tempos da peste

Futuro pós-pandêmico

Como a mídia tradicional forja um novo indivíduo

Cristina Marins e Rosana Pinheiro-Machado
09out2020_18h06
Bar em Milão que usa robôs para servir drinks: os novos hábitos de distanciamento pós-pandemia acirram noções individuais de privacidade e isolamento dos corpos –
Bar em Milão que usa robôs para servir drinks: os novos hábitos de distanciamento pós-pandemia acirram noções individuais de privacidade e isolamento dos corpos – Foto: reprodução de redes sociais

A caminho do aeroporto, Naomi consulta o smartwatch: 11 de outubro de 2025, sábado, 11h42min31s. Tempo bom, com sol. Horário do voo: 16h15min. Ela respira aliviada, tudo está correndo como previsto. É sua segunda viagem no ano, agora de férias. Desde o “período do grande confinamento”, viajar de avião deixou de ser para ela algo banal e sempre causa um ligeiro estresse. Até 2020, ela vivia na ponte aérea para participar de reuniões de sua empresa de marketing numa das cidades mais populosas do mundo. Agora, entretanto, Naomi só se permite tomar um voo em situações excepcionais. Hoje, ela está a caminho de uma praia cujo mar azul-turquesa tem sido apreciado por milhares de pessoas nas plataformas de realidade virtual. Visitar fisicamente a ilha e sentir o seu corpo imerso naquelas águas paradisíacas é um privilégio que poucos podem ter – e Naomi, finalmente, se concedeu esse luxo.

O aeroporto está calmo e silencioso. Uma vez que o chamado turismo de massa deixou de existir, já não se vê ali aqueles grupos de turistas que costumavam encher os saguões das companhias aéreas com seu burburinho animado. Tampouco se avistam homens engravatados, correndo apressados para as salas de embarque, pois as reuniões de trabalho são quase sempre virtuais.

Depois de despachar ela própria sua bagagem, Naomi atravessa o túnel de desinfecção e verificação de temperatura corporal. Na sala de espera da companhia aérea, com grandes janelas abertas para a adequada circulação do ar, há apenas quatro pessoas de uma mesma família, todas vestidas com sandálias de borracha coloridas, mais fáceis de serem higienizadas. Como o serviço de bordo foi extinto, Naomi resolve almoçar antes do embarque e vai para a área ao ar livre onde são feitas as refeições. Pelo celular, pede uma salada de quinoa com abóboras orgânicas e um smoothie de frutas da estação. Seus hábitos alimentares mudaram totalmente no período de confinamento: ela deixou de consumir alimentos industrializados e desenvolveu uma nova relação com a comida, que muitas vezes ela mesma prepara.

Depois do almoço, Naomi apanha seus óculos virtuais na bolsa e se transporta para Nova York. A obrigatoriedade de se apresentar para o voo quatro horas antes do horário do embarque tem lá suas vantagens. Enquanto espera, ela assiste calmamente ao novo musical da Broadway, o que tentou fazer nos últimos dias, sem sucesso, devido ao excesso de trabalho na sua empresa, que ela comanda de casa.



Às 15h50, chega pelo celular a chamada de embarque. Naomi se dirige ao portão definido, não sem antes ter seus dados biométricos verificados por um aparelho que exibe na tela o número de seu assento, ao fundo da aeronave. Com a nova conformação das poltronas, implantada nos últimos anos, ela está separada dos demais passageiros pelos compartimentos de carga distribuídos no interior da aeronave. Enquanto são feitos os anúncios que precedem a decolagem, ela olha para as costas do assento a sua frente e se recorda de que ali costumava haver um bolso onde eram depositadas as instruções impressas e revistas de bordo. Ela não deixa de sentir certo asco ao lembrar quantas vezes manuseou aqueles objetos de papel, verdadeiros antros de bactérias e vírus.

 

Logo após a Organização Mundial da Saúde classificar o avanço do novo coronavírus como pandemia, em 11 de março deste ano, um terço da população mundial começou a entrar progressivamente em algum tipo de isolamento. Essa situação extraordinária estimulou a imprensa e pesquisadores a refletir sobre as consequências imediatas do isolamento das pessoas e das cidades – o “novo normal” –, mas também a especular sobre as mudanças que a pandemia traria à vida cotidiana no futuro próximo. Jornais e emissoras de tevê fizeram dossiês, programas e podcasts, livros foram lançados às pressas, as principais universidades do mundo correram para realizar seminários sobre o “mundo pós-Covid”. Surgiu toda uma série de discursos, com previsões pessimistas ou otimistas, traçando cenários distópicos ou utópicos, nos quais prevalecia ora a solidariedade comunal, ora o hiperindividualismo.

Vale a pena examinar essas projeções futuristas, como a que esboçamos para a fictícia Naomi, tanto mais que, desde Michel Foucault, pelo menos, sabe-se que a produção de discursos sobre a realidade é um exercício de poder. A capacidade de projetar a transformação do mundo, que é um capital valioso, acaba por deslanchar novos paradigmas para a humanidade, criando formas inéditas de dominação. Assim, tudo que é imaginado e descrito na mídia sobre o futuro do mundo resulta, em grande medida, numa forma de intervenção – nada desinteressada – sobre a própria realidade.

Grandes revoluções econômicas e tecnológicas, mas também crises sanitárias e catástrofes humanitárias transformam nossas noções de espaço, tempo, corpo e privacidade. O sujeito pós-Covid, que teme o contágio, não viverá – ao menos no campo discursivo da imprensa – como antes da pandemia. Boa parte dessa reorganização dos modos de vida é, entretanto, imposta por agentes do mercado, que não raro estimulam na mídia matérias sobre novas formas de habitação, locomoção, vestimenta e até alimentação, tentando com isso regenerar seus negócios e angariar consumidores depois de uma crise global.

Após termos analisado mais de mil textos publicados nos primeiros cem dias da pandemia nos principais jornais de países ricos e emergentes – Alemanha, Canadá, Espanha, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Reino Unido, Brasil, China, Índia, México, Rússia e África do Sul –, alguns aspectos nos saltaram aos olhos. Em primeiro lugar, conclui-se que o mundo pós-pandêmico tal como desenhado por jornais e tevês é um mundo exclusivista. A segurança sanitária em espaços públicos, como museus, aeroportos e restaurantes, depende em grande medida que se renuncie ao ideal da massificação do consumo. O novo consumidor projetado pela mídia pertence aos estratos superiores da sociedade: Naomi precisará pagar por serviços exclusivos, produtos customizados e tecnologias de ponta para viver a salvo do risco de contágio.

Se uma parte da humanidade irá incorporar hábitos de higiene e distanciamento social, outra parte seguirá vivendo como no mundo pré-pandêmico ou mesmo similar ao da era pré-industrial. O futuro previsto para Naomi é uma consequência do apartheid sanitário que, durante a pandemia, dividiu a sociedade entre os que podiam se confinar e os que precisavam trabalhar. Assim, caso perdure alguma forma de distanciamento social, a capacidade de fazê-lo será um marcador de status, um amplificador de desigualdades simbólicas.

Muitos estudos mostram que as elites estão permanentemente mudando suas formas de consumo para se distinguir dos mais pobres. Quando grupos de baixa renda em países emergentes começaram a comer carne com mais frequência e viajar de avião, as elites culturais passaram a aderir a um estilo de consumo menos massificado, mais natural e saudável. Medidas de segurança sanitárias e de sobrevivência nos últimos meses podem viabilizar mais rapidamente a implantação desses marcadores de desigualdades que já vinham sendo processados.

Uma segunda conclusão é que, por meio do consumo de tecnologias digitais e da adoção do princípio de isolamento social, o individualismo e a (auto)vigilância tendem a se intensificar. O isolamento é, agora, uma medida de emergência para salvar vidas, mas pode se tornar um princípio norteador das relações sociais futuras. Sabe-se que é parte constitutiva do sujeito moderno ocidental as noções de vergonha e de distanciamento entre os indivíduos, com seu medo da proximidade física e das emanações produzidas pelos corpos, como odores, fluidos, ruídos e mesmo certos gestos. A pandemia intensificou essa característica do sujeito ocidental, que se dá pela maximização de outro elemento que define a modernidade: somos nós, como indivíduos autônomos, que regulamos e punimos os outros e nós mesmos.

Por um lado, os novos hábitos de distanciamento pós-pandemia acirram noções individuais de privacidade e isolamento dos corpos. Mas, por outro, esses mesmos hábitos colocam em risco a privacidade, pois, para garantir a segurança sanitária, são desenvolvidos controles como biometria e reconhecimento facial, que se tornam mais presentes em toda parte. As manifestações políticas em espaços públicos são desencorajadas, enquanto algoritmos nos direcionam cada vez mais publicidade personalizada. O processo impõe uma armadilha: o efeito colateral das medidas em prol da sobrevivência é a criação de uma rede de vigilância e controle social, político e econômico. Consumidora de novos serviços customizados e de tecnologias digitais, Naomi abdica, em nome da segurança sanitária, de sua privacidade.

A pandemia ampliou a crise de alguns setores econômicos e impulsionou os negócios de outros. Se as salas de cinema, teatros e casas de espetáculos amargam prejuízos, mercados de jogos eletrônicos e plataformas de streaming de vídeo e música tiveram crescimento acelerado. As gigantes da tecnologia como Amazon e Apple obtiveram lucros recordes, ao mesmo tempo que países mergulhavam na recessão. O crescimento desmesurado dessas empresas produz efeitos muito graves, uma vez que elas baseiam seus negócios na coleta e exploração sistemática de dados dos usuários. As chamadas Big Techs (Amazon, Apple, Facebook e Google) convertem os mais diversos aspectos da existência cotidiana em ativo rentável – como diz um de seus mais ferrenhos críticos, Evgeny Morozov –, concentrando capital, aumentando seu controle sobre nossas vidas e instaurando uma era de intensa e constante vigilância. Ao interferirem em nossas atividades mais banais, elas desafiam a autonomia dos sujeitos e a própria democracia.

 

Vejamos, então, como alguns dos jornais e revistas mais influentes dos países ricos projetam o novo mundo pós-pandêmico e contribuem, às vezes de maneira contraditória, a produzir esse novo mundo exclusivista e da supervigilância.

Para boa parte das publicações, as viagens de avião deixarão de ser uma atividade tão popular quanto foi nas últimas décadas. O New York Times lança dúvida a respeito da retomada de viagens de negócios, suspensas durante o período de confinamento, na reportagem Business travel has stopped. No one knows when it will come back (As viagens de negócios pararam. Ninguém sabe quando vão voltar). Um especialista em companhias aéreas prevê que a pandemia pode levar ao declínio das viagens de negócios internacionais, especialmente para grandes centros como Londres, Paris, Frankfurt, Miami, Los Angeles e Tóquio. Ele também diz que as companhias estão avaliando como acomodar os passageiros para fornecer mais espaço, se o distanciamento social se tornar o “novo normal”. Consequentemente, os preços das passagens aéreas deverão ser mais altos. No artigo Air travel is going to be very bad, for a very long time (Viagens aéreas serão muito ruins por muito tempo), a revista norte-americana The Atlantic enfatiza que, nos próximos anos, o tempo de espera nos aeroportos será mais longo e as verificações dos passageiros mais minuciosas.

Se o início do século XXI foi marcado pelo otimismo da massificação do “direito a voar” nas economias de países emergentes – emblema tão fortemente ligado ao governo Lula no Brasil, por exemplo –, a pandemia pode nos fazer retornar a um ponto em que viajar de avião será um privilégio de poucos. Perderá a indústria do turismo de massa; ganhará a do turismo de luxo. Decairá também o turismo internacional, prevalecendo o turismo interno de âmbito nacional.

Seja para evitar aborrecimentos, riscos de contágio ou por razões econômicas, os norte-americanos, segundo diversas publicações, deverão recorrer mais às viagens sobre rodas. É possível que os turistas passem a privilegiar pequenas viagens locais, redescobrindo atrações próximas de sua residência nos próximos anos. Supõe-se, além disso, que nos Estados Unidos e na Europa haverá grande demanda pelos chamados veículos recreativos (conhecidos como rvs, trailers ou motorhomes). A propósito, o jornal Le Figaro registrava às vésperas do verão europeu que o número de veículos desse tipo alugados na França já era duas vezes maior que no ano anterior.

Ao indivíduo pós-pandêmico com recursos financeiros, entretanto, o mundo é o limite e a ele serão reservadas inúmeras possibilidades turísticas como jatos particulares, resorts livres de contágio (nos quais os frequentadores cumprirão períodos de quarentena cercados de conforto antes de serem liberados para interagir com outros hóspedes), spas com terapias sem qualquer contato físico ou estadias em ilhas desertas. O turista poderá até mesmo contar com uma espécie de cápsula equipada com painel solar e turbina eólica retrátil, além de tecnologia que converte a chuva em água potável. Em formato oval, a cápsula criada há alguns anos por uma empresa eslovaca se revela ideal para o atual momento, de acordo com The Telegraph. Possui banheiro, chuveiro, cama aquecida, pequena cozinha e pode ser transportada por longas distâncias, inclusive em compartimentos de carga de avião ou acomodadas em contêineres, no caso de grandes viagens marítimas. Os viajantes conseguirão instalar suas cápsulas particulares nas areias de uma praia deserta, no topo de uma montanha nevada ou no meio de uma vinícola.

A revista Forbes chama a atenção para o movimento batizado de slow travel, que no pós-Covid tende a se expandir. Como as viagens se tornarão mais raras, elas também serão mais significativas, planejadas por especialistas que levarão em conta, além da segurança sanitária, questões como sustentabilidade e práticas éticas. Os destinos preferenciais, especulam as publicações, serão países pouco visitados, como Etiópia, Eslovênia ou Irã. Prevê-se ainda que se extinguirão as aglomerações diante de obras de arte em museus, que terão um número menor de visitantes, previamente agendados. Para os museus, o futuro parece mais favorável do que para os cassinos, que talvez passarão a existir apenas no mundo online, como cogitou um editorial do jornal japonês The Asahi Shimbun.

De acordo com as reportagens examinadas, os turistas que não puderem viajar (seja por não disporem de recursos financeiros ou por restrições de saúde) lançarão mão de ferramentas digitais a fim de concretizar seu desejo de visitar locais distantes. Além das plataformas de realidade virtual, poderão continuar a recorrer às “férias fake”, como ocorreu no período de confinamento, reportou o jornal indiano Hindustan Times. Sem realizar qualquer deslocamento, os “falsos turistas” fariam circular em suas redes sociais imagens de férias sonhadas, seja recorrendo a aplicativos de edição de imagens (sem os cuidados de uma edição profissional, revelando certa jocosidade do ato), seja simulando viagens em seus quintais.

Como ressalta uma colunista do diário The Globe and Mail, uma drástica redução no número de viagens, sobretudo aéreas, traria boas consequências ao meio ambiente. Mas resta saber, ela continua, como isso mudará a vida das pessoas, que terão menos fotos de viagens para compartilhar nas redes sociais e sites de relacionamentos – segundo os quais, usuários que exibem tais imagens em seu perfil aumentam suas chances de encontrar um par.

Um tipo de cosmopolitismo pode estar chegando ao fim. No mercado do prestígio, fotos de pessoas cozinhando suas refeições com ingredientes da horta orgânica cultivada na sacada do próprio apartamento talvez venham a valer mais do que as tiradas durante as férias em Paris.

 

Desde o início da pandemia, publicações do mundo todo destacaram que crises sanitárias do passado produziram impactos importantes na arquitetura das cidades. Lembraram que a peste bubônica transformou dos canos de escoamento às fundações dos edifícios e que os ciclos pandêmicos da cólera no século XIX influenciaram na reformulação dos sistemas de esgoto. Recuperar a história de antigas pandemias serviu, em diversos textos jornalísticos, como preâmbulo para a formulação de hipóteses sobre o futuro das cidades. Os textos questionam se a alta densidade demográfica das metrópoles será sustentada em um mundo traumatizado pelo medo do contágio. Também cogitam sobre a possibilidade de experimentarmos um êxodo urbano maciço, capaz de alterar substancialmente as feições do desenvolvimento global.

Dentre as mudanças conjecturadas, aquelas que incidem sobre os espaços de trabalho são particularmente eloquentes na mídia internacional. O jornal The Guardian, por exemplo, noticia que algumas agências de design e arquitetura já trabalham em projetos de prédios de escritórios nos quais chamar elevadores, abrir janelas e pedir café serão ações realizadas a partir de comandos digitados em smartphones. Os que ainda trabalharem em escritórios, segundo as publicações, não mais apertarão botões ou tocarão em maçanetas: as portas serão abertas por meio de reconhecimento facial, e procedimentos de identificação irão recorrer à leitura da íris. O uso de materiais empregados nas construções e no mobiliário também seria repensado, como destaca a BBC. Espera-se que revestimentos mais hostis aos germes, como titânio ou cobre, sejam mais difundidos nos próximos anos, bem como divisórias transparentes que impeçam o espalhamento de partículas de fluidos corporais. As grandes mesas comunais e os espaços de lazer compartilhados parecem estar com os dias contados.

A maior parte das previsões aponta para a diminuição drástica dos prédios de escritórios. A adoção permanente do trabalho remoto para várias atividades deve produzir um impacto profundo na arquitetura das cidades e também no desenho das residências. Nos textos a respeito das casas do futuro, recebem destaque os espaços versáteis – que servem ora para o trabalho, ora para o lazer. Paredes móveis para formar espaços separáveis, conforme os diferentes usos dos cômodos durante o dia, e divisões acústicas para dar mais privacidade aos moradores são algumas das propostas dos designers que têm se ocupado de projetar a habitação pós-pandêmica.

As novas concepções de residências se apoiam na ideia de que os indivíduos farão quase tudo em suas casas: participar de reuniões de trabalho, fazer ginástica, assistir a aulas, consultar médicos ou acompanhar cultos religiosos. Se durante a quarentena – diz a revista The New Yorker – os norte-americanos confinados em casa desenvolveram uma relação de maior familiaridade com suas residências, é possível que nos próximos anos se dediquem a corrigir certas características delas que passaram a ser vistas como defeitos, como a ventilação insuficiente, a pouca entrada de luz solar ou o baixo isolamento acústico. A população confinada em apartamentos parece agora reivindicar mais espaço e mais ar livre, o que a estimula a mudar-se para casas nos subúrbios ou a buscar nos prédios que vão habitar elementos da arquitetura antiga, como terraços e quintais.

No jornal El País, o sociólogo Richard Sennett chamou a atenção para a importância de repensar os grandes centros, de modo que favoreça o contato social da população, mas reduzindo a alta densidade demográfica que marca o espaço urbano do século XX. Para ele, arquitetos e planejadores deviam se inspirar no shikumen, estilo arquitetônico tradicional da cidade de Xangai, com construções de dois ou três andares e pátios que permitem que os moradores vejam uns aos outros e se comuniquem, participando da vida na rua. Outro estilo arquitetônico que voltou a ser celebrado na mídia é o modernista, que, vale a pena lembrar, teve entre suas primeiras preocupações reduzir os riscos de contágio da tuberculose. Assim, arquitetura dos antigos sanatórios para tuberculosos tornou-se referência, com grandes janelas e espaços abertos que favoreciam a entrada de luz natural e circulação de ar, como destacou a New Yorker

O professor de artes visuais Richard J. Williams defendeu no New York Times que a Ville Contemporaine, imaginada por Le Corbusier, mas nunca construída, e também Brasília, projetada por Oscar Niemeyer e Lucio Costa, sejam protótipos para as grandes cidades pós-pandêmicas. “A filósofa francesa Simone de Beauvoir queixou-se da ‘monotonia elegante’ [de Brasília], de sua falta de ruas e multidões e qualquer coisa que se parecesse com uma vida urbana tradicional em uma visita mal-humorada que ela fez à cidade em 1960. Sua visão deu o tom para a maioria das percepções subsequentes dessa cidade por quem vinha de fora. Ela estava quase certa sobre as multidões; mais espaço do que construção, a cidade é o oposto do que aprendemos a esperar. Mas é um lembrete importante de que existem diferentes maneiras de criar um ambiente urbano. As alas residenciais ficam em um parque exuberante e a vida nessas áreas é arejada e tranquila”, escreveu Williams, autor de Why Cities Look the Way They Do (Por que as cidades têm a aparência que têm). Outrora classificada como adversa à vida comunitária, Brasília se torna agora mais atrativa, uma vez que permite que seus moradores nutram a sensação de habitar uma metrópole ao mesmo tempo que se resguardam da proximidade física com outros habitantes.

Se, em termos de arquitetura, o futuro pós-pandêmico encontra inspiração no passado, os aspectos tecnológicos presentes nos discursos da imprensa revelam uma agenda política própria do século XXI. Sensores e alarmes acoplados aos corpos dos transeuntes para garantir que seja respeitada uma distância mínima entre as pessoas e scanners de temperatura corporal em estações de transporte público são alguns dos novos instrumentos cogitados para evitar o risco de contágio. Embora muitos textos remetam a cenários tecnológicos utópicos – como uma reportagem da Deutsche Welle com a imagem idílica da nova metrópole, em que pessoas transitam despreocupadas entre prédios com vegetação incorporada à arquitetura –, outros, como o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em artigo publicado no jornal Libération, alertam para o risco da implementação de um regime de vigilância tecnológica.

Na imprensa internacional, calcula-se que o futuro próximo pode trazer prejuízos substanciais à privacidade dos indivíduos. Como observou o Washington Post, em questão de meses, milhares de pessoas em diversos países passaram a ser minuciosamente monitoradas por governos, empresas privadas e pesquisadores que observam a saúde, os hábitos e os movimentos dos cidadãos, muitas vezes sem o consentimento deles. Segundo o texto, todo esse processo está ocorrendo sem que se tenha debatido suficientemente as consequências e a utilidade das ferramentas de vigilância e nem mesmo quanto tempo tais medidas deveriam durar.

 

No clássico A Representação do Eu na Vida Cotidiana, de 1956, o sociólogo Erving Goffman analisa como as pessoas gestam sua imagem conforme os diferentes papéis sociais que interpretam. Segundo ele, os indivíduos ocidentais transitam entre o palco (a cena pública com audiência) e os bastidores (o ambiente privado, onde o “verdadeiro eu” pode se manifestar sem preocupação). Em tempos de confinamento, essas duas instâncias se embaralham, alterando o modo como o indivíduo se apresenta socialmente, pois agora ele o faz por meio de plataformas digitais como Zoom, Google Meet, Microsoft Teams e WhatsApp.

Hoje, a aglomeração está em suspenso, e a nova etiqueta indica que causar ajuntamento é algo inapropriado. Na mídia tradicional, palavras como “massa”, “aglomeração”, “reunião” e “agrupamento” passaram a receber conotação negativa, representando risco, ameaça e perigo. A revista Vice ensina como recusar elegantemente o convite para uma festa presencial. Outras publicações retratam a preocupação com o futuro do gigantesco mercado de casamentos. O jornal The Daily Telegraph escreve sobre etiqueta dos casamentos via Zoom. É indicado vestir-se bem e não beber mais do que duas taças de espumante. A quem decide beber sem travas, recomenda-se que desligue a câmera: “Não haverá como esconder a fadiga, irritação ou embriaguez.”

Os tempos do ócio e do ofício se sobrepõem ainda mais do que no mundo pré-pandêmico, e a separação entre a esfera pública e a privada pode ser graficamente representada por uma linha horizontal separando duas partes do corpo: da cintura para baixo, o indivíduo resguarda a intimidade; da cintura para cima, que é a parte visível às câmeras que conectam ao mundo externo, a pessoa apresenta sua “fachada” profissional.

Consequentemente, um dos temas mais discutidos na mídia tradicional diz respeito aos modos de se vestir e se apresentar diante das câmeras, bem como ao “cenário” da casa, a fim de evitar numa teleconferência que a chefe ou o chefe se depare na tela com roupas íntimas esquecidas pelo funcionário sobre a cama, ou com salas e quartos desarrumados. A percepção das maquiagens também é alterada. Graças à mediação das telas, é possível exagerar nas novas bases adaptadas ao mundo das lives e reuniões online. Segundo o Google Trends, houve um aumento exponencial das pesquisas no Google sobre soluções caseiras para tintura e corte de cabelo – o que levou a imprensa, especialmente a britânica, a manifestar preocupações com o futuro dos serviços de beleza e estética, apresentando soluções higiênicas para a volta segura ao cabeleireiro.

A indumentária passou a ser repensada, e tudo indica que o mercado da moda, em vista da reclusão das pessoas em suas casas, precisará ser reorganizado. O momento pode ser propício para a substituição de roupas sociais por roupas informais e esportivas, como sugeriu a revista The Atlantic. No texto “Os 10 mandamentos do consumidor depois do coronavírus”, lemos em O Estado de S. Paulo que de agora em diante as coleções de roupas deverão privilegiar o conforto. Uma matéria da Forbes anunciou: “Adivinha quem veio para ficar? Crocs. Muitos e muitos Crocs. Sim, você leu certo. Aqueles calçados que não são nem bem um chinelo, nem bem um sapato.”

A sandália Crocs, citada tanto pela Forbes como pelo Wall Street Journal, conciliaria a pantufa com o calçado social – mas o meio-termo parece não agradar homens de negócios ouvidos nas reportagens. Para a angústia destes, o mercado dos ternos está em plena crise, ainda que se alerte para a possível recriação da alfaiataria online, feita sob medida por meio do aplicativo Zoom, como noticiou o Wall Street Journal. O debate gerou reação calorosa de um editor deste jornal, Robert Armstrong, que, nostálgico do antigo privilégio, proclamou em seu texto We will dress up again (Nós nos vestiremos bem novamente). “O lockdown pode ter deixado você sentindo falta dos seus amigos. Eu sinto falta dos meus sapatos. […] Não vejo a hora para colocar uma gravata novamente depois que essa pandemia miserável acabar. […] Talvez quando voltarmos ao escritório, em um mundo ainda incerto, perceberemos que ter um emprego é um privilégio, algo a ser vivido e vestido à altura.”

Comentaristas do New York Times ressaltam que a alimentação foi alterada durante o isolamento. Nas metrópoles norte-americanas, consumidores ganharam acesso a ingredientes raros nos supermercados e uma oferta ampliada de refeições prontas, além da possibilidade de adquirir caixas com ingredientes pré-preparados, organizadas pelos chefs de cozinha profissionais, acompanhadas de instruções para terminar a preparação em casa – os cook-it-yourself meal kits (kits de refeição faça-você-mesmo). Impedidos de comparecer aos seus restaurantes favoritos, os clientes podem ter percebido que a preparação de certos pratos é menos misteriosa do que imaginavam. Do mesmo modo, a percepção da relação custo-benefício das refeições sofreu alterações, assim como a relação com o desperdício. O movimento aponta ainda para uma reconfiguração do privilégio relacionado aos restaurantes de grife. Por um lado, os estabelecimentos estrelados veem sua frequência ser reduzida, mas, por outro, as refeições concebidas pelos chefs passam a ser consumidas em casa e são fartamente exibidas nas redes sociais.

Outras mudanças no consumo de alimentos e bebidas surgem com a reorganização da cadeia produtiva. Consumidores de Bangalore, a terceira cidade mais populosa da Índia, puderam recorrer ao serviço de entrega de comida gerenciado pela Amazon, que já domina largamente a venda do varejo em alguns países. O jornal The Times of India conta que, no mundo pós-Covid, os consumidores se verão diante da “vasta paisagem de comida online”, com as chamadas cloud kitchens, cozinhas de restaurantes que atendem exclusivamente aos clientes de aplicativos. The Asahi Shimbun, por sua vez, descreve que o “novo normal” dos restaurantes no Japão inclui mesas nas calçadas, inspiradas nos cafés parisienses.

No que diz respeito à vida afetiva e sexual, a revista Time reporta que a pandemia vem transformando os encontros amorosos, talvez de modo permanente. Isso se reflete, por exemplo, na linguagem empregada pelos usuários de aplicativos de relacionamentos, mas também na preocupação crescente com a dificuldade de encontrar um parceiro e formar família em contexto de isolamento ou de penúria financeira provocada pela pandemia. O confinamento parece também estar estimulando a criação de novos gêneros de pornografia, como o coronavirus porn, no qual os atores contracenam vestindo macacões de proteção, máscaras e luvas de látex, ou popularizando orgias por meio do aplicativo Zoom, como observou a revista Rolling Stone.

Um futuro sem contato físico preocupa pesquisadores, como o sociólogo Dacher Keltner, que, na Time, refletiu sobre o impacto a longo prazo do distanciamento social. Para ele, os toques fazem com que pessoas confiem umas nas outras e produzam cooperação. A privação desse contato provoca alterações no senso de confiança e de conexão com os demais indivíduos, levando com que as pessoas percam a noção de pertencimento a uma sociedade.

 

É possível que uma vacina faça com que as coisas retornem ao “antigo normal” – e muitas dessas especulações dos jornais e revistas redundem em mera fabulação. É possível que voltemos a nos tocar sem medo e a protestar de mãos dadas na linha de frente. Sequer temos certeza se os cuidados emergenciais de higiene adotados agora perdurarão ou se os temores das pessoas durarão muito tempo. É certo, porém, que já não somos mais inocentes sobre o desastre que um vírus mortal pode causar mundialmente. E que muitas mudanças sociais em curso encontraram terreno propício durante a pandemia e validação pelos discursos da mídia.

Em contraponto a esses discursos é preciso falar de modos de vida que se apresentam como alternativa à lógica do consumo exclusivista, da privatização da vida cotidiana e da vigilância tecnológica. Sem desconsiderar as inovações do século XXI, precisamos imaginar um mundo socialmente mais justo. Se discursos não apenas retratam fragmentos da realidade, mas também projetam um mundo, é urgente que outras narrativas sejam criadas.

Cristina Marins (siga @ctmarins no Twitter)

É antropóloga, pesquisadora e escritora, com doutorado pela Universidade Federal Fluminense

Rosana Pinheiro-Machado (siga @_pinheira no Twitter)

Antropóloga, é professora de desenvolvimento internacional na Universidade de Bath (Grã-Bretanha) e autora de Amanhã Vai Ser Maior (Planeta, 2019)

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