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Gaúchos ficam sem churrasco durante julgamento de Lula

Esquema de segurança para protestos no dia 24 fecha por 48 horas tradicional churrascaria de Porto Alegre, ponto de encontro de políticos

Rafael Moro Martins | 18 jan 2018_17h18
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Ojulgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na próxima quarta-feira, em Porto Alegre, vai interferir numa sagrada instituição gaúcha: o churrasco. Instalada desde 1984 no Parque da Harmonia, onde também está o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, o TRF-4, a tradicional churrascaria Galpão Crioulo terá de fechar as portas por 48 horas. A casa de mil metros quadrados e capacidade para 400 pessoas é destino de turistas por oferecer, além de 20 tipos de carne, shows de música tradicionalista. Ela fica dentro do perímetro de segurança definido pelas autoridades locais para o julgamento.

“Como ocupamos uma área de concessão pública, temos que seguir a determinação da prefeitura. Fecharemos na terça e na quarta”, resignou-se Adalberto Zanatta, proprietário da casa, numa conversa por telefone. Ele discorda e não vê razão para as autoridades locais se preocuparem com a segurança de seu estabelecimento. A churrascaria “é imparcial”, diz o dono. E explica: “Não emitimos opinião. Quem está julgando é quem estudou para isso. Aqui, atendemos maragatos e chimangos, gremistas e colorados, petistas e antipetistas. E sentados lado a lado.”

Não são apenas os turistas que procuram a Galpão Crioulo. O tamanho fez da casa um local frequentemente escolhido por partidos políticos para seus eventos. “Já fizemos festas aqui para o Lula, o Zé Dirceu já esteve aqui. Não deve haver partido para quem a gente não tenha feito festa”, rememorou Zanatta. Prudente, ele preferiu não revelar qual sua torcida para a próxima quarta-feira. Primeiro colocado nas pesquisas eleitorais, Lula recorre ao TRF-4 contra a condenação a nove anos e meio de prisão, em primeira instância, pelo caso do tríplex do Guarujá.

A ideia do gabinete de crise montado por autoridades municipais, estaduais e federais para preparar a cidade para os manifestantes contra e a favor de Lula é isolar todo o perímetro do Parque da Harmonia. Ali, além da Galpão Crioulo e do TRF-4, se localizam as sedes regionais dos ministérios da Fazenda, Agricultura, Pecuária e Abastecimento, do Incra, IBGE e do Serpro, do Ministério Público Federal e da Câmara Municipal. “Pedimos que a partir do meio-dia de terça-feira não haja expediente nesses órgãos”, disse o secretário de Segurança Pública gaúcha, Cezar Augusto Schirmer, em entrevista à piauí.

O entorno do Parque da Harmonia deve ser o local mais procurado pelos manifestantes que vêm chegando a Porto Alegre para o julgamento. Apenas o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, espera levar dois mil militantes dos três estados do Sul para acampar na cidade – a primeira escolha para pernoite era justamente o parque, mas isso foi vetado por uma decisão judicial.

“O prejuízo vai ser grande”, avaliou o dono da churrascaria. “Essa já é uma época difícil, o pessoal de Porto Alegre se muda para a praia. Qualquer receita perdida faz falta em dobro”, completou, referindo-se aos porto-alegrenses que saem da cidade no verão, quando ela ganha o apelido de “Forno Alegre”. “Nessa época, a quarta e a quinta são os dias de mais movimento. Na sexta, o pessoal já viaja. E quarta tem muito turismo de negócios por aqui”, disse o empresário, que emprega 40 pessoas e não estimou quanto deixará de ganhar por causa do fechamento. O rodízio na churrascaria varia de 39 a 89 reais, dependendo do horário e da quantidade de carnes.

Mesmo vizinhos da churrascaria, o juiz federal de segunda instância João Pedro Gebran Neto, relator dos processos da Lava Jato no TRF-4, nascido e criado em Curitiba, e seus auxiliares, não costumam dar as caras na Galpão Crioulo. “Mas os advogados que passam pelo tribunal são clientes”, garantiu Zanatta. “Os defensores do Lula, do Zé Dirceu e de outros réus vêm bastante. Talvez porque é perto.”

Pensando na clientela que vai trabalhar no julgamento, o empresário tentaria uma última cartada para manter as portas abertas no dia 24. “Estamos pressionando a prefeitura para podermos abrir e atender os jornalistas credenciados.” Profissionais de todo o país e do exterior chegarão a Porto Alegre para acompanhar a sessão, e parte deles fará a cobertura do lado de fora do prédio do TRF-4. “Aqui perto não tem nada, restaurante, banheiro, para esse pessoal”, argumentou Zanatta.

Nesta quinta-feira à tarde, ele enviou ofício à prefeitura para apresentar seus argumentos – espera uma resposta até amanhã. Nas declarações à piauí, a Secretaria da Segurança Pública foi taxativa. “Eles já sabem que terão que fechar na terça e na quarta-feira”, disse um assessor da pasta. Outro estabelecimento comercial, a Casa do Gaúcho, espaço de eventos para bailes e festas de formatura, está instalado dentro do Parque da Harmonia. Ninguém atendeu aos telefonemas nesta quinta-feira, para descobrir se os proprietários também tentam evitar o isolamento do local.

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