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Favela é Moda – resistindo e crescendo de novo

Documentário ganha vigor e complexidade quando jovens falam por si e de si

Eduardo Escorel
10fev2021_09h04

O prólogo de Favela é Moda (2020) surpreende. O documentário de Emílio Domingos começa na quadra da Escola de Samba Unidos do Jacarezinho, onde Julio César da Silva Lima, criador e empreendedor da Jacaré Moda, diante de um grupo de mães, está prestes a anunciar o resultado da seleção de suas filhas para integrarem o casting da agência de modelos e produtora. Nessa primeira cena, gravada em abril de 2015, Julio César anuncia:

“Nós vamos dizer quem foram as meninas escolhidas. Por que elas foram escolhidas? Porque elas têm o perfil que o mercado da moda, neste momento, está procurando. Nós não estamos aqui e nem podemos ditar moda. A moda já foi ditada. Nós estamos pra seguir a moda… Nós não queremos ser uma ONG nem um projeto social. Não pensa que eu sou isso, não. Se você pensar, você me magoa, tá? Eu quero ser uma empresa. Eu quero conseguir ser um empresário de moda. E vocês vão me ajudar com a filha de vocês.”

Morador do Jacarezinho, favela da Zona Norte do Rio de Janeiro, o ex-porteiro Julio César nos desconcerta ao revelar a intenção de seu projeto – o critério para selecionar as meninas é atender à demanda do mercado. O objetivo não é criar moda, porque ela já tem padrão definido. O propósito é se adequar aos parâmetros estabelecidos. Levada ao pé da letra, é uma postura conformista, pautada pelo propósito deliberado de imitar, sem ambição de ser inventiva. Mas não é bem assim, como se verá adiante.

Emílio Domingos é um documentarista atento. Observa, sem fazer juízos de valor ou proferir sentenças. Manifesta grande empatia por seus personagens, qualidades de Favela é Moda encontradas também em dois de seus documentários anteriores – A Batalha do Passinho (2013)  e Deixa na Régua (2017) – que integram a trilogia do corpo, na qual valoriza manifestações de criatividade, sem desconsiderar que elas possam demonstrar tendência a se espelharem em modelos pré-existentes.

A Batalha do Passinho registra o torneio, luta ou duelo de dançarinos que virou febre em favelas do Rio de Janeiro. Um grupo de batalhadores embarca para se apresentar em Londres, no encerramento dos Jogos Paraolímpicos de Verão, em setembro de 2012. Já no aeroporto, antes de partir, um dos rapazes declara: “O passinho é a vida de muitos jovens hoje em dia. Eu pretendo que ele não pare nunca. Eu pretendo que ele vá rodando o mundo e o mundo vá rodando em torno do passinho.” Deixa na Régua, por sua vez, provém diretamente do filme anterior. Capta conversas miúdas de três barbeiros com seus clientes, enquanto tesouras, navalhas e giletes são manuseadas fazendo desenhos elaborados e outras proezas nas cabeças e sobrancelhas dos fregueses.

Transcorridos dois terços de Favela é Moda, a impressão causada pelas palavras de Julio César na abertura se altera. Gravado durante quatro anos, o documentário ganha vigor e complexidade quando jovens modelos, moças e rapazes, falam por si mesmos e de si mesmos. Em especial, ao participarem, em 2014, da aula de expressão corporal a cargo do ator Ricardo Fernandes, integrante do premiado grupo de teatro Os Arteiros, criado na Cidade de Deus, em 2010. Ao dialogarem com o professor, alunas e alunos revelam facetas que expressam sentimentos profundos, lucidez quanto à desigualdade social e o racismo da sociedade brasileira, consciência da injustiça de que suas famílias e eles são vítimas. Em conjunto, formam um painel de agravantes que acentua a responsabilidade da elite pela iniquidade predominante no país.

Raquel Félix em cena final do documentário ‘Favela é Moda’ – Foto: divulgação

 

Fernandes pergunta a Hanna Tomaz, uma das alunas, moradora da Ilha do Governador: “Você é feliz?” Ela responde: “Não, eu não sou… Porque tem muita coisa ainda pra acontecer. Meus pais não são felizes… com a vida que eles têm… ver minha mãe não dormir, chorando, é bem pesado. Ela falar pra mim: ‘Eu não dormi pensando: não sei se dá pra pagar isso, pagar aquilo.’ E isso acaba comigo. Minha mãe, de manhã cedo, acordar chorando acaba comigo. Então, se eu estou num emprego que eu não quero… eu poderia procurar mais… Eu poderia falar: ‘Não, eu vou ficar um pouco mais aqui nas costas dos meus pais, até achar o meu emprego dos sonhos!’ Só que não é assim que funciona…”

Fica claro que o grupo é formado por pessoas que lutam para superar grandes dificuldades, além de diferentes formas de discriminação, para sobreviver e progredir na vida. Merecem respeito por isso e o documentário os trata com o devido respeito.

Ao começar o terço final de Favela é Moda, Julio César volta a intervir, mas desta vez, para se contrapor ao que entende ser manifestação de autopiedade e conclamar à resistência: “Eu vi gente com um discurso muito forte e com uma resistência muito fraca. Muito… É um discurso do caramba, mas uma resistência que te para no meio do caminho. Os nossos irmãos negros já passaram a merda que tinham que passar. Já lutaram o que tinham que lutar. Agora quem tem que meter o pé na janela são vocês. Ficar pagando de coitadinho. Um discurso muito forte, mas na hora de meter o pé, tu paga de coitadinho, tu não vai conseguir acabar de arrebentar essa porta chamada preconceito, homofobia. Sabe? Resistência. Não vai! A galera de outrora tá precisando da nossa força jovem de agora. De agora! Eles lutaram e conquistaram os direitos. Agora, eles não têm mais força… A pergunta foi: ‘Você é feliz?’ ‘Não.’ Desde quando ‘não’, gente? Tu não sabe o que tu passou pra chegar até aqui, não? Te trouxeram na merda de um navio negreiro, onde tinha um montão de rato, onde todos nós poderíamos morrer. Estamos vindo agora no mesmo navio, caindo dentro do mar, morrendo. Depois, pessoas pegando a gente, colocando nos países e dando a pior qualidade de vida, e a gente resistindo e crescendo de novo. Tentando de novo, se arranjando de novo, e se refazendo de novo. Aí te perguntam: ‘Você é feliz?’ ‘Claro que sou, nem, porque tentaram de tudo pra mim [sic] dar errado, mas eu estou aqui e dando certo’.”

Uma transformação radical parece ter ocorrido entre o Julio César do prólogo e o de dois anos depois – sua postura crítica parece ter aflorado e ele conclama moças e rapazes a resistir.

Favela é Moda recebeu o prêmio de Melhor Documentário pelo voto popular e Menção Honrosa do Júri, no Festival do Rio, em 2019. Foi premiado também como Melhor Longa Metragem, em 2020, na XIII Edição do Prêmio Pierre Verger, atribuído na Reunião Brasileira de Antropologia. Participou do Forumdoc.bh no ano passado,e estreou em 22 de janeiro no canal Curta!, podendo ser visto no Curta!On, novo clube de documentários do Now.

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Leitura indispensável é a do artigo de Ana Paula Sousa – “Como os profissionais da cultura estão se virando na pandemia” – publicado no Valor, em 5 de fevereiro. Com a competência habitual, a autora relata em quinze páginas algumas táticas de sobrevivência adotadas pelos trabalhadores do setor, narrando experiências concretas, como, por exemplo, a da operadora de som de teatro, Joyce Santiago, que criou um serviço de entrega ao ficar sem trabalho quando os teatros foram fechados devido à pandemia. Citando portaria da Secretaria Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade do governo federal, Ana Paula indica “a cultura como o setor mais afetado pela pandemia” – uma lamentável honraria. E deixa claro que, “no Brasil, a crise é agravada pela desarticulação das políticas públicas de cultura e pela instabilidade institucional” a partir da posse na Presidência da República de você sabe quem, em janeiro de 2019.

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Excepcionalmente, no próximo domingo de Carnaval, dia 14 de fevereiro, como sempre às 11 horas, Piero Sbragia e este colunista conversam com Alice de Andrade no programa #TerçaAoVivo do canal de YouTube 3 Em Cena. Amores Cubanos, série de treze episódios de cerca de 30’, com direção de Alice, foi exibida no Canal Brasil de 9 de novembro de 2020, a 1º de fevereiro deste ano, e está disponível na plataforma Globoplay. Em Amores Cubanos, Alice reencontra casais que participaram do casting para seu curta-metragem Luna de Miel, de 1992. O acesso à conversa no domingo de Carnaval, 14 de fevereiro, pode ser feito através do link https://youtu.be/SRUGW9VO_p4 .



Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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