questões epidemiológicas

A genética da Covid e os 400 mil mortos

Pandemia transforma em tragédia almoço de irmãs reunidas durante isolamento; cientistas investigam fatores genéticos da doença

Camille Lichotti
29abr2021_14h56
Ilustração de Carvall

Era uma quarta-feira nublada em Belo Horizonte quando seis irmãs se reuniram para um almoço casual. De última hora, marcaram de se encontrar na casa de Maria do Socorro Queiroga, 72, depois de quase um ano de confraternizações presenciais suspensas por causa da epidemia de Covid-19. Em isolamento, todos os onze irmãos (cinco homens e seis mulheres) mantinham contato apenas por ligação telefônica ou chamada de vídeo. Mas não era a mesma coisa. A pandemia rompeu tradições de família: os irmãos não podiam mais ir à igreja juntos nas noites de sábado nem se encontrar na casa de um deles para um café depois da missa, como era de costume. No último dia de 3 de março, para tentar preencher esse vácuo, Maria do Socorro e seu marido, Antônio, 59, receberam em casa cinco irmãs dela: Madalena, 76, que morava sozinha, Maria Bernadete, 88, Nair, 80, Maria das Graças, 72 (gêmea não idêntica de Maria do Socorro), e Stela, 90. As quatro últimas, solteiras e sem filhos, dividiam um apartamento de três quartos na capital mineira e moraram juntas a vida inteira. O resto da família sequer ficou sabendo do almoço. As irmãs imaginavam que aquela não seria uma aglomeração perigosa – era apenas uma pequena reunião rápida de parentes próximos, para botar a prosa em dia. Mas no sábado seguinte, dia 6, o marido de Maria do Socorro começou a sentir sintomas gripais. 

Antônio procurou um hospital no mesmo dia e foi internado. O resultado positivo do teste para Covid-19 veio em seguida. Preocupadas, todas as irmãs que estavam no almoço daquela tarde de quarta-feira decidiram fazer o exame também. Das seis, apenas Maria Bernadete e Stela tiveram resultado negativo, mesmo morando com duas irmãs infectadas. A família suspeitou que poderiam ser falsos negativos. Não demorou muito para que a primeira das irmãs apresentasse sintomas ligados à Covid-19. Nair procurou ajuda médica no dia 14 e foi direto para a UTI. Com a saturação muito baixa, precisou ser intubada com urgência. No dia 16, pela manhã, Maria das Graças também passou mal e foi encaminhada a um hospital. Sentada em uma poltrona e ligada a uma máquina de oxigênio, esperou quase um dia inteiro por um leito de internação. Algumas horas depois, à noite, Maria Bernadete – cujo teste para Covid-19 havia dado negativo – também foi hospitalizada depois de sentir tosse e cansaço. Nesse mesmo dia 16, Antônio, o primeiro do grupo a desenvolver sintomas, morreu. No dia seguinte, Madalena, a irmã que morava sozinha, também precisou ser internada, mas se recuperou uma semana depois. Todas elas eram saudáveis, ativas e não tinham comorbidades. 

As irmãs ficaram em hospitais diferentes em Belo Horizonte, vinculados aos convênios médicos de cada uma. “Quando eu falava com elas, por ligação, dizia que todas as outras estavam bem, que estavam esperando por ela. Não falávamos sobre o estado de saúde das outras para que elas pudessem ter força para se recuperar”, lembra Ana Carolina Queiroga, sobrinha das seis irmãs. Mas, nos hospitais, o cenário era de guerra. “Foi uma angústia porque não tinha vaga de UTI para a Maria Bernadete. O pulmão dela estava 90% comprometido”, conta Queiroga. “O médico perguntou se a gente ainda queria tentar. Eles a sedaram até que tivesse um leito vago. Ficamos um dia e meio esperando a vaga. Mas ela não resistiu.” Maria Bernadete morreu no dia 25 de março. Nair, no dia 27. Maria das Graças, no dia 29. Entre as quatro que moravam juntas, apenas Stela sobreviveu. No intervalo de cinco dias, a Covid-19 levou três das seis irmãs. Contando Antônio, das sete pessoas à mesa do almoço, quatro morreram.

As irmãs Queiroga em uma festa de aniversário antes da pandemia; da esquerda para a direita: Nair, Maria do Socorro, Stela, Maria das Graças, Madalena (segurando o bolo) e Maria Bernadete / Foto: Acervo pessoal

 


Apandemia que nesta quinta-feira, dia 29 de abril, passou da marca de 400 mil brasileiros mortos tem sido cada vez mais pródiga em histórias como a das irmãs Queiroga. Desde o começo deste ano, a enfermeira Thábata Leite, 26 anos, tem testemunhado com maior frequência casos de pessoas da mesma família levadas pela Covid num intervalo curto de tempo. Ela trabalha há seis no Serviço de Verificação de Óbitos da Capital da Universidade de São Paulo (SVOC-USP). Leite é responsável por realizar um questionário com famílias das vítimas que morreram de Covid-19 no Hospital das Clínicas da universidade. A autópsia verbal, como é conhecida, é fundamental para trazer detalhes do histórico de saúde de cada vítima. No fim, os relatos se tornam pequenas crônicas de vida e morte, com partes contadas pelo corpo do paciente e outras narradas pela família.

Recentemente, ao coletar informações sobre uma idosa, Leite descobriu que aquela era a quarta pessoa da família a morrer pela doença. “O mais provável é que ela tenha se contaminado através do neto, que fora a uma festa antes de encontrá-la”, lembra Leite. “Esse rapaz teve sintomas, mas sobreviveu. Ainda assim, a culpa ficou. Ele dizia que se sentia culpado por ter ‘matado’ os parentes.” Além da culpa, conta Leite, muitos parentes ainda se perguntam por que alguns membros da família morrem e outros sobrevivem. “Hoje não existe mais essa divisão de grupo de risco. Recebemos no SVOC jovens, crianças, adultos saudáveis que morrem por Covid-19. Todas as mortes são inesperadas.” 

Mas as mortes e os riscos de agravamento da Covid-19 não são completamente aleatórios. “Certamente há um componente genético que interfere nas chances de infecção e óbitos pela doença”, diz Paulo Saldiva, patologista que coordena as autópsias minimamente invasivas realizadas no SVOC. Saldiva participa de um estudo com o Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP para entender que componentes do material genético fazem com que uma pessoa seja mais vulnerável à Covid-19 que outra. Saldiva não descarta que o fator socioeconômico também deixe alguns grupos mais suscetíveis a desfechos trágicos. Mas a genética pode elucidar questões para as quais a ciência ainda não tem respostas – como a morte de pessoas jovens e saudáveis. 

Ainda em 2020, por exemplo, seu grupo de pesquisa realizou a autópsia em uma menina de 11 anos, vítima de Covid-19. A análise do genoma da criança e de seu exoma (componente não transcrito do DNA que ajusta a expressão dos genes ao longo da vida) não mostrou um traço sequer de imunodepressão ou de comorbidades futuras. “Esse é um dos casos que vão entrar nessa série de estudos. Nossa hipótese é que a pesquisa genética poderá dizer por que essa menina saudável de 11 anos morreu”, explica Saldiva. 

Outro braço da pesquisa busca respostas para centenários superprotegidos que, surpreendentemente, não se infectaram ou desenvolveram formas graves da doença – ainda que tenham sido expostos ao novo coronavírus. É o que poderia desvendar, por exemplo, o caso de Stela Queiroga, a mais velha entre as irmãs mineiras. Inexplicavelmente, ela foi a única que não se infectou. No ano passado, Stela teve um acidente vascular cerebral (AVC), que, aliado à idade avançada, a colocaria no grupo de alto risco. Mas, mesmo morando com três irmãs que se contaminaram e morreram, ela não apresentou um sintoma sequer, e seu teste deu negativo para a Covid-19. 

 

Em março, Saldiva e outros treze pesquisadores publicaram um artigo conceitual que explica a metodologia usada na pesquisa que eles desenvolvem. O objetivo é analisar variantes genéticas em diversos locais do DNA e combinar suas contribuições para os diferentes desfechos da Covid-19. Com isso, os pesquisadores podem calcular o risco genético de os indivíduos desenvolverem quadros graves da doença. Em junho do ano passado, cientistas europeus encontraram a primeira ligação estatística entre variações genéticas e a Covid-19. Depois de vasculhar o genoma de milhares de pacientes com Covid-19, os pesquisadores descobriram que dois pontos do DNA humano estavam ligados a um maior risco de insuficiência respiratória entre os doentes. Um deles é o gene que determina o tipo sanguíneo: ter sangue do Tipo A foi associado a um aumento de 45% na probabilidade de precisar de respirador, de acordo com o estudo publicado no The New England Journal of Medicine. O segundo cromossomo que apresentou ligações com o curso da Covid-19 abriga seis genes, e ainda foi possível concluir qual deles tinha relação com a doença. Outro estudo, publicado no mês passado, mostrou que o grupo sanguíneo O e o Rh negativo do sangue estavam associados com menor risco de infecção por Sars-CoV-2 e com casos graves da doença.

O grupo de Saldiva propõe uma técnica mais complexa que a utilizada pelos pesquisadores europeus, capaz de revelar associações ainda mais fortes. A hipótese dos cientistas brasileiros é de que a explicação genética para suscetibilidade ou proteção do hospedeiro Covid-19 é multifatorial – ou seja, não está ligada a apenas um gene. Para que eles analisem todas as combinações, é preciso um grande número de amostras diversas. Já existem bases de dados colaborativas para isso. A Covid-19 Host Genetics Initiative, por exemplo, reúne o sequenciamento genético de milhares de pacientes com Covid-19 espalhados por 46 países.

Enquanto as respostas genéticas não chegam, Saldiva continua buscando outras formas de entender o novo comportamento do Sars-CoV-2. “O risco maior de adoecimento familiar que observamos agora também pode ter alguma relação com as novas variantes”, avalia o patologista. As novas cepas também agravam o estado de saúde dos doentes mais rapidamente, relatam os clínicos no Hospital das Clínicas da USP. Entre as vítimas mais recentes, Saldiva notou um perfil recorrente durante as autópsias: obesos e pessoas com sobrepeso. Para ele, essa característica pode ser um fator crucial para as mortes nessa segunda onda. Segundo o IBGE, em 2019, um em cada quatro brasileiros com mais de 18 anos tinha obesidade – e mais de 60% deles estavam com excesso de peso. “Estamos empenhados em uma pesquisa para investigar a biologia do tecido gorduroso e entender melhor o que está acontecendo com o vírus ali”, conta Saldiva. “Eu tenho mais dúvidas a respeito da biologia da doença hoje do que eu tinha quando fiz a primeira autópsia de Covid-19, um ano atrás”, diz. 

Stela Queiroga, a única das seis irmãs que não desenvolveu sintomas, continua morando no apartamento de três quartos em Belo Horizonte. O AVC que teve no ano passado deixou algumas sequelas neurológicas leves. A sobrinha conta que, apesar de ativa, Stela ainda tem lapsos de memória. Por vezes ela esquece os nomes das irmãs falecidas, Maria das Graças, Maria Bernadete e Nair – mas não o que aconteceu. Stela se refere a elas como “as meninas que foram embora”.

Ana Carolina lembra que uma de suas tias precisou esperar dois dias até ser sepultada porque não havia horário disponível para fazer o enterro, de tão cheio que estava o cemitério Parque da Colina, em Belo Horizonte. “Quando eu estive na administração do cemitério, me disseram que de dez dos onze sepultamentos marcados eram de vítimas de Covid-19”, conta Ana Carolina.

As irmãs não puderam ser sepultadas no mesmo cemitério porque o jazigo da família já estava lotado. Maria do Socorro, agora viúva, se mudou para o antigo apartamento das irmãs, onde faz companhia e cuida de Stela. Madalena continua morando sozinha. “Para minimizar um pouco a dor, eu tento pensar que elas já tinham cumprido sua missão”, diz Ana Carolina, com a voz embargada. “Como eram muito unidas, uma não ia deixar a outra. O amor era tão grande que preferiram ir as três juntas.”



Camille Lichotti (siga @camillelichotti no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

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