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Google antecipa a urna?

Aumento das buscas por nomes de candidatos nas vésperas da eleição indica quem pode surpreender

José Roberto de Toledo
14nov2020_11h23

Na eleição para governador do Rio de Janeiro em 2018, muitos fluminenses tomaram a decisão de votar no então desconhecido Wilson Witzel no próprio domingo da votação ou na tarde da véspera, quando a última pesquisa de intenção de voto já havia sido encerrada. Os institutos mostraram o crescimento do candidato do PSC mas, por causa dos eleitores retardatários, não captaram o tamanho do salto de última hora do ex-juiz. O Ibope apontou 12% das preferências para ele na pesquisa divulgada sábado e 39% na boca de urna, feita no domingo e apenas com eleitores que já haviam votado. Na urna, Witzel chegou a 41% dos votos, foi ao segundo turno, derrotou Eduardo Paes (DEM) e se elegeu  governador. Sua vitória foi tão surpreendente quanto seu afastamento forçado do cargo menos de dois anos depois, acusado de corrupção.

Como evitar a repetição desse fenômeno inesperado? Como medir a intenção do eleitor que escolhe candidato na undécima hora, ou que muda de voto porque recebeu “santinho virtual” pelo grupo de WhatsApp da família? Será que a busca no Google pelos nomes de um ou outro candidato nas vésperas da eleição indica que os mais procurados têm mais chance de serem eleitos ou de irem para o segundo turno de votação? Confessará o eleitor à plataforma o que não confessa aos pesquisadores?

Estudo feito por Keila Guimarães e Marco Túlio Pires, ambos funcionários do Google, sugere que sim. Entre 30 de setembro e 6 de outubro, véspera do primeiro turno daquela eleição de 2018, Witzel foi o candidato que mais acelerou no interesse do eleitor do Rio de Janeiro. As buscas por seu nome cresceram 19 vezes na última semana. No dia da votação, ele registrava 23% mais interesse dos internautas no Google do que Eduardo Paes e mais do que o dobro de Romário, que os institutos de pesquisa apontavam como segundo colocado na preferência do eleitor. 

Poderia ser uma coincidência se movimentos semelhantes não tivessem se repetido em Minas Gerais. O futuro governador mineiro, Romeu Zema (Novo), foi o mais buscado na véspera da votação e terminou em primeiro lugar nas urnas no dia 7 de outubro. Zema também foi o que mais acelerou na reta final em Minas Gerais no interesse do eleitor que buscou candidatos no Google: 1.541%. Mas o Google Trends, como é chamada a ferramenta online que permite fazer esse tipo de aferição, não substitui as pesquisas de intenção de voto. Nem sempre o mais buscado é o vencedor.



Na eleição para governador de São Paulo em 2018, o candidato mais buscado no Google nem foi ao segundo turno. Paulo Skaf (MDB) registrou um crescimento das pesquisas por seu nome quatro vezes maior do que Márcio França (PSB) na última semana antes do pleito, mas nem por isso conseguiu superar o rival na urna. França terminou em segundo lugar e foi ao segundo turno paulista, quando acabou derrotado por João Doria (PSDB). O Google Trends não é infalível mas, ainda assim, ajuda a identificar tendências de última hora do comportamento do eleitorado. Então, o que a ferramenta aponta nas eleições de prefeito em 2020? 

Em São Paulo, o candidato mais buscado por internautas da capital no Google durante a reta final da campanha tem sido Guilherme Boulos (PSOL). Comparando o índice de interesse virtual pelos cinco primeiros colocados nas pesquisas de intenção de voto do Ibope e Datafolha, Boulos é o único que vem acelerando. As buscas por seu nome somaram 36% do total de pesquisas pelos nomes dos cinco primeiro colocados entre 23 de outubro e 5 de novembro. Cresceram para 40% entre 6 e 13 de novembro e chegaram a 48% na sexta-feira, antevéspera da eleição. Ao mesmo tempo, as buscas pelos nomes de seus principais adversários ficaram estáveis ou caíram. Nos casos de Bruno Covas (PSDB), que oscilou entre 30% e 27% do total, e de Márcio França (PSB), que oscilou entre 14% e 11%, o cenário no Google é de estabilidade. Já no de Celso Russomanno (Republicanos), é de queda: ele caiu de 18% para 14% total de buscas na última semana, e para 12% na antevéspera. Se o Google for um bom termômetro, Boulos e Covas devem passar ao segundo turno da eleição paulistana. 

Russomanno e Boulos: buscas pelo nome do candidato do Republicanos caíram, e as do nome do candidato do PSOL cresceram – Fotos: Eduardo Knapp e Avener Prado/Folhapress

 

No Rio de Janeiro, as buscas pelo nome do líder das pesquisas, Eduardo Paes (DEM), seguem estáveis, enquanto as pelo nome do atual prefeito e candidato à reeleição, Marcelo Crivella (Republicanos), cresceram 24% na antevéspera do primeiro turno em comparação com duas semanas antes. As pesquisas por Martha Rocha (PDT) e por Benedita da Silva (PT) diminuíram na reta final. As duas estão tecnicamente empatadas nas pesquisas de intenção de voto e disputam com Crivella a segunda vaga no segundo turno, para enfrentar o líder, Eduardo Paes.

Em Porto Alegre, o interesse pelos internautas que foram ao Google pesquisar nomes de candidatos é crescente pelo atual prefeito e candidato à reeleição, Nelson Marchezan Júnior (PSDB), e por Manuela D’Ávila (PC do B), que lidera as pesquisas de intenção de voto. São os dois favoritos do Google para irem ao segundo turno.

Já em Fortaleza há uma discrepância entre as pesquisas de intenção de voto e o Google Trends. Primeiro colocado no Ibope e Datafolha, José Sarto (PDT) aparece bem atrás de Capitão Wagner (PROS) e de Luizianne Lins (PT) no volume de buscas no Google.

Tampouco há convergência entre pesquisas e Google no Recife. Lá, o nome mais buscado é o da Delegada Patrícia (Podemos), que aparece apenas em quarto lugar no Ibope, atrás de João Campos (PSB), Marília Arraes (PT) e de Mendonça Filho (DEM).

No domingo à noite saberemos quem estava mais certo, se as pesquisas ou o Google.

José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)

Editor-executivo da piauí (site), foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

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