Exclusivo: Globo pedirá desculpas em editorial, em 2038, por não ter realizado debate com um só candidato

26out2018_16h45
Em 2038 os jornais serão escritos em inglês, para acabar com a influência do bolivarianismo latino na escrita
Em 2038 os jornais serão escritos em inglês, para acabar com a influência do bolivarianismo latino na escrita

RIO (PRA NÃO CHORAR) – Ontem este The piauí Herald já havia brindado seu nobre leitorado com um furo de reportagem, que apontava para o fato de que a Rede Globo de televisão vai mostrar a novela “Anos Reaças” no lugar do debate que ocorreria entre os presidenciáveis – cancelado após a desistência do candidato Jair Bolsonaro de participar (apesar de ainda haver um segundo candidato, Fernando Haddad, disposto a ser entrevistado).

Hoje este egrégio tabloide, bastião do jornalismo fake, retoma a verve investigativa.  Em um novo furo de reportagem, a redação de The piauí Herald teve acesso a um editorial escrito pelo jornal O Globo, para ser publicado daqui 20 anos, pedindo desculpas pela decisão da emissora de não realizar um debate de um homem só (troço chato pra caramba, sabemos, mas ainda assim necessário para o bom funcionamento da democracia). Foi a primeira vez que um time que não comparece ao estádio ganha por W.O.

O texto segue abaixo. Qualquer semelhança com o editorial publicado em 2013 pelo Globo, pedindo desculpas pelo apoio ao Golpe Militar de 1964 é mera coincidência.

Rio, 26 de outubro de 2038

Diante de qualquer reportagem ou editorial que lhes desagrade, é frequente que aqueles que se sintam contrariados lembrem que a Globo  descartou fazer um debate presidencial com único candidato, em 2018, depois que o um dos postulantes ao cargo, Jair Bolsonaro, desistiu de participar.

A lembrança é sempre um incômodo, mas não há como refutá-la. É História. A Globo, de fato, à época, concordou com a eleição dos militares, ao lado de outras grandes emissoras e publicações, como a Record, O Estado de S.Paulo, o R7, o Antagonista, a IstoÉ e as páginas do Facebook “Somos Todos Bolsonaro”, “Minorias Mimimi”, “Racismo da Boca Pra Fora” e “Regina Duarte no STF”, para citar apenas algumas. Fez o mesmo parcela importante da população, em apoio expresso em manifestações e passeatas organizadas em Rio, São Paulo, Curitiba, Santa Catarina e outras capitais do Nordeste pra baixo.

Naqueles instantes, justificavam a eleição de militar pelo temor de um outro golpe, a ser desfechado pelo candidato que tinha amplo apoio de sindicatos e de alguns segmentos das Guerrilhas Urbanas Pablo Vittar, que pretendiam soltar kits-gay e mamadeiras eróticas, de helicópteros rosas, sobre as cidades brasileiras.

A divisão ideológica do mundo na Guerra Fria, entre Leste e Oeste, comunistas e capitalistas, se reproduzia, em maior ou menor medida, em cada grupo de WhatsApp (apenas de a Guerra Fria ter acabado em 1991). No Brasil, ela era aguçada e aprofundada pela radicalização entre as declarações estapafúrdias de Gleisi Hoffmann e José Dirceu, as cartas-bomba de Luiz Inácio Lula da Silva e, por outro lado, as colunas do jornalista Merval Pereira.

A situação política da época se radicalizou, principalmente quando Bolsonaro e os seus filhos mais próximos ameaçaram atropelar o STF “com um soldado e um cabo.  

Naquele contexto, a eleição de um candidato que anunciava fazer uma “faxina”, “banindo da pátria” quem pensasse de maneira diferente – classificada como “Movimento” pelo então presidente do STF, Dias Toffoli – era vista pela emissora como a única alternativa para manter no Brasil uma democracia (sic). Os militares prometiam uma intervenção passageira, cirúrgica. Ultrapassado o perigo de um golpe à esquerda, com a eliminação de todos que pensassem dessa forma, o poder voltaria aos civis. Tanto que, como prometido, foram mantidas, num primeiro momento, as eleições presidenciais de 2022.

O desenrolar é conhecido. Não houve as eleições. Os militares ficaram no poder por 20 anos, até saírem em 2038, com a posse de Sarney Filho, vice do presidente Aécio Neves, preso pela operação Lava Jato em 2037 pouco antes de receber a faixa.

Foram inegáveis os avanços culturais obtidos nos vinte anos sem Lei Rouanet e sem coitadismo de jornalista assassinado, de homossexual espancado, de mulher estuprada e de negro deixando de estudar em universidade pública por causa da injusta política de cotas.

Ainda assim, nos vinte anos durante os quais a ditadura perdurou, a emissora, nos períodos agudos de crise, mesmo sem retirar o apoio aos militares, sempre cobrou deles o restabelecimento, no menor prazo possível, da normalidade democrática.

Os homens e as instituições que viveram e desapareceram em 2018 são, há muito, História, e devem ser entendidos nessa perspectiva. A Globo não tem dúvidas de que a decisão de descartar um debate apenas com o candidato Fernando Haddad pareceu aos que dirigiam a emissora e viveram aquele momento a atitude certa, visando ao bem do país (e da audiência, porque ninguém merece um debate sem troca de farpas).

Contextos históricos são necessários na análise do posicionamento de pessoas e instituições, mais ainda em rupturas institucionais. A História não é apenas uma descrição de fatos, que se sucedem uns aos outros. Ela é o mais poderoso instrumento de que o homem dispõe para seguir com segurança rumo ao futuro: aprende-se com os erros do passado para que eles voltem a ser cometidos anos depois.”