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A geopolítica da vacina

Os países que compraram vacinas de diferentes fornecedores reduziram seu risco, e os que apostaram em apenas um ou dois laboratórios dependem da sorte

02out2020_19h30

No 53º episódio do podcast Luz no fim da quarentena, José Roberto de Toledo e Fernando Reinach falaram sobre as apostas dos países em cada uma das vacinas em teste. Ouça o episódio completo aqui.

 

José Roberto de Toledo: Este episódio não é sobre um estudo científico a respeito da Covid-19, é sobre bolsa de apostas. Isso mesmo, Fernando Reinach analisa um levantamento feito pelo Deutsche Bank e publicado pelo jornal inglês Financial Times sobre qual país comprou quantas vacinas de cada laboratório que está pesquisando uma maneira de criar imunidade contra o Sars-CoV-2.

O interessante é que, ao fazer isso, a gente descobre quais são as vacinas nas quais os cientistas e os governantes globais estão apostando mais alto. Aquelas que foram mais compradas e por mais países são, em tese, as favoritas. Mas não é só isso. A gente também vê nesse levantamento quais países estão mais seguros no mercado de vacinas porque distribuíram suas apostas ou, ao contrário, quais assumiram uma posição de risco e jogaram todas as suas fichas numa vacina só. Onde você acha que o Brasil está?

Fernando Reinach, vamos voltar a falar de vacinas, mas agora sob um ponto de vista, digamos, talvez, menos científico, mas quase comercial. Você achou no Financial Times um gráfico feito pelo Deutsche Bank com a distribuição da geopolítica da vacina, com quem comprou qual vacina e em qual quantidade.



Fernando Reinach: O gráfico vai estar no site da piauí, para quem tiver curiosidade de ver. É um gráfico de barras, onde na horizontal está o número de doses pré-compradas por cada país per capita. Vai de 0 a 5, então, o país que tem cinco comprou cinco doses de vacina para cada habitante. Então, se tem um milhão de habitantes, foram comprados cinco milhões de doses.

José Roberto de Toledo: Considerando que há vacinas que precisam de duas doses, quem tiver mais de duas está bem.

Fernando Reinach: E aí você tem quanto cada país comprou. Por exemplo, a Inglaterra comprou 5,5 doses para cada pessoa. Estados Unidos compraram um pouco mais de cinco doses para cada pessoa. O Canadá comprou exatamente cinco doses para cada pessoa. O Japão comprou um pouco mais de quatro doses para cada pessoa. A União Europeia tem 13,8, mais ou menos, doses para cada pessoa.

José Roberto de Toledo: Ou seja, computando todo mundo da Alemanha, França…

Fernando Reinach: Até a Austrália tem três doses. Então, esses seis países têm mais vacinas compradas do que precisam. Há vários países que têm por volta de uma dose, ou menos, para cada habitante. O Brasil, por exemplo, tem mais ou menos 0,7, 0,8 doses compradas para cada habitante. Se você pensar que a vacina que vai dar certo precisa de duas doses, você precisava ter pelo menos duas para garantir. E aí vai. A China, por exemplo, não comprou quase nada. Então não só mostra o quanto cada país já comprou, já pré-comprou, mas mostra em que vacinas cada país colocou suas fichas. Então vamos pegar o exemplo da Inglaterra. Ela comprou 5,5 doses para cada habitante. Uma dose e meia para cada habitante vem da Oxford AstraZeneca. Depois comprou, talvez, meia dose da Pfizer, depois comprou pouco menos de uma dose da Novovax, depois comprou um pouquinho da Johnson & Johnson, depois comprou um pouco da Sanofi GSK, depois comprou bastante da Valneva.

José Roberto de Toledo: Ou seja, ela apostou em seis fornecedores de vacinas em potencial.

Fernando Reinach: Isso quer dizer que a Inglaterra não achava que teria um vencedor claro na época em que ela fez essas compras. O que é razoável.

José Roberto de Toledo: Ela diversificou seus investimentos.

Fernando Reinach: Ela diversificou seus investimentos, pôs um pouco na poupança, pôs um pouco em ações.

José Roberto de Toledo: Também deixou claro que não acredita nem nos russos, nem nos chineses, porque não comprou nada da China.

Fernando Reinach: Ela diversificou tanto que, se só uma dessas seis que ela comprar funcionar, ela não vai ter vacina o suficiente para toda a população. Precisaria que, no mínimo, duas ou três dessas funcionassem.

José Roberto de Toledo: Só para dar um exemplo aqui: a que ela mais comprou foi a da AstraZeneca, desenvolvida lá em Oxford, e a segunda que ela mais comprou foi a da Valneva, que ainda está em pré-clínica, não tem resultado nenhum, é um tiro no escuro.

Fernando Reinach: Exatamente. Mas ou a Inglaterra acredita suficiente nessa vacina para comprar essas doses, ou ela está, através dessa compra, financiando o desenvolvimento dessa vacina. São as duas coisas que podem explicar isso.

José Roberto de Toledo: Deve ser, porque é o único país que bancou a Valneva aqui nesse gráfico.

Fernando Reinach: Aí você pega, por exemplo, o caso da Suíça. A Suíça comprou meia dose e de um fornecedor só, que é a Moderna. Aí você pega o Brasil, que também comprou 0,7 ou 0,8. Mais da metade da compra do Brasil foi da Oxford AstraZeneca, e o pouquinho mais que ela comprou é da Sinovac, que é essa vacina que está sendo desenvolvida com o Butantan.

José Roberto de Toledo: Quando a gente fala em Brasil, no caso da Sinovac, é só São Paulo, né?

Fernando Reinach: É só São Paulo. E São Paulo comprou pouco, mas também está construindo uma fábrica, então, teoricamente, se a fábrica funcionar a tempo, você poderia ter um acesso maior à Sinovac. Agora, você pega a América Latina inteira, excluindo o Brasil, ela só comprou a AstraZeneca.

José Roberto de Toledo: AstraZeneca, vamos lembrar, é a que já parou duas vezes a fase 3, porque teve uma reação adversa, mielite transversal, uma inflamação dos nervos da espinha de dois pacientes. E, se tiver uma terceira, o mundo vai ficar em pânico, porque estamos muito dependentes dela.

Fernando Reinach: Os únicos países que não compraram a AstraZeneca foram o Canadá e a Suíça. Até a China comprou um pouquinho da AstraZeneca. Agora, o interessante é que só dois países fizeram a compra antecipada da Sinovac, que são o Brasil e a Indonésia. A Indonésia pôs todas as suas fichas na Sinovac, é a única que ela comprou, uma dose para cada habitante. O Brasil comprou 0,25 doses para cada habitante, e o resto das fichas estão na AstraZeneca. Então é interessante que você pega a SinoVac, uma vacina na qual o Brasil está confiando muito, e você não vê os outros países comprando doses.

José Roberto de Toledo: Nem Europa, nem Estados Unidos, nem América Latina, nem Japão…

Fernando Reinach: Nem na China, que é de onde ela vem. A China é um caso peculiar. Como ela tem um controle grande sobre as fábricas de vacina internas, se ela precisar da vacina, ela vai ter as vacinas, eu acho. Então acho esse gráfico muito interessante porque, claro, tem um monte de coisas de geopolítica, o país tende a comprar dos parceiros preferenciais ou de suas próprias empresas etc., mas ele também reflete onde os especialistas, os cientistas e todo mundo que participou do processo decisório dessas compras resolveu colocar suas fichas. Do mesmo jeito que tem bolsa de apostas para saber que cavalo vai ganhar, o quanto você põe de dinheiro em cada cavalo ou numa corrida, aqui os países também apostaram em vários cavalos.

José Roberto de Toledo: Claramente o favorito é a AstraZeneca Oxford e, em segundo lugar, também bem destacado, Pfizer Biontech, que vendeu para Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Japão e União Europeia. E a Moderna está ali em um terceiro lugar honroso.

Fernando Reinach: Eu acho que há várias conclusões interessantes. Primeiro mostra onde cada país colocou suas fichas e quanto ele acredita em cada vacina. Depois ele mostra que, com pouquíssimas exceções, tipo a Indonésia e a Suíça, ninguém aposta numa vacina só. Isso confirma o que todo mundo tem falado, que não dá para ter certeza sobre qual vacina vai funcionar.

José Roberto de Toledo: Sob esse aspecto, até o Brasil, porque o governo federal apostou tudo na Oxford AstraZeneca e o governo de São Paulo apostou tudo na Sinovac. Quer dizer, são duas apostas num cavalo só. Se não pagar placê, estamos perdidos.

Fernando Reinach: Agora o governo federal entrou nesse programa da ONU. A ONU está juntando uma pilha de dinheiro para comprar vacinas para os países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, uma espécie de consórcio de compra, de compra coletiva, e o governo federal anunciou que ia entrar nisso.

José Roberto de Toledo: Foi uma medida inteligente, porque até agora está sendo burro, porque está apostando tudo na AstraZeneca.

Fernando Reinach: Exatamente. Dá para perceber por essa tabela que eles devem ter ficado bem nervosos quando os testes da AstraZeneca foram paralisados no mundo. Então dá pra ver que tem apostas e um monte de gente. E o nível de aposta varia muito. Vai do da Inglaterra, que comprou 5,5 doses, até o da China, que quase não comprou. E, claro, devem ter muitos países do mundo que não compraram nada.

José Roberto de Toledo: E está aí a importância da iniciativa da Organização Mundial da Saúde, para que esses países possam ter chance de ter acesso à vacina.

Os Estados Unidos e principalmente o Reino Unido, que distribuíram por mais cavalos as suas apostas, são os dois países que também não implementaram políticas de isolamento social decentes. Desde o começo, já ficaram apostando na vacina. Talvez isso explique um pouco também essa diversificação e essa intensidade da compra. Essa claramente foi a política pública na qual eles apostaram.

Fernando Reinach: O Brasil nem nessa política pública apostou, porque a gente também não fez medidas e não comprou vacina suficiente.

José Roberto de Toledo: O Brasil é o pior dos mundos. Não fez isolamento social, não tem nem sequer uma dose por habitante.

Fernando Reinach: Outra coisa também interessante aí é que, se somente uma ou duas vacinas funcionarem, eu acho que não tem nenhum país que vai conseguir vacinar todo mundo. Talvez os únicos países sejam os Estados Unidos e o Canadá, que com duas vacinas só resolvem.

José Roberto de Toledo: Antes de a gente terminar, eu queria falar um pouquinho sobre os três protocolos que foram divulgados justamente pelos favoritos – a AstraZeneca, a Pfizer e a Moderna divulgaram – são os protocolos de testes, dos quais dá para extrair algumas conclusões.

Fernando Reinach: Isso normalmente não é divulgado nunca. Com essa desconfiança das vacinas, o pessoal divulgou esses três protocolos.

José Roberto de Toledo: E foi curioso porque uma divulgou primeiro e as outras duas vieram logo na cola, divulgando também.

Fernando Reinach: Agora vamos ver, os chineses não divulgaram nada, então a gente não sabe o protocolo de como está sendo feito o teste da Sinovac no Brasil, por exemplo.

José Roberto de Toledo: O que eles dizem, se eu entendi bem, é que a gente vai demorar 24 meses para concluir a fase 3 de testes, para ver todos os efeitos colaterais. Porém, a gente já está avisando aqui que, se chegar a um determinado número de casos entre as cobaias humanas, eles já vão espiar para saber se esses casos apareceram entre quem tomou a vacina ou entre quem tomou placebo. E a partir dessa taxa eles cogitam já pedir autorização para fabricar. É isso?

Fernando Reinach: Exatamente. Porque o que você precisa mostrar na fase 3, primeiro, é que não tem efeitos colaterais sérios e, segundo, que o grupo que toma a vacina tem muito menos casos de Covid que o grupo que toma placebo. Então, se você tiver cem casos da doença do grupo inteiro e você abrir, e os cem casos estão em quem tomou placebo, e não tem nenhum caso de quem tomou a vacina, cem é suficiente. O problema é quando começa a ter uma eficácia menor. Então você abre e tem setenta no grupo controle e trinta no grupo de vacina. Então você fala “Bom, então é 30%. Será que isso? Qual é o intervalo de confiança?” O que é muito impressionante nesses protocolos é que é um número relativamente pequeno de pessoas que precisam ser infectadas para você ter um resultado definitivo, contanto que o resultado seja muito claro. Quanto mais próximo de 100% de eficácia, menor o número de casos.

José Roberto de Toledo: Eles estão prevendo a eficácia de 50% em um dos laboratórios e, nos outros dois, 60%. Quer dizer, não é que eles estão mirando muito alto.

Fernando Reinach: É porque o CDC tem uma regra interna dizendo assim: “Olha, nem me mande se for abaixo de 50.”

José Roberto de Toledo: CDC é o Centro de Controle de Doenças americano.

Fernando Reinach: É. Ele falou: “Se não tiver 50% de eficiência, então não quero nem olhar.”

José Roberto de Toledo: Portanto, a essa altura, os laboratórios estão torcendo, e por tabela nós, para que haja bastante contaminações. Que apareçam muitos casos de gente com Covid entre as 30 mil cobaias que testaram cada uma das vacinas.

Fernando Reinach: O interessante desse estudo de fase 3 é que eles não miram um tempo. Eles não miram dois anos, um ano de estudo. Eles miram no número de pessoas contaminadas. Quando eu chegar naquele número, eu vou abrir o estudo cego e vou ver quanto está em cada grupo. E tem nesses protocolos também a possibilidade de abrir antes. A justificativa para se abrir antes é que, se o resultado for muito grande, eu abro em cinquenta, todo mundo está no grupo placebo e eu descubro que minha vacina é 100% eficiente, não justifica esperar para duzentos. Porque os efeitos colaterais eu já vi nos 30 mil, contanto que eles ocorram nos primeiros dois, três meses. 

O interessante é que, pela primeira vez, as pessoas estão olhando ao vivo e a cores o desenvolvimento de uma vacina. Do que precisa, como faz, quais os cuidados que tem que ter, quais são os protocolos etc. Eu acho que isso é muito educativo. Acho que, para a maioria das pessoas, vai diminuir o medo ou o receio que as pessoas têm da vacina.

José Roberto de Toledo: O risco é as pessoas prestarem mais atenção na novela geopolítica, nas puxadas de tapete, nas sacanagens, do que na ciência propriamente. Mas não tem como evitar, é assim mesmo.

Doutor Fernando, muito obrigado mais uma vez. Vamos torcer para que todos os cavalos cruzem a linha de chegada da corrida da vacina.

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