questões legislativas

Festival de traições na Câmara

Rasteiras, negociatas e dribles marcam eleição que pôs Arthur Lira, aliado de Cunha e Bolsonaro, no comando dos deputados

Thais Bilenky
02fev2021_13h25
Lira (ao centro) e aliados comemoram vitória com os braços erguidos; Rodrigo Maia (sentado) não escondeu abatimento –
Lira (ao centro) e aliados comemoram vitória com os braços erguidos; Rodrigo Maia (sentado) não escondeu abatimento – FOTO: MICHEL JESUS/CÂMARA DOS DEPUTADOS

Na margem do Salão Verde, um corredor estreito, cheio de portas que formam um labirinto de salas, leva ao amplo gabinete da Presidência da Câmara. Por volta das 17 horas de segunda-feira (01/02), a poucas horas da eleição da Mesa Diretora da Casa, a geografia de aglomerações já denunciava a nova configuração de poder. A sala do PP, partido de Arthur Lira, candidato de Jair Bolsonaro ao comando da Câmara, estava apinhada de gente saindo pelas beiradas. O gabinete da Presidência, do qual Rodrigo Maia (DEM-RJ) se despedia, estava na calmaria. 

Para rifar Maia, traiu-se até deputado que tinha traído. Compromissos partidários foram rasgados à luz do dia, promessas não resistiram a contrapropostas a portas fechadas e toda a negociação que culminou com a vitória de Lira foi encarada com normalidade. “É sempre assim”, sintetizou Ciro Nogueira, presidente do PP, que, embora seja senador, foi o grande articulador da campanha do aliado e do apoio do presidente Bolsonaro a ele.

Às 11 horas de segunda-feira, 1º de fevereiro, dia da eleição, a Câmara começava a receber os deputados depois do recesso. A maioria usava máscara para se proteger da pandemia de Covid-19, mas beijos, abraços e apertos de mão foram dados no reencontro sem preocupações sanitárias. Logo na entrada, o líder do DEM, deputado Efraim Filho, encontrou Marcelo Ramos, do PL, que seria naquela noite eleito primeiro vice-presidente na chapa de Lira. “Marcelão”, cumprimentou. “Doido para essa porra acabar”, respondeu Ramos, abraçando-o. “Nós vamos fazer um churrasco para confraternizar”, prometeu Efraim Filho, querendo dissipar as rusgas que a campanha trouxe à relação do DEM com o Centrão de Ramos.

A bancada do partido ficou “sem pai nem mãe”, como definiu Marcelo Ramos, quando ACM Neto, seu presidente nacional, declarou a neutralidade da bancada na eleição. Era o golpe que desmoralizaria Rodrigo Maia, o fiador da campanha de Baleia Rossi, do MDB, contra Lira. Uma negociação paralela à do então presidente da Câmara foi minando o apoio da bancada de 29 deputados do DEM ao emedebista e, formada a maioria, a cúpula da legenda atropelou Maia e desfez o apoio ao MDB. “Era preciso, para organizar a bancada”, justificou Efraim Filho. “Foi uma contenção de danos”, pacificou Ramos. “Força lá!”

Minutos depois se aproximou outro deputado do DEM. “Vai ter que me arranjar alguma coisa, hein”, cobrou. Fora do bloco vencedor, mesmo entregando votos a Lira, o partido ficou sem poder de barganha por cargos na Mesa Diretora e comissões. Ramos o abraçou, rindo. Consumada a vitória de seu bloco, o DEM terminou sem nenhum posto de direção.

Os deputados do DEM ficaram “sem pai”, e Rodrigo Maia viveu a síndrome do ninho vazio, de quando os filhos saem de casa. Seus principais aliados debandaram, alguns com requintes de impiedade. Foi traído por colegas, por correligionários e até por amigos. Mas também traiu.

Em janeiro de 2019, dois deputados do PP, Arthur Lira e Aguinaldo Ribeiro, exerciam liderança sobre o Centrão e serviam de esteio para o apoio do grupo a Maia. Ambos queriam ser candidatos a presidente da Câmara. Rodrigo Maia estava em seu segundo mandato consecutivo, mas, como havia mudado a legislatura (a Câmara tinha acabado de eleger a sua nova composição), ele ainda poderia disputar mais uma vez.

Aguinaldo percebeu que Maia teria força para se manter no cargo e rapidamente se aproximou. Lira não. Seguiu articulando apoios, entre os quais o de Baleia Rossi e o do PSL. Na hora H, Maia levou todo mundo para a sua chapa, e o PP só não ficou de fora porque Aguinaldo estava lá. Confortável na cadeira de presidente, Maia prometeu que, em 2021, quando a Mesa Diretora fosse se renovar outra vez, ele retribuiria o gesto e apoiaria o candidato do PP. “Assumiu o compromisso na minha casa em São Paulo”, rememorou Ciro Nogueira, enquanto corria de um gabinete a outro na segunda-feira da eleição.

Em dezembro de 2020, o Supremo Tribunal Federal não formou maioria para autorizar novo mandato de Maia, ao contrário do que prometeram extraoficialmente alguns ministros. O deputado ficou sem rumo. Não podendo disputar ele mesmo, titubeou. Quis apoiar Aguinaldo, mas o PP já tinha fechado a candidatura de Lira. Maia então esqueceu a promessa de 2019 e lançou Baleia Rossi. “Quem não cumpre compromisso paga a conta”, sentenciou Ramos.

No dia seguinte ao lançamento de Baleia Rossi, Alexandre Baldy procurou Maia e o avisou de que não embarcaria na campanha. Ex-deputado, ex-ministro, atual secretário do governo Doria, Baldy foi um importante aliado de Maia na Presidência da Câmara. Mas, mais que isso, eram amigos e compadres. Baldy é padrinho do filho de Maia. Não se falaram mais.

 

Na virada de dezembro para janeiro, o governo Bolsonaro despejou centenas de milhões de reais nas mãos de congressistas que declarassem voto em Lira na Câmara e em Rodrigo Pacheco (DEM-MG) no Senado. Emendas, verbas extraorçamentárias e cargos foram liberados para seus indicados políticos. O resultado foi amplamente favorável ao Planalto.    Pacheco ganhou com 57 dos 78 votos. Na Câmara, a fidelidade dos que estavam com o candidato do PP e a traição de boa parte dos que se posicionaram com Baleia Rossi deram uma vitória de 302 a 145. O voto é secreto, o que impede a checagem do comportamento de cada congressista.

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, foi exonerada apenas para retomar o mandato de deputada para a eleição da Mesa. Filiada ao DEM, entrou direto na sala do PP, onde foi recebida calorosamente. “Agora vai dar certo!”, comemoraram assessores e congressistas. As deputadas Bia Kicis e Aline Sleutjes, ambas do PSL e ambas sem máscara, a escoltaram segurando em sua cintura e lhe dando beijos nas bochechas, despreocupadas da pandemia. Já de volta ao corredor, Kicis cochichou em seu ouvido: “Aqui é a sua casa? Uma confusão essa sua casa”, apontando para a porta da sala do DEM. “Mas deu certo”, reagiu Cristina, referindo-se à traição do partido a Maia ao liberar a bancada para votar em Lira. 

As rasteiras não se restringiram à direita ou ao Centrão. A esquerda também teve seus momentos. Ao longo do dia, o PT ainda debatia qual de seus 54 deputados seria indicado para ocupar a Primeira Secretaria, cargo ao qual a legenda em tese teria direito pelo tamanho de sua bancada, a maior da Casa. Apesar da aliança de sua legenda com o MDB, Marília Arraes traiu o PT e fechou um acordo direto com Lira. Ele garantiu a ela votos do seu bloco que a fariam derrotar o nome que o PT indicasse para o posto. Os deputados petistas, para amargar o constrangimento de perder para si próprios, decidiram compactuar com a traição e apoiar Arraes para primeira-secretária. Congressistas contemporizavam a manobra pelos corredores da Casa, enquanto aliados de Lira esfumaçavam de raiva pela demora do PT em formalizar sua adesão ao bloco de Baleia e a tolerância de Rodrigo Maia ao atraso.

O PSB decidiu pelo oposto do que fez o PT. Soube que o deputado de sua bancada Julio Delgado negociava com Lira e, para não tomar um drible, cedeu a vaga a que teria direito na Quarta Secretaria à única deputada da Rede, Joenia Wapichana. Nem um nem outro tiveram sucesso. Depois de eleito, Lira traiu Arraes, Delgado, o PT, o PSB, a Rede e todos aqueles que não formaram bloco com o seu PP. O seu primeiro ato como presidente da Câmara foi limar os adversários da Mesa Diretora. 

O líder do PSB, Alessandro Molon, articulador da indicação de Wapichana, indignou-se, prometendo recorrer ao Supremo contra a decisão de Lira. Mas sua revolta começara um dia antes. No domingo, em encontro fechado com líderes de esquerda e Rodrigo Maia, na residência oficial do presidente da Câmara, ele passou um sermão em ACM Neto. “Já vi muita traição, mas nunca nada igual a isso”, criticou. “Se você tem conta para acertar com Rodrigo, podia acertar na terça-feira. Você fez um apelo para o candidato ser o Baleia, a gente não queria, a gente preferia o Aguinaldo, e você foi quem insistiu. E insistiu para o PT entrar no bloco.” Procurado pela piauí, Neto não se manifestou.

 

O clima em torno de Maia na reta final da campanha para a sua sucessão era de velório, nas palavras de quem frequentou sua casa. Jogado no sofá, ele teve rompantes de irritação e outros de emoção. Os adversários não pouparam palavras para cantar vitória. “É um fim melancólico. Vai ter que voltar para o anexo IV”, debochou Ciro Nogueira, mencionando um prédio dos fundos da Câmara onde ficam gabinetes de deputados sem cargos de liderança. “Saiu da cadeira de presidente da Câmara para ficar refém da oposição”, comentou Marcelo Ramos.

Maia tentou conter a emoção em seu último discurso depois de quatro anos e sete meses na Presidência da Câmara. “Me preparei para não chorar, mas não dá”, desabafou no microfone, tirando a máscara para um gole de água e enxugando os olhos com um lenço de papel. Disse que desceria “à planície com orgulho” e sem ressentimentos. “As brigas passaram. Tivemos um momento de mais atrito com Arthur Lira e, se em algum momento, alguém tenha se sentido ofendido, não foi a minha intenção”, desculpou-se.

Em uma das saídas da Câmara, militantes bolsonaristas comemoravam com balões, música e apitos e berravam “Fora Maia” desde os primeiros segundos depois de proclamado o resultado. Uniformizados com roupas verde e amarelas, carregavam bandeiras do Brasil e faixas com dizeres como “Arthur Lira – voto impresso. Deus, pátria e família” e “Apoio Bolsonaro contra o comunismo”.



Thais Bilenky (siga @thais_bilenky no Twitter)

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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