questões de estilo

Garras olímpicas

Mais presentes nos pódios brasileiros do que em edições passadas, unhas decoradas também são parte da história dos jogos

Marcella Ramos
03ago2021_17h13
As unhas coloridas de Italo Ferreira e Rayssa Leal –
As unhas coloridas de Italo Ferreira e Rayssa Leal – Intervenção de Paula Cardoso sobre fotos de redes sociais

Das catorze medalhas olímpicas conquistadas até esta terça-feira por atletas brasileiros em Tóquio, duas foram seguradas por mãos com unhas caprichosamente decoradas: a medalha de prata de Rayssa Leal no skate street e a de ouro conquistada por Italo Ferreira no surf. O surfista potiguar escreveu “fé” na unha do dedo indicador da mão direita e na mão esquerda escreveu em japonês “bakayaro”, que significa “otário”. Gabriel Medina, Silvana Lima e Tatiana Weston-Webb, que completaram a equipe de surf do Brasil, também fizeram desenhos em suas unhas para as competições. Todos tiveram como manicure Lika Pedroza, uma brasileira que mora no Japão.

Pedroza chegou às mãos da equipe de surf por indicação da irmã, Adriana, que trabalhou como motorista voluntária da delegação. Para o primeiro dia de trabalho, a nailist fez as unhas da irmã com tema “bem praia, bem surf” e avisou que, caso as meninas notassem, era para Adriana indicá-la. “Mas nunca pensei que se tornaria realidade”, contou Pedroza à piauí. Dois dias antes do início das baterias de surf, a irmã ligou avisando que Weston-Webb gostaria de fazer as unhas. Pedroza, que estava de folga, aceitou o trabalho na hora. Chegando lá, depois de fazer o teste de Covid-19, a primeira pessoa que encontrou foi Silvana Lima. Inicialmente a surfista não iria pintar as unhas, mas acabou se interessando. Maravilhados pela técnica da brasileira, que faz desenhos super detalhados em gel, os rapazes da delegação também pediram para ter as unhas feitas. Todos os três atletas, fora Ferreira, resolveram pintar a bandeira do Brasil.  “Fiquei supercontente com a reação deles e muito lisonjeada por ter participado disso. Ainda disse para todos eles que gostaria muito de vê-los segurando a medalha com as unhas que fiz.” Ela teve essa satisfação com Ferreira, que tirou várias fotos de sua medalha de ouro sendo tocada pelo dedo em que escreveu “fé”. Em seu Instagram de trabalho, Pedroza, que mora no Japão desde 2005, postou fotos do grupo exibindo as unhas recém-pintadas

No dia 26 de julho, a maranhense Rayssa Leal emoldurou sua medalha de prata no skate street com as unhas coloridas nas cores da bandeira do Brasil. Todas as suas colegas de equipe também estavam com as unhas pintadas. Leticia Bufoni, primeira referência de Rayssa no esporte, já disse que começou a andar de skate querendo ser a referência que não teve. “Usava legging, maquiagem, as unhas e o cabelo pintados de rosa. E ganhava dos meninos nas competições.” Essa representatividade parece ter tido efeito em Rayssa. Em 2019, aos 11 anos, enquanto respondia a entrevista do Globo Esporte, a skatista pintava as unhas de dourado.

Em relação a 2016, quando as Olimpíadas aconteceram no Rio de Janeiro, a proporção de medalhas brasileiras seguradas por unhas pintadas deu um salto. Só uma medalha entre todas as dezenove alcançadas no Rio foram seguradas por mãos com unhas esmaltadas: a de prata no vôlei de praia, da dupla Bárbara Seixas e Ágatha Bednarczuk. Em 2012, nas Olimpíadas de Londres, quando o Brasil ganhou dezessete medalhas, nenhuma das unhas brasileiras que subiram ao pódio estava enfeitada.

 

Nenhum atleta do Brasil nas Olimpíadas de Tóquio é mais efusivo em relação aos esmaltes nas unhas do que o gaúcho Samory Uiki, do salto em distância. Nas redes sociais, ele posta as unhas sempre que vai à manicure. Mistura cores e desenhos, sempre em forma divertida. Em sua primeira semana em Tóquio, Uiki usou um esmalte azul escuro cintilante numa das mãos e, na outra, com unhas pintadas de branco, desenhou os arcos olímpicos. Quando suas provas começaram, na sexta-feira, dia 31 de julho, o atleta substituiu o azul por intercalações de verde e amarelo. Convidou os seus apoiadores a pintarem as unhas de laranja. “Laranja é minha cor favorita e que me traz sorte e alegria”, disse em seu Instagram. Logo foi marcado em várias fotos de unhas bem feitas em todo o Brasil. Repostou tudo em seus stories. Samory não conquistou a classificação, mas chamou atenção nas redes. Hoje tem 46 mil seguidores.

O atleta começou a pintar as unhas por superstição. Uma vez pintou as unhas por acaso e saltou a melhor marca de sua carreira. “Resolvi, então, pintar somente em competições. E agora decidi pintar semanalmente. Virou um hábito”, disse em entrevista ao Estadão. Em Tóquio, converteu à moda o colega Almir Jr., do salto triplo, que pintou as unhas de branco e as enfeitou com carinhas sorridentes nas cores dos arcos olímpicos. No dia da vitória de Italo Ferreira no surf, uma seguidora perguntou a Almir Jr. se “esse estilo de unha pintada” ia “virar moda”, e o atleta respondeu que “já virou. Até o Italo pintou, vocês viram?”

Ao longo da história, cores das unhas já foram usadas para sinalizar classe social e posição na hierarquia política. Até pinturas de guerra já foram. A opinião pública já cansou de elencar quais cores seriam adequadas ou não para uma mulher de família; assim como de anos em anos estabelecem quanto de manicure um homem pode fazer: às vezes só as cutículas, às vezes a base é aceitável. Nos últimos meses, vários trendsetters masculinos apareceram de unhas pintadas, e a prática tem ganhado adeptos entre eles. Na GQ de junho/julho, o skatista Pedro Barros, que competirá pelo Brasil na modalidade skate park, apareceu com as unhas dos dedos médios das mãos pintadas de verde. Ele ainda não fez registros de unhas pintadas na vila olímpica. Um outro atleta do salto em distância, Thiago Moura, competiu nas eliminatórias com as unhas pintadas em apoio a uma campanha contra a violência infantil.

 

Na aba que reserva em seu Instagram para suas unhas pintadas, Uiki postou um vídeo no qual aparece tendo as unhas feitas por ninguém menos que a medalhista olímpica Rosângela Santos. O esmalte da vez era um violeta, e Santos aparece no vídeo dando pinceladas certeiras, segurando o pincel com suas mãos de unhas longuíssimas e pontudas. “@santosrosangela100m é um anjo que caiu do céu Brasil”, escreveu o atleta em cima do vídeo. 

Recordista sul-americana dos 100 metros rasos e primeira brasileira a correr a distância em menos de 11 segundos, Rosângela foi medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, integrando o time de revezamento 4x100m feminino do Brasil. Naquela ocasião, não pôde exibir suas garras em volta de sua medalha no pódio, porque a vitória não foi reconhecida imediatamente. Na final, o Brasil ficou em quarto lugar, atrás da Rússia, da Bélgica e da Nigéria. No entanto, em 2016, descoberto o uso de doping por parte das atletas russas, a medalha de ouro foi repassada à equipe belga. A Nigéria ficou com a prata, e o Brasil, com a medalha de bronze. Até Rayssa Leal conquistar a prata, Santos carregava o posto de atleta brasileira mais jovem a ganhar uma medalha olímpica, com 17 anos. 

Santos, aos 30, competiu em Tóquio nos 100 metros rasos. Ela sempre corre maquiada, bonita e com a manicure em dia. Na pista dos 100 metros, exibiu unhas pontudas pintadas em rosa bebê com pontas estilo francesinha brancas. Ela não conseguiu classificação para a semifinal nessa modalidade, mas correu sua melhor marca no ano. Na quarta-feira, disputa o revezamento 4x100m com as colegas Vitoria Rosa, Ana Carolina Azevedo, Ana Claudia Lemos e a reserva Bruna Farias.

 

A história de atletas negras, como Santos, e suas manicures é rica. Hoje elas são muitas (e muitos), mas a precursora disso foi a estadunidense Florence Griffith-Joyner, na década de 1980. Três vezes medalhista de ouro nos jogos de Seul em 1988, Flo-Jo também chamava atenção pelas unhas extravagantes, sua marca registrada. Numa entrevista de 1992, uma repórter perguntou sobre sua aparência e ela respondeu: “Eu não acredito que é preciso parecer masculina para competir num esporte considerado difícil. Atletismo é lindo, e eu só quis levar minha personalidade para a pista.” Na época isso era inédito. A atleta disse que as pessoas geralmente ficavam chocadas e colocavam em dúvida se ela conseguiria correr com unhas longas daquela forma. Seu recorde olímpico nos 100 metros rasos de 10s62, conquistado em 1988 com unhas de 8 cm, permaneceu intacto durante 33 anos, até ser batido pela jamaicana Elaine Thompson-Herah em Tóquio, que fez 10s61 na semana passada. Flo-Jo continua mantendo o recorde do melhor tempo na prova na história, de 10s49. Sua carreira foi marcada por suspeitas de doping jamais comprovadas.

Joyner sempre corria com roupas incríveis, como um macacão de uma perna só, mas as unhas eram seu principal artifício. Seu interesse por elas nasceu no ensino médio, ela contou a uma revista especializada em unhas em 1993. Mais velha, aprendeu a fazer manicure e penteados e, enquanto se preparava para as Olimpíadas de 1988, era com o dinheiro que ela ganhava num trabalho de meio período num salão de beleza que ela pagava as contas. Tentando dar dimensão à importância que as unhas tinham para ela, Flo-Jo contou que, numa ocasião, quando já estava na pista se preparando para uma competição, uma de suas longas unhas quebrou na largada. Assim que ela cruzou a linha de chegada, voltou para o início para procurar pela unha quebrada. 

A atleta morreu em 1998, e suas unhas viraram tema de uma escultura da artista nova-iorquina Pamela Council em 2012. Trata-se de uma peça composta por 2 mil réplicas feitas de acrílico das unhas que Flo-Jo usou em 1988, empilhadas na forma de uma pista de 200 metros na escala de 1:100. A referência aos 200 metros é porque a atleta também guarda o recorde nessa modalidade. 

Outra corredora estadunidense que veio logo depois de Florence Joyner e fez história com suas unhas foi Gail Devers. Três vezes campeã olímpica nos anos de 1992 e 1996, Devers corria com unhas longuíssimas, como garras, que chegavam a dar volta. Eram tão grandes que a atleta tinha que adaptar a posição de largada para acomodá-las. Recentemente Devers contou que roía as unhas na infância. “Minha mãe tinha cabelos e unhas longas. Eu sempre dizia que elas eram lindas, e ela me dizia: ‘se você tirá-las da boca, elas vão crescer.’” O pai tentou várias estratégias para acabar com o hábito da filha. Só quando ele apelou para a natureza competitiva de Devers que deu certo: “Ele disse que iria deixar a unha do mindinho crescer e eu quis vencê-lo e deixar a minha crescer mais do que a dele. Eu ganhei. Eu não me lembro o que eu ganhei, mas depois disso a minha mãe me disse: ‘se você mantiver elas limpas, tá tudo bem.’ Então eu as deixei crescer.”

Na década de 1990, Devers descobriu ser portadora de Graves, uma doença autoimune causada por um distúrbio na glândula tireoide. Demorou três anos para receber o diagnóstico. E, desde então, deixa sempre as unhas crescerem por esse tempo, sem cortar. “Um dos primeiros sinais de que havia algo errado comigo era que minhas unhas estavam frágeis. Agora minhas unhas são extremamente fortes. A cada dois dias troco de cores. Deixo-as crescer durante três anos, não importa quanto tempo eu leve para pintá-las ou esperá-las secar. Para mim, é um sinal mental de que eu estou bem, minhas unhas estão fortes.”

Pintar as unhas ou fazer qualquer mudança estética mais ou menos chamativa geralmente é uma escolha individual do atleta. No entanto, a assessora de imprensa Carol Canoa, dona da agência C2 Sports, responsável pela comunicação e marketing de diversos jogadores de futebol brasileiros, conta que, por menor que seja a mudança no visual, o atleta sabe que, se perder, aquela característica poderá ser usada como justificativa para o baixo rendimento. “O meio do esporte ainda é muito conservador. Além de esperarem que atletas sejam verdadeiros influenciadores, exemplos de seres humanos imbatíveis, há muito machismo envolvido”, ela conta. “Já cansei de ver atletas sendo repreendidos não só por torcida, mas pelo próprios técnicos pela simples atitude de pintar o cabelo de loiro, com a alegação de que ele estaria se importando muito com a aparência e pouco com esporte, o que é uma besteira”, conta.

Marcella Ramos (siga @marcellamrrr no Twitter)

Repórter e coordenadora de checagem da piauí

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