anais das redes

Grupo pró-Bolsonaro ganha relevância no Twitter após facada

Levantamento da DAPP-FGV mostra que apoiadores do candidato do PSL saíram fortalecidos do atentado; antibolsonaristas, porém, ainda dominam discussões

Marcella Ramos
13set2018_14h00
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

O atentado sofrido por Jair Bolsonaro em 6 de setembro ampliou em 29% a presença de apoiadores do candidato do PSL nas discussões sobre presidenciáveis no Twitter. Ao mesmo tempo, o episódio fez murchar a relevância de perfis alinhados à esquerda, que caiu 21%, ao lado de perfis anti-Bolsonaro sem orientação política definida, que perderam 4% de seu peso nos debates. No entanto, perfis que se opõem ao ex-capitão continuaram dominando a discussão, com 62% das interações.

A movimentação nas redes depois do atentado em Juiz de Fora foi detectada em um levantamento da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas obtido pela piauí. Para a análise, a DAPP levou em consideração os períodos de 28 de agosto a 4 de setembro e de 8 a 10 de setembro. Antes da facada, os perfis de apoio ao candidato representavam 14% dos 633 mil usuários que faziam parte do debate. A partir do dia 6, esses passaram a representar 18% dentro de um cenário composto por 411 mil perfis. Não são consideradas eventuais mudanças que tenham ocorrido desde então.

Desde o início do ano, o único assunto relacionado às eleições que despertou mais interesse no Google – segundo a ferramenta Google Trends, que compara o grau de interesse por palavras e expressões ao longo do tempo – foi a prisão de Lula, em abril. O pico de interesse, no entanto, foi o maior já registrado em torno de Bolsonaro desde o início de sua carreira política. Chamou mais atenção do que as mortes de Eduardo Campos, candidato à Presidência do PSB em 2014, durante a corrida eleitoral, e de Teori Zavascki, que era o relator da Lava Jato no Supremo, em janeiro de 2017. Despertou também mais curiosidade do que o impeachment de Dilma Rousseff.

No Facebook também foi possível observar o impacto do discurso pró-Bolsonaro. Nos dias que sucederam o atentado, todos os filhos políticos do candidato tiveram os likes em suas respectivas páginas catapultados. Eduardo Bolsonaro, candidato a deputado federal pelo PSL em São Paulo, recebeu 116 mil curtidas desde então. Flávio Bolsonaro, candidato ao Senado no Rio de Janeiro pelo PSL, garantiu 207 mil novos fãs. Até Carlos Bolsonaro, vereador no Rio de Janeiro pelo PSC e menos popular do clã, recebeu mais 27 mil likes em sua página. Os filhos postaram detalhes do quadro clínico de Bolsonaro, o que atraiu mais pessoas. Uma transmissão de vídeo ao vivo de Eduardo, de dentro de um carro a caminho de Juiz de Fora para acompanhar o pai, foi assistida mais de 2,5 milhões de vezes.

A pesquisa da DAPP também mostra que, no primeiro momento analisado, havia um grupo dentro do debate que defendia candidatos como Marina Silva, João Amoêdo, Geraldo Alckmin, Alvaro Dias e Henrique Meirelles, formado por 7% dos perfis. A facada fez com que esse grupo desaparecesse e abrisse espaço para um novo, que gira em torno da candidatura de Ciro Gomes, formado por 9% dos perfis dentro das discussões políticas no Twitter.

Ao longo da primeira semana após o atentado, as redes foram terreno fértil para desinformação, como imagens alteradas e teorias da conspiração. Apoiadores de Bolsonaro participaram disso. Magno Malta, senador do PR e escudeiro do ex-capitão, viralizou com um vídeo em que reza ao lado do leito do candidato no hospital Albert Einstein, em São Paulo, no dia seguinte ao atentado. Um dia antes, no entanto, enquanto Bolsonaro ainda era atendido na Santa Casa de Misericórdia de Juiz de Fora, Malta postava em seu Twitter uma montagem em que colaram o rosto do agressor entre participantes de um evento do PT. A história foi desmentida pelo projeto Comprova, um conjunto de 24 veículos jornalísticos feito para investigar boatos durante a campanha presidencial, entre eles a piauí. A coalizão também verificou a origem de uma foto da cicatriz no abdômen de Bolsonaro no hospital também postada por Malta. Desta vez, a conspiração foi às avessas: ele postou a imagem e internautas duvidaram da veracidade. A foto é legítima. Desde o atentado, Malta ganhou mais 18 mil seguidores no Twitter e 70 mil no Facebook.

Outro apoiador de Bolsonaro a conquistar likes e retuítes compartilhando desinformação sobre o atentado foi Alexandre Frota, candidato a deputado federal pelo PSL em São Paulo. Em 7 de setembro, ele postou um print de um dos vídeos que capturaram o momento da agressão. A imagem sugere que a faca usada no crime foi passada da mão de uma mulher para a mão de um homem antes de chegar ao autor do crime, Adélio Bispo de Oliveira. A postagem teve 2,8 mil likes e 1,7 mil retuítes. O Comprova também analisou o vídeo e concluiu que se tratava de uma mentira.

O crescimento nas interações não teve reflexo na página oficial de Bolsonaro no Facebook. O dia em que recebeu mais curtidas foi no dia seguinte ao atentado, em 7 de setembro, quando 57 mil pessoas curtiram sua página. Esse não foi, no entanto, o auge do candidato nos últimos três meses. Em 30 de agosto, dois dias depois de conceder uma entrevista ao Jornal Nacional, 85 mil pessoas o seguiram. Só no dia da entrevista, inclusive, a página do candidato recebeu 1,3 milhão de interações, o que já é mais da metade das interações que ele recebeu nos últimos sete dias: 2 milhões, no total.

Marcella Ramos (siga @marcellamrrr no Twitter)

Repórter e coordenadora de checagem da piauí

Leia também

Relacionadas Últimas

Muito gasto para pouca curtida

Candidatos declaram 2 milhões de reais à Justiça Eleitoral para impulsionar posts no Facebook e no Instagram, mas likes não vêm

De repente, Bolsonaro

Facebook exclui página que nasceu pró-Lava Jato, virou pró-Doria e morreu a favor do ex-capitão; rede social proíbe mudanças drásticas no nome das fanpages

Vacina em causa própria

Veterinário que comanda o Departamento de Imunização do Ministério da Saúde inclui a própria categoria na fila prioritária de vacinação contra a Covid-19

A epidemia particular das prisões

No Brasil, suicídios são quatro vezes mais comuns nas cadeias do que fora delas; famílias de presos lutam para que Estado se responsabilize pelas mortes

Pesadelo em Manaus

Mais trinta mil mortos pela Covid em apenas trinta dias. Quem é o responsável por essa tragédia?

A Floresta do Camboatá resiste

Depois de quase virar um autódromo, última área plana de Mata Atlântica no Rio pode se transformar em Unidade de Conservação

O dilema do impeachment

Especialistas divergem sobre possibilidade legal de Trump ser condenado após terminar o mandato; no fim, decisão deve ser política

A guerra da soja

Ao responsabilizar a produção de soja pelo desmatamento da Amazônia, presidente Emmanuel Macron optou por uma mentira conveniente

A gastança amazônica dos militares

Na virada do ano, Ministério da Defesa comprou satélite de 179 milhões de reais e fechou 2020 gastando o triplo dos órgãos ambientais para monitorar a floresta

Mais textos
1

Romário convoca CPI para investigar a cor do cabelo de Marin

BARRACA DO PEPÊ - Decidido a colocar em pratos limpos tudo que acontece na CBF, o deputado federal Romário recolheu assinaturas para uma CPI que investigará a cor do cabelo do presidente da entidade. "Se o Marin está diante de um fundo azul, o cabelo fica acaju. Se o fundo é branco, fica tudo meio esverdeado", desconfiou o craque, enquanto fazia aquecimento para uma partida de futevôlei com Aécio Neves.

2

Uma família de poder

A imagem reproduzida nesta página não é uma foto de família, apesar de representar quatro gerações de uma mesma família. Não foi feita para ser vista apenas por seus membros mas por um público amplo e não serviu para lembrar uma reunião de parentes, mas para passar uma clara mensagem política: a perenidade da dinastia reinante sobre a Inglaterra, então a nação mais poderosa do mundo. Tirada em 1899, às vésperas do novo século que prenunciava uma nova era, mostra a Rainha Vitória, então muito mais soberana do mundo que simplesmente rainha da Inglaterra, cujo reinado completara 62 anos, cercada por seu filho e herdeiro, o futuro Edward VII, seu neto, o futuro George V e seu bisneto, o futuro Edward VIII, cujo reinado, por oposição à sua bisavó, bateria o recorde de brevidade (apenas dez meses em 1936).

3

Após esfaquear Bolsonaro, agressor disse cumprir “ordem de Deus”

Policiais Federais que prenderam Adelio Bispo de Oliveira em Juiz de Fora imediatamente após o atentado afirmaram duvidar de sua “integridade psicológica”

4

Sobrou para o PSTU

Agremiação trotskista com apenas dois vereadores não escapou da fúria contra os partidos, mas já faz planos para o pós-revolução

5

A planta inteligente

Cientistas debatem um novo modo de entender a flora

6

A semana no site da piauí

O "início do namoro" entre Mão Santa e Bolsonaro, as investidas do procurador Carlos Fernando contra os críticos da Lava Jato e outras histórias

7

How do you do, Dutra?

É mais arriscado [e divertido] ir de São Paulo ao Rio de carro do que remar da África a Salvador

10

Mentalizar pinos

Repetir uma série de movimentos antes de cada arremesso pode ser fundamental ao boliche