a mistificação contida no uso, em plena calamidade sanitária, das noções de “simplicidade”, “brincadeiras”, “empatia”, “solidariedade”, “gratidão”, “esperança” e “reaprendizado” de como “sermos mais humanos”. Fábulas comerciais como essa, somadas às invencionices políticas contidas nos relatos do governo federal, prestam um desserviço social cujas consequências podem ser trágicas. Faço minhas as palavras do professor de filosofia Gilles Lipovetsky, publicadas na versão impressa da revista Época em 15/6: “Precisamos mobilizar as forças da modernidade, como a ciência, por exemplo, [para vencer a pandemia]. Não dá para sonhar. A solução real não passa por um retorno romântico às coisas simples. Ela passa, ao contrário, por um desenvolvimento ainda maior da ciência e da tecnologia. Até porque não queremos apenas vencer a pandemia, também precisamos de uma economia que desenvolva empregos, diminua a pobreza e alimente o planeta inteiro.”

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Nesta quarta-feira (24/6), o CINUSP, órgão da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, faz a sua primeira sessão virtual com a exibição do curta-metragem “A Mulher da Casa Arco-íris” (2017, 23min), de Gilberto Sobrinho, disponível das 16:00 às 19:00, seguido de debate com o diretor do filme. Para assistir, acesse o perfil do CINUSP no Facebook ou no YouTube.

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Até 9 de julho está acontecendo a mostra online de dez Clássicos do Cinema Japonês, promovida pela Fundação Clóvis Salgado. Através do site da Fundação, estarão disponíveis três longas de Yasujiro Ozu, três de Kenji Mizoguchi, três de Mikio Naruse (1905-1969) e um de Kinuyo Tanaka (1909-1977).

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fábulas políticas, cinemateca, destituir o presidente

A campanha pública de apoio aos funcionários e prestadores de serviço da Cinemateca Brasileira (CB) prossegue. Para contribuir, basta acessar o link. A partir de 20 reais, todo valor é bem-vindo. Falta completar, nos próximos dez dias, cerca de 55% da meta proposta.

A página Cinemateca Acesa, iniciativa do “movimento que pretende articular novas ideias, produções e processos de criação em defesa da CB e de seus funcionários”, em defesa do Cinema Brasileiro e da CB, patrimônio da nossa sociedade, foi criada em 13 de junho. Na página, estão sendo disponibilizados “tesouros” do acervo da CB que correm o risco de serem perdidos, e há informação atualizada sobre o andamento dessa ameaça. Na semana passada foi exibido, entre outros filmes, o documentário ABC da greve (1979/90), de Leon Hirszman.

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Diário de Bordo 2, Bebeto Abrantes e Cavi Borges

Continuamos rumo à sexta parte do nosso filme-processo. Neste terceiro mês de quarentena (100 dias!), nossos personagens estão em nova fase que chamamos de “ADAPTADOS”. Suas novas vidas já estão mais ou menos organizadas e os trabalhos e ações diárias já estabeleceram um novo cotidiano com muitas demandas de sobrevivência. Nem tudo se move como nós diretores gostaríamos. Invenções se fazem necessárias e a dúvida que temos há algumas semanas, se deveríamos e de como poderíamos entrar no filme – nós os diretores – passa agora, a ser um caminho necessário, diríamos, inevitável. Uma possibilidade que está sendo pensada é a de fazermos calls pelo Zoom com cada um dos personagens, colocando abertamente na mesa nossas dificuldades, dilemas e apreensões. Abrindo o debate da delicada e muitas vezes polêmica relação documentarista/documentado. Estamos fazendo um documentário. A imprevisibilidade mostra a sua cara. Mudaremos nosso rumo? Pelo visto, SIM. E, entre tantas incertezas, está a de quando vai terminar essa quarentena, e, em consequência, nosso filme. Mas isso, é o que todos estamos vivendo.

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L’Assommoir (1909), de Albert Capellani, L’Inondation (1923), de Louis Delluc e Fuori sala #1 (1911-1954), de diversos autores, realizado em homenagem ao festival Il Cinema ritrovato de Bolonha, destacam-se entre as novidades disponíveis na plataforma de streaming gratuita da Cinemateca Francesa.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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