questões da sucessão

A festa que Bolsonaro cancelou

O PSL enviou 300 convites para celebrar a vitória já no primeiro turno, num hotel na Barra da Tijuca. No fim, sobrou para aliados justificar por que não ganhou

Consuelo Dieguez
09out2018_01h43
INTERVENÇÃO DE PAULA CARDOSO EM FOTO DE CONSUELO DIEGUEZ

A campanha de Jair Bolsonaro tinha tudo preparado para a festa da vitória, neste domingo, após o anúncio do resultado das urnas. Haviam sido convidadas cerca de trezentas pessoas para acompanhar a entrevista que o presidenciável do PSL daria depois da apuração, no segundo andar do Hotel Windsor, em frente ao mar da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Para entrar, os jornalistas credenciados passavam por um forte esquema de segurança, com revista minuciosa de bolsas e sacolas. Os interessados em fazer perguntas registravam então o nome em uma lista, para entrar numa fila. Em seguida, eram submetidos a nova revista com aparelhos de detecção de metais. Por fim, chegávamos às escadas rolantes que levavam a uma sala do centro de convenções, onde nos submetiam, novamente, a uma revista. Tudo isso se provaria inútil, à medida que a noite passasse e o resultado do primeiro turno viesse.

No enorme salão onde a entrevista seria concedida, a equipe de Bolsonaro montou uma mesa com dezesseis lugares sobre um tablado, forrado de verde, em que se lia o slogan de campanha: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.” Ao fundo, na parede, uma grande foto do candidato sorridente, impressa sobre a bandeira nacional, com os dizeres: “Meu partido é o Brasil”. Sobre a mesa havia marcadores com os nomes dos apoiadores mais próximos do presidenciável, cotados para integrar um governo seu, que participariam da entrevista. No centro, o nome do candidato, entre as placas com os nomes do seu vice, general da reserva Hamilton Mourão, e de sua mulher, Michelle. Havia também marcadores com os nomes do pastor e senador Magno Malta, do deputado Onyx Lorenzoni, do presidente do PSL, Gustavo Bebianno, do bispo Silas Malafaia, do general da reserva Augusto Heleno e do ruralista Nabhan Garcia. Placas com os nomes dos três filhos, Carlos, Eduardo e Flávio e do economista Paulo Guedes, terminavam de compor a mesa.

No centro do salão, arrumado com fileiras de cadeiras, foi armado um segundo tablado para que as câmeras de tevê pudessem filmar o candidato acima das cabeças da plateia. No começo da tarde, o tablado estava totalmente ocupado por operadores de câmera de diversas emissoras.

O partido estava tão seguro da vitória que despachou trezentos convites para apoiadores assistirem à entrevista no hotel. Na sexta-feira, dois dias antes da eleição, um dos organizadores da campanha do PSL, o empresário carioca Paulo Marinho, me disse que seria “quase impossível” Bolsonaro não ganhar no primeiro turno. “A gente alugou o hotel para ele dar entrevista. Chamamos políticos do Brasil inteiro. Irão mais de trezentas pessoas para o evento”, me contou.



OHotel Windsor foi escolhido por causa da localização, ao lado do condomínio onde mora Bolsonaro, na avenida Lúcio Costa, à beira-mar da Barra da Tijuca. Assim, ele não precisaria perder muito tempo com o deslocamento de sua casa até o lugar da entrevista. Tudo fora cronometrado. Ele sairia de sua casa assim que não houvesse mais dúvida da sua vitória no primeiro turno, o que se daria, segundo os planos do partido, antes mesmo da apuração final de todas as urnas.

Por volta das 18 horas, um grupo animado de apoiadores do candidato se juntara, ao acaso, no bar do hotel, contíguo ao lobby, para aguardar o início da contagem dos votos. Uma hora depois, quando os primeiros números começaram a ser divulgados pela GloboNews, vindos principalmente dos estados do Sul do país, o entusiasmo tomou conta do ambiente. Com base nas urnas apuradas, Bolsonaro aparecia com mais 49% dos votos válidos, contra 26% de Fernando Haddad, o que apontava para a vitória do capitão em primeiro turno. Aplausos e gritos de “já ganhou” ecoavam pelo lobby do hotel.

Uma nova onda de entusiasmo se deu quando os resultados indicaram a derrota da ex-presidente Dilma Rousseff para o Senado, em Minas Gerais. Em coro, os apoiadores vibraram: “Tchau, querida.” Confirmada a derrota do petista Lindbergh Farias na disputa pelo Senado no estado do Rio, nova eufórica comemoração. “Tchau Lindinho”, gritaram, em coro.

Àquela altura, na frente do hotel, se formara um enorme engarrafamento ao longo da avenida. Centenas de carros buzinavam, antecipando o que acreditavam ser uma vitória de Bolsonaro.

Foi quando os resultados do Nordeste começaram a aparecer, diminuindo a vantagem em relação a Fernando Haddad. À medida que a proporção de votos válidos para Bolsonaro caía, o entusiasmo dava lugar ao nervosismo. Cerca de quarenta pessoas acompanhavam a apuração no bar do hotel. “Não é possível. Está caindo”, gritou uma apoiadora angustiada. “Isso porque a apuração do Rio está atrasada”, berrou outro, tentando manter acesa a esperança do grupo. Um empresário carioca, encostado em uma coluna no bar, esfregava as mãos no rosto, com expressão tensa. “Não é possível. Eu não vou aguentar um segundo turno. Vou arrebentar de ansiedade”, dizia para a mulher, ao lado dele. O apoiador me contou que ajudou na campanha, fez santinhos para o candidato. “É uma campanha pobre. Se a gente não ajudar, não sai nada”, disse.



Por volta das 20h30, já ficara claro que haveria segundo turno. O grupo, que pouco antes pulava e gritava de animação, silenciou. Falando baixo, com os olhos fixos na tela, procurava as razões para a queda no percentual de votos de Bolsonaro. Do lado de fora do hotel, as buzinas começaram a cessar.

Na sala de imprensa, às 21 horas, jornalistas brasileiros e estrangeiros aguardavam a chegada de Bolsonaro. Haddad, cercado de correligionários, já tinha feito um pronunciamento e comemorava sua ida para o segundo turno. Os assessores do ex-capitão do Exército entravam e saíam da sala com informações inconclusivas sobre a sua vinda para a coletiva. Um deles chegou a informar que o candidato estava a caminho, mas que tinha dificuldades para chegar por causa do engarrafamento. “Ele não pode vir a pé, embora seja muito perto, por causa do seu estado de saúde”, disse. A desconfiança dos jornalistas de que o deputado não apareceria só aumentava. Pouco antes das 21h30, alguém avisou que ele falava ao vivo nas redes sociais, e admitia o segundo turno.

Às 22 horas, o pessoal de apoio começou a retirar as placas com os nomes de Bolsonaro e de sua equipe colocadas sobre a mesa. Em lugar das dezesseis, deixaram apenas seis. Os jornalistas estrangeiros perguntavam para os colegas brasileiros: “Ele não virá? Mas pode isso? É isso mesmo?”, e sacudiam a cabeça. Outros diziam: “Vai ser difícil fazer a cobertura caso ele chegue à Presidência.”



Pouco depois, os seis representantes escolhidos sentaram-se à mesa para falar em nome de Bolsonaro. Apareceram o deputado Onyx Lorenzoni, do DEM, que apoia a campanha desde o início e é apontado como ministro da Casa Civil num governo Bolsonaro; o ruralista Nabhan Garcia, que é citado como ministro da Agricultura, além do presidente do partido, Gustavo Bebianno, do empresário Paulo Marinho e de Hélio Bolsonaro. O sargento do Exército Hélio Bolsonaro, um homem negro e alto, é amigo do candidato desde os tempos de quartel.  Em 2016, ele concorreu a uma vaga de vereador em Nova Iguaçu, com o codinome de Hélio Negão, e conseguiu míseros 480 votos. Nessas eleições, adotou o nome Bolsonaro e foi o mais votado do estado, com 345 mil votos.

Os cinco se acomodaram à mesa. Bebianno foi o primeiro a falar. Disse que Bolsonaro não viera “por causa dos seus problemas de saúde”. “Ele teve um dia muito exaustivo.” Depois, o presidente do PSL insinuou que o resultado não tinha sido justo, citando supostas irregularidades nas urnas eletrônicas. Reclamou também das “minorias que não respeitam as maiorias”, e condenou as novelas da Rede Globo que “faltam com respeito à família brasileira”.

O deputado Onyx Lorenzoni procurou mostrar confiança na eleição no segundo turno. Disse que a bancada ruralista garantiria apoio a Bolsonaro no Congresso, afora os 52 deputados que foram eleitos pelo PSL. E disse que a vitória de Bolsonaro no segundo turno era “inexorável”. Na saída, numa nova conversa com os jornalistas, complementou. Para ele, ainda que a cúpula de partidos mais de centro, como o PSDB, apoiem Haddad, o eleitor do partido não irá acompanhar seus caciques. “Vocês acham que eleitor de Alckmin vai votar no Haddad?”, questionou. Ele também se disse convencido de que os eleitores de Ciro Gomes não irão em massa para a candidatura petista.

Integrantes da campanha de Bolsonaro em entrevista no hotel Windsor, na Barra, após a apuração dos votos do primeiro turno


Mais tarde, em um jantar com jornalistas em um restaurante ao lado do hotel, Nabhan Garcia disse ter acompanhado a contagem dos votos ao lado de Bolsonaro. Segundo ele, o ex-capitão “passou o dia tranquilo” e seus correligionários estavam muito mais ansiosos do que o candidato. Quando as chances de vitória no primeiro turno começaram a ficar distantes era Bolsonaro, segundo Garcia, quem procurava acalmá-los. “Ele estava muito cauteloso. Embora nós, em volta dele, estivéssemos confiantes de que ele poderia ganhar.” Disse que ele enfrentou bem o resultado. “Ele levou uma facada. Esteve à beira da morte. Essas situações limites mudam a vida de todo mundo. Hoje ele está muito mais emotivo, mas também muito menos ansioso. Parece aceitar as coisas com mais serenidade”, avaliou.

Garcia contou que Bolsonaro assistiu à apuração ao lado de correligionários próximos, como ele, Lorenzoni, Paulo Marinho, Bebianno, Paulo Guedes e seu vice, general Mourão. Perguntei como estava a relação do candidato com Mourão e Guedes, após as entrevistas desastradas que eles concederam dias antes da eleição. “Tranquila. O ambiente estava ótimo. Descontraído. Rimos muito”, disse.

Quando chegaram, contou o ruralista, um segurança do presidenciável chamado capitão Carneiro pediu a todos que deixassem seus celulares sobre o móvel da sala, para não haver risco de vazamento de imagens. As mulheres foram para outro ambiente e os homens ficaram juntos, conversando. Perguntei sobre quais assuntos. “Bobagens, brincadeiras”, disse, sem especificar o teor das conversas. E completou: “Assunto de homem.”

Consuelo Dieguez

Consuelo Dieguez, repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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