questões latino-americanas

Graxa dolarizada

Numa esquina de Buenos Aires, um assessor econômico do presidente eleito e um engraxate discutem por que os argentinos regulam todos os preços pelo dólar – e os planos do próximo governo para lidar com isso

Monica Yanakiew
22nov2019_08h29
O engraxate Vinaya  e o economista Nielsen, cotado para ministério do presidente eleito da Argentina –
O engraxate Vinaya e o economista Nielsen, cotado para ministério do presidente eleito da Argentina – INTERVENÇÃO DE PAULA CARDOSO SOBRE FOTO DE MONICA YANAKIEW

O economista Guillermo Nielsen caminhou dois quarteirões, do escritório dele no Centro de Buenos Aires até o cruzamento da Rua Florida com a Avenida Córdoba. Numa esquina fica a Galeria Pacífico – o shopping mais frequentado pelos turistas brasileiros que passam pela capital argentina. A outra, na diagonal, é ocupada pelos mesmos três engraxates há trinta anos. Nielsen é o ex-secretário das Finanças que renegociou a dívida argentina de cerca de US$ 100 bilhões, depois do calote de 2001 – o sétimo do país desde a sua independência e, até então, o maior do mundo. Ele faz parte da equipe de assessores econômicos do presidente eleito, Alberto Fernández. É cotado para ser ministro da Economia ou para cuidar dos projetos das reservas de petróleo e gás. Mas Nielsen está ali por outro motivo: há trinta anos ele engraxa os sapatos com o boliviano Mario Vinaya, de 59 anos.

“No começo do ano eu pagava 90 pesos, depois ele aumentou para cem, e agora o preço é 120 pesos”, contou ao apresentar o engraxate à piauí em 17 de setembro. “Quando fui reclamar do preço, ele me disse que nunca cobrou além do habitual: 3 dólares.” Homem de poucas palavras, o engraxate ouviu e sorriu. Quando Nielsen foi embora, comentou: “Ele não levou em conta as recentes desvalorizações – agora 120 pesos valem 2 dólares.”

Vinaya é a prova de que os argentinos – e também os estrangeiros que vivem aqui há muitos anos – se acostumaram a pensar em dólares. Quando o dólar sobe, os preços dos produtos e serviços na Argentina – do pão e da carne ao material de limpeza e aos remédios, passando também pelo condomínio, pelos planos de saúde e pelo doce de leite – aumentam e, com eles, a inflação. Ao menor sinal de que a economia está em apuros, os argentinos trocam os pesos que têm pela moeda norte-americana, apostando que ela vai aumentar. Até agora essa tese provou ser certa. O desafio de Fernández, que assumirá a presidência argentina no dia 10 de dezembro, é acabar com esse círculo vicioso. “Dada a história de nosso país, não é de se estranhar”, explica à piauí o economista Roberto Cachanosky, autor do livro Economia para Todos. “A inflação acumulada desde 1935, quando foi criado o Banco Central argentino, até agora é de 257 trilhões por cento. Nossa moeda não tem credibilidade, e por isso, quem pode poupa em dólares, de preferência fora do sistema financeiro nacional.”

O engraxate passou em casa o dia 27 de outubro deste ano, um domingo, o primeiro turno das eleições gerais, quando o liberal Mauricio Macri foi derrotado na disputa pelo segundo mandato presidencial. Macri assumiu em dezembro de 2015 com a promessa de eliminar os controles cambiais, impostos pela sua antecessora Cristina Kirchner. Mas se viu obrigado a voltar atrás, porque o Banco Central estava gastando reservas para evitar uma disparada do dólar. No início do ano, os cofres públicos tinham US$ 65,8 bilhões. Em novembro, tinham US$ 43,3 bilhões. Fernández, candidato peronista de centro-esquerda, foi eleito no primeiro turno, tendo a seu lado a ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner (2007-2015) e herdará dois problemas históricos da Argentina, agravados no governo de Macri (2015-2019): inflação anual de quase 60% e dívida externa de cerca de US$ 284 bilhões, que só poderá ser paga se os credores aceitarem, mais uma vez, renegociá-la.

A cúpula do Banco Central também acompanhou a apuração dos votos do primeiro turno das eleições presidenciais. Quando saiu o resultado, anunciou restrições às operações de câmbio: a partir de novembro e até a posse do novo governo, em 10 de dezembro, cada argentino poderá comprar apenas US$ 200 por mês, no câmbio oficial. Na segunda-feira, quando Vinaya voltou à esquina da Florida com Córdoba para engraxar sapatos, já estavam lá os arbolitos (arvorezinhas), como são chamados os cambistas que ficam em pé nas ruas do Centro de Buenos Aires gritando “câmbio, câmbio” para atrair clientes às cuevas (cavernas), onde podem trocar dinheiro no paralelo.

“Nunca pensei que voltaria a falar em dívida externa argentina… para mim era algo do passado”, disse Nielsen à piauí. “Mas o fato é que já estamos em default seletivo. O governo de Macri deixou de pagar a dívida em pesos, criando dificuldades para o conjunto da economia. Tanto Nielsen quanto Fernández trabalharam com o marido de Cristina, Néstor Kirchner, que governou a Argentina de 2003 até 2007 – no momento em que o país saía da pior crise de sua recente história – e morreu em 2010. Em 2011, Cristina foi reeleita presidente. 

No governo de Néstor, Nielsen foi incumbido de convencer os credores a receber, com atraso, em média 30 centavos por cada dólar devido. A grande maioria aceitou e a Argentina saldou a dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI), ganhando com isso independência para decidir os rumos da economia, sem ter que fazer os ajustes que a organização costuma pedir em troca dos empréstimos. 

Fernández foi chefe de gabinete durante toda a presidência de Néstor e nos primeiros meses do primeiro mandato de Cristina. Ele deixou o cargo por discordar da decisão dela de aumentar os impostos às exportações agrícolas argentinas, desatando uma rebelião dos produtores de carne, grãos e lácteos. Até fazerem as pazes este ano, e ela propor a candidatura dele, Fernández criticava duramente o governo de Cristina: por ter aumentado o gasto público e o déficit fiscal; por ter deixado a inflação atingir dois dígitos; e pela intervenção no Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec) para maquiar os índices que medem o custo de vida e a pobreza. 

Durante todo esse tempo, Vinaya acompanhava as idas e vindas da economia na mesma esquina da Florida com a Córdoba, batendo papo com clientes de todos os partidos e ajudando os cambistas. Ele se mudou para a província argentina de Jujuy, na fronteira com a Bolívia, quando ainda era criança. Os pais foram para lá cultivar tabaco. Aos 18 anos, ele veio para Buenos Aires e trabalhou para a Serviços Elétricos do Grande Buenos Aires (Segba), estatal que distribuía eletricidade até ser privatizada pelo ex-presidente Carlos Menem (1989-1999).

“Vivi aqui a hiperinflação do governo do ex-presidente (Ricardo) Alfonsín e do começo do governo de Menem – os preços variavam a cada hora”, conta Vinaya à piauí. Mas havia trabalho para os cinco engraxates que, na época, compartilhavam o mesmo ponto. “A moeda nossa não valia nada, mas por aqui passavam muitos turistas europeus e americanos, que deixavam boas gorjetas”, lembra Fidel Aquino, de 65 anos, vizinho de esquina de Vinaya. Aquino trabalhou durante vinte anos numa cadeia de lojas que vendia bebidas importadas, até ser demitido. Com a indenização montou uma butique de roupas – mas não deu certo. “Eu vendia prendas a um preço e com uma inflação que chegou a dois mil por cento nunca era possível repor o estoque”, explica à piauí. Optou por ser engraxate porque não teria que pagar aluguel, não teria chefes nem subordinados, não pagaria impostos e conhecia a freguesia do bairro. 

Foi naqueles anos de hiperinflação que o grupo estabeleceu o valor da engraxada em dólares – a moeda de referência na Argentina. A esquina era nobre. A poucos metros, sobre a Florida, ficava a Harrods – única filial da loja de departamento inglesa aberta fora do Reino Unido. O imponente prédio, que ocupa um quarteirão, fechou as portas ao público em 1998. Já era o fim da era do um-a-um: a década em que o peso argentino foi equiparado, por lei, ao dólar norte-americano. Aos poucos foram desaparecendo as lojas de produtos de couro e casacos de pele – porque a moda mudou, mas também porque importar, em muitos casos, era mais barato do que produzir localmente.

Pela engraxada, Vinaya e Aquino cobravam três pesos, que valiam três dólares. Pouparam e construíram casa própria no município de La Matanza, que faz parte da grande Buenos Aires e sempre foi bastião eleitoral do peronismo – movimento criado pelo general Juan Domingo Perón, que foi presidente da Argentina por três vezes. Por mera coincidência, as famílias de ambos cresceram no mesmo ritmo: cada um têm quatro filhos e nove netos.

Na crise de 2001, os engraxates tiveram que se adaptar aos protestos. Bem na esquina fica uma sucursal do banco francês BBVA. “As pessoas ficavam na porta, exigindo de volta o dinheiro, que tinha sido confiscado. Quem tinha depósitos em dólares recebeu pesos, que valiam um terço”, conta Aquino, durante uma outra conversa, no final de outubro. “Aquele amigo do Vinaya, o tal do Nielsen, renegociou a dívida, é verdade. Mas o povo recebeu bem menos do que tinha investido. Por isso é melhor guardar a poupança em casa”, disse.

A desvalorização trouxe de volta os turistas. Não gastavam tanto quanto antes – muitos eram do Brasil e de outros países vizinhos. A economia se estabilizou nos dois primeiros governos kirchneristas. No terceiro, a inflação – que parecia coisa do passado – atingiu dois dígitos. Cristina Kirchner restringiu as compras de dólares. Mas mesmo assim Vinaya e Aquino conseguiam comprar cerca de US$ 100 por mês. Com a recessão dos últimos meses, os aumentos das tarifas dos serviços públicos e da inflação, não conseguem mais. A rotina dos dois também é igual: duas horas de viagem para chegar ao Centro de Buenos Aires e montar a cadeira para os clientes, antes das nove da manhã. A jornada de trabalho, de segunda a sexta, termina por volta das sete e meia da noite. Aquino e Vinaya representam também um dos problemas que o próximo governo terá de enfrentar.

“O tamanho da economia informal, que hoje chega a 40% do total, é outro problema que o novo governo vai enfrentar – especialmente agora que a revolução tecnológica está afetando o mercado de trabalho, especialmente para os trabalhadores não qualificados”, disse à piauí o economista Raul Ochoa, professor da Universidade Tres de Febrero. 

“A diferença desta crise com a de 2001 é que agora os bancos estão mais capitalizados e fortes. Mas agora enfrentamos uma dificuldade, que não havia na época: a memória inflacionária dos argentinos”, disse Nielsen. “Agora as pessoas estão muito atentas para a inflação – o exemplo é meu amigo Vinaya. As aposentadorias e os salários, estão indexados ao índice inflacionário.” Outra diferença, segundo Nielsen, é que em 2001 o país estava em recessão, mas contava com bens de capital modernos, importados graças ao dólar barato da década da conversibilidade. “Não é o caso agora, o que dificulta a recuperação.” E existe também o problema da dívida externa: “Néstor Kirchner assumiu depois do default – não tinha vencimentos a pagar, porque o país já tinha dado o calote”, disse Ochoa. “Fernández já disse que vai honrar os compromissos assumidos pelo seu antecessor e vai ter que fazer frente aos vencimentos da dívida, logo no começo do mandato.” Pelos calculos dele, US$ 15 bilhoes vencem a partir de agora e ate maio de 2020. 

As incertezas do futuro são motivo de debate entre os engraxates e seus clientes – mesmo os acontecimentos nos países vizinhos, como Brasil, Equador, Chile e Bolívia. No início de novembro, o advogado Lucas Lopez, de 42 anos, sentou na cadeira de Aquino e brincou: “Cristina [Kirchner] vai voltar, e agora?” Ele sabe que o engraxate votou em Macri em 2015 e na eleição de 27 de outubro. “Fui obrigado a parcelar minha conta de luz, que subiu de 300 pesos para 3 mil, mas não quero que os peronistas voltem ao poder – foi com eles que a inflação voltou a subir”, diz o engraxate. O advogado votou em Fernández: “Mas com eles a economia andava – agora não”, responde.

A esquina dos engraxates fica perto do centro financeiro portenho – o lugar de onde partem e se espalham vários rumores, especialmente em tempos de transição política. A foto de Nielsen tem aparecido nos jornais como ministeriável ou – no mínimo – como alguém próximo ao novo presidente, aos investidores e aos altos funcionários do Fundo Monetário Internacional. No início do mês, o economista participou de um seminário na Herbert Business School da Universidade de Miami junto com Alejandro Werner, diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, e deu indícios de como será a renegociação da dívida argentina.

Nilsen criticou o FMI e a linha de crédito de US$ 57 bilhões concedida ao governo de  Macri. Segundo ele, o Fundo Monetário abriu uma exceção para a Argentina ao emprestar uma soma tão alta e por já ter desembolsado US$ 44 bilhões. “Este foi um apoio financeiro a Macri para que ele pudesse adiar o calote (da dívida) para depois das eleições”, disse Nielsen. O novo governo, acrescentou, espera que o FMI seja tão compreensivo com Fernández como foi com Macri. E que entenda que o país não pode fazer mais ajustes, porque precisa reativar a economia para pagar a dívida.  O economista já tinha dito o mesmo, de jeito mais simples, ao engraxate. 

Depois da  vitória de Fernández na eleição, Nielsen sentou novamente na cadeirinha de Vinaya: “Agora você pode ficar tranquilo que vai ter mais trabalho”, reiterou. Nos últimos dois anos, tanto Vinaya quanto Aquino reduziram a média de engraxadas diárias, de 35 a 25. O fato de que menos pessoas usam sapato de couro e de que o tênis virou moda contribuiu – mas a falta de dinheiro no bolso dos argentinos também. No dia 19 de novembro, Fernández, presidente eleito, anunciou pelo Twitter que conversou por telefone com a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva: “Transmiti minha intenção de colocar em prática um plano econômico que nos permita crescer, para chegar a um acordo de pagamento [da dívida] que possamos cumprir, sem mais ajustes para os argentinos.” Ele tem dito que vai tentar controlar os preços promovendo um pacto social, entre empresários, sindicatos, governadores, prefeitos e a oposição. 

Vinaya diz que já aderiu ao pacto, à sua maneira. No início do ano, o dólar valia 40 pesos. Chegou a subir a 65 e baixou para 62, depois das restrições cambiais. A desvalorização impactou no preço da latinha de graxa, que em um mês subiu de 190 pesos para 296. “Deveria aumentar a engraxada, mas não vou porque os clientes reclamam – viu o Nielsen?” disse Vinaya. “A prioridade agora é ter trabalho – mesmo cobrando menos em dólares”, conclui. 

 

 

Monica Yanakiew (siga @MonikaKiev no Twitter)

Baseada em Buenos Aires, cobre a América Latina há quase vinte anos. É coautora do livro "Argentinos: Mitos, Manias e Milongas" (Editora Planeta).

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