vultos da política

A hora e a vez do pastor-sargento

Deputado baiano sintetiza a tendência militarizante e evangélica da política em 2018

Tiago Coelho
05mar2018_08h41
Segundo deputado estadual mais votado da Bahia, o Pastor Sargento Isidório vai disputar este ano uma vaga no Congresso Nacional. Com um porrete e a Bíblia nas mãos, o ex-PM apela ao eleitorado religioso e ao que anseia por segurança e ordem pública
Segundo deputado estadual mais votado da Bahia, o Pastor Sargento Isidório vai disputar este ano uma vaga no Congresso Nacional. Com um porrete e a Bíblia nas mãos, o ex-PM apela ao eleitorado religioso e ao que anseia por segurança e ordem pública FOTO: FERNANDO VIVAS

Do alto de um púlpito de ferro, acima de cadeiras e mesas de plástico onde centenas de homens e mulheres terminavam de almoçar, o “arcanjo” Ronald anunciou com a voz amplificada por um microfone: “Os indisciplinados ficaram sem carne e suco hoje. E, se não mudarem, continuarão sem receber.” Ninguém no enorme galpão questionou. As cabeças viradas sobre pratos e talheres só levantaram depois que a refeição terminou e o arcanjo os dispensou.

Uma voz rouca trovejou em tom assertivo: “Isso daqui só vai para frente se aplicar disciplina rígida”, disse o homem de 56 anos, magro e mulato, cabelos grisalhos, pés descalços, bermuda. Era Manoel Isidório de Santana Junior, autoridade máxima da Fundação Doutor Jesus, um centro de reabilitação de dependência química na cidade de Candeias, no Recôncavo Baiano. O homem de feição severa e rosto ossudo é conhecido no estado da Bahia como Pastor Sargento Isidório. Criou há 26 anos e até hoje comanda a instituição que abriga 1 200 pessoas em duas unidades.

Em contraste com as vestes despojadas que usava naquela tarde, por todo canto da fundação há grandes pôsteres de Isidório trajando um uniforme militar de gala e segurando uma Bíblia. Deputado estadual com 123 234 mil votos, o segundo mais votado da Bahia, o pastor vai sair nas eleições deste ano como candidato a deputado federal. A personalidade incomum que mescla a figura de um pastor neopentecostal de oratória acalorada e conservadora com um general linha dura pode fazer de Isidório a figura mais pitoresca da próxima configuração do Congresso Nacional.

“Vão descansar, agora. Daqui a pouco tem oração”, gritou Isidório para as 900 pessoas que moram na maior das unidades da Doutor Jesus. O espaço menor, com 300 pessoas, fica no terreno vizinho, a poucos metros. Isidório desfilava descalço pela propriedade de 100 mil metros quadrados, como se estivesse em casa. De fato estava, pois é onde ele vive com a família desde os anos 90. Dava ordens com a autoridade de um general, pois ali é seu quartel. E orientava os fiéis, pois ali também é a sua igreja.

Negros, pardos e mulatos buscavam uma sombra para o sol implacável de 29 de janeiro. Faltavam dentes na boca de muitos deles, uma das consequências do uso de crack. Os cachimbos deixaram marcas de queimadura no canto da boca e nas laterais dos dedos. Alguns tinham o olhar perdido e a expressão cansada. Outros pareciam bem dispostos. A maioria é homem. As mulheres são 20% do total de internos, segundo Isidório.

A fundação fica à margem direita da BR-324, num terreno acidentado que se estende por uma colina. “Veja nossos prédios. O que te lembra?”, perguntou o pastor, apontando para três edifícios brancos. “São arcas… arcas da salvação, como as de Noé”, respondeu a própria pergunta.

Os prédios brancos com detalhes azuis, vermelhos e amarelos são de alvenaria simples, sem sofisticação arquitetônica e de acabamento rudimentar, mas imponentes. E nas duas extremidades de cada prédio há um apêndice pontiagudo que lembra a proa de um barco.

No primeiro prédio construído, no início da colina, Isidório vive com a família em uma das alas. No mesmo andar está a ala feminina. Num canto reservado no térreo do prédio ficam os desobedientes anunciados pelos arcanjos – como ele chama os seus ajudantes, numa referência aos chefes dos anjos na hierarquia celestial. São os internos de castigo, vigiados por monitores.

“Ei, você!”, disse Isidório, convocando um rapaz negro, baixinho e magricela. “Apresenta a casa para a visita”, ordenou o pastor. O jovem era Elias Carlos dos Santos. Tinha 18 anos e havia chegado na Fundação Doutor Jesus cinco meses antes. Em três meses deixará a instituição, pois cada pessoa fica internada no máximo por oito meses.

O plano de tratamento administrado por Isidório não é baseado em nenhuma metodologia psiquiátrica. Seu procedimento terapêutico consiste em disciplina rígida e oração intensa. “Aqui não tem essa coisa de Rivotril. Comigo é Deus-tril, Jesus-tril…”, explicou o pastor, vinculado à Assembleia de Deus.

O interno Elias Carlos mostrou a despensa abastecida, a cozinha onde jovens como ele comandam panelões em fogões industriais. Quis mostrar os freezers cheios de carne. Passou pela padaria onde eles próprios fazem os pães.

Seguiu para a ala feminina. Quartos amplos com janelões e beliches. A mesma estrutura para os homens. Banheiros coletivos com muitas pias e chuveiros sem box. Diferentemente dos homens soltos pela propriedade, as mulheres se concentravam em seus quartos ou na creche, cuidando das crianças. “Elas são mais frágeis, ficam resguardadas, longe de tanto homem. Melhor assim”, explicou o pastor. Também havia uma boa quantidade de adolescentes internados para se livrar da dependência química.

Isidório disse que o Ministério Público da Bahia faz pressão para que a Doutor Jesus deixe de receber menores em suas dependências. Mas disse que não podia fechar as portas para eles, enquanto pais batem à sua porta pedindo que acolha seus filhos.

Muitos chegam trazidos por familiares e missionários de igrejas evangélicas. Elias Carlos chegou por conta própria. Percorreu 40 quilômetros a pé de Salvador a Candeias. Chegou sujo e eufórico sob o efeito do crack. Assim que os sintomas abrandaram, sentiu uma forte dor nas pernas por causa da caminhada. Saiu no início da tarde, chegou à noite. Desabou de cansaço na cama que lhe foi oferecida.

O interno ficou órfão de pai e mãe na adolescência. Passou a viver sozinho nas ruas de Salvador. Fazia bicos como ajudante de pedreiro. Quando não tinha mais dinheiro para comer ou se drogar, praticava furtos. Da disciplina rígida do lugar ele não reclama, agradece.

“Aprendi aqui que homem sem disciplina não leva a vida para a frente. Ficar um dia sem suco, sem carne não é nada. Muitos nem tinham esse luxo lá fora, vai reclamar do quê? Quando sair vai estar melhor, com uma vida mais disciplinada”, argumentou o rapaz.

Elias continuou a caminhada, mostrou as duas piscinas, a barbearia, as duas quadras poliesportivas. Dois campos de terra e um salão de jogos.

Todo mundo faz alguma tarefa na casa. Seja lavando pratos, cozinhando, distribuindo refeições ou na manutenção da propriedade. Cada ala dos prédios tem um líder responsável por cobrar organização, limpeza e cumprimento das regras. Acima deles, ficam os arcanjos.

Elias Carlos atualmente trabalha na patrulha. Faz plantões de oito horas de dia ou à noite. Fica de prontidão na entrada para receber quem chega. E quase todo dia chega gente, ele disse. Não há muros na propriedade. “Quem quiser ir embora, vai. Eu fico porque me sinto abençoado aqui.”

Além das imagens do parlamentar, em quase toda parede há conselhos, pintados em letras grandes. “O crack leva ao suicídio”, indica um deles, seguido de um lembrete: “Pastor Isidório está orando por você.”

 

 

“Vocês viram com seus próprios olhos que aqui tudo funciona direito, não viram?”, perguntou Isidório a um grupo de cinco homens vestidos com roupas sociais. Eram pastores neopentecostais de Candeias. “Tem promotor e político pilantra que nunca pisou aqui e diz um monte de mentiras sobre minha instituição. Sem contar a imprensa de ACM que faz matéria caluniosa do meu trabalho”, bradou o religioso, que substituiu a camiseta e bermuda por um terno cinza, sobrando em seu corpo magro. Em poucos minutos sairia para a Assembleia Legislativa da Bahia.

Isidório encaminhou a comitiva para sua sala, de onde se vê toda a propriedade. “Eu acredito que tenho pouco tempo na Terra, pouquíssimo”, começou a discursar em tom enigmático. De repente se levantou, aumentou a voz, gesticulando. “Não tenho tempo para ficar de fingimento. O evangelho é escândalo aos olhos dos que creem. Ficam todos com cara de santo por aí. Eu não. Canto, danço, xingo. Por isso me chamam de maluco”, disse, apontando para si.

Os pastores ouviam atentos, pareciam tentar decifrar onde Isidório queria chegar. “Jesus me livrou das drogas, do alcoolismo, do planejamento de assaltos e da viadagem. O evangelho é ação social. É para puta deixar de ser puta, viado deixar de ser viado, ladrão deixar de ser ladrão e drogado se livrar do vício.”

“Aleluia!”, “Amém!”, louvaram os pastores. “Vocês vão comigo hoje para Salvador cobrar pessoalmente esse dinheiro ao governo. Quero ver se não vão dar.”

Um barulho metálico e intermitente encheu a sala vindo de fora. Um homem baixinho badalava uma sineta. Do alto da colina desceu a multidão de internos da fundação. Era o chamado para a oração da tarde.

O som se repetia para todas as atividades obrigatórias da instituição: café da manhã, almoço, jantar, cultos e as orações entre cada refeição. Um amplo galpão com teto de zinco com cadeiras de plástico e um tablado de madeira funciona como templo na Fundação Doutor Jesus.

A multidão de internos estava ajoelhada no chão. As cabeças apoiadas nas cadeiras e os olhos fechados em oração. Murmuravam com intensidade: “Me Liberta, Senhor”, “Faz de mim Teu Instrumento”, “Eu sou Teu servo”. Isidório passou por eles com os dois braços estendidos sobre suas cabeças como a abençoá-los. As mulheres não participavam da cerimônia.

O pastor subiu ao púlpito e falou ao microfone. “Hoje vocês estão aí prostrados no chão com humildade pedindo ao Senhor. Amanhã serão homens de valor para a sociedade, quem sabe futuros doutores.” “Glória a Deus!”, gritaram os internos, levantando do chão. “Por falar em doutores, amanhã teremos a visita de juízes e desembargadores que virão conhecer a fundação. Quem sabe amanhã vocês não se tornam colegas deles. Pois vocês são preciosos para Jesus e ele tem um propósito para cada um.”

O pastor se despediu e se encaminhou com seu grupo até uma Sprinter estacionada perto dali. O veículo tem uma imagem de Isidório vestido com o traje militar de gala, segurando uma Bíblia que cobre toda a superfície. Além dos pastores, dois assessores acompanhavam o pastor-sargento. Seguiram para a Assembleia Legislativa, em Salvador.

O Pastor Sargento Isidório foi o segundo deputado estadual mais votado na Bahia em 2014. Por seu jeito sem filtro e opiniões controversas, é um político conhecido no estado. Com a farda e a patente de sargento, imprime a imagem de um político comprometido com a segurança e a ordem pública. O título de pastor tem apelo com os mais de 6,8 milhões de evangélicos na Bahia, que a cada censo apresentam um número crescente.

No trajeto para a capital baiana, veículos buzinavam para o carro chamativo. A qualquer taxista ou motorista de Uber a quem se pedisse uma consideração sobre o político, “polêmico” e “maluco” eram as mais frequentes. Muitas vezes, vinha com um complemento: “faz um bom trabalho recuperando viciados”.

Maluco é um adjetivo que Isidório não refuta, pelo contrário, transformou em jingle de campanha. Para a campanha de 2014, sua música-chiclete em ritmo de axé pegou nos ouvidos: “Agora é a vez do doido, doido, dooooido! O maluco quer acabar com as drogas e pra acabar com as drogas, só mesmo doido.”

 

 

A sala de Isidório, no prédio anexo à Assembleia, onde ficam os gabinetes dos deputados, tem ao fundo a réplica de um botijão de gás em isopor. Seja disputando como prefeito (como em 2016, quando tentou sem sucesso a Prefeitura de Salvador) ou deputado, Isidório sempre carrega o botijão em campanha e reclama do preço alto na Bahia, onde há farta extração de gás no Recôncavo. Mesmo não sendo atribuição do prefeito e deputado, sua promessa recorrente é diminuir o preço do gás de cozinha.

O deputado e outros pastores que recebeu naquela tarde se acomodaram em cadeiras espalhadas pela sala. Em uma delas estava João Isidório, filho do pastor e diretor da fundação. Um rapaz alto, corpulento e discreto.

Um dos assessores de Isidório entrou na sala e informou ao pastor que um antigo amigo o visitara mais cedo. “Coronel Acioli. Queria falar com você.”

“Deve estar querendo ser promovido e quer minha ajuda”, respondeu Isidório de boca cheia, enquanto filava sua quentinha.

“Coronel rodoviário. Falou que como o senhor é ‘assim’ com o governador e vai vagar um cargo na Polícia Rodoviária, está querendo uma força. Falou que conversou com você em Candeias. Disse que é seu compadre”, explicou o assessor.

“Compadre o quê? Sou crente. Ele era meu compadre quando eu não tinha Jesus. Faltou pouco para ser meu bofe”, disse o pastor em tom de galhofa, arrancando risos de seus colegas.

Assim que terminou de almoçar, Isidório pediu ao assessor que ligasse para o gabinete do secretário de Relações Institucionais do Estado, o petista Josias Gomes. O assunto era a liberação de recursos para a Semana Evangélica de Candeias. Por isso os pastores do município procuraram Isidório, queriam que o deputado pressionasse o governo.

O assessor avisou que o secretário Josias Gomes não poderia atender, pois estava em uma reunião com o governador, o petista Rui Costa. “Se não formos atendidos, vamos até a sede do governo. Vocês têm coragem de ir?”, perguntou Isidório. Os pastores ficaram quietos. “Cadê as Bíblias de vocês para bater se nos impedirem de entrar? Se alguém nos acusar, a gente diz que não estava batendo, estava abençoando”, disse, provocando mais risadas.

Enquanto não encorajava seus pares, o Pastor Sargento Isidório enumerou com orgulho aos colegas suas conquistas na Assembleia Legislativa nos últimos meses: a aprovação do Dia do Orgulho Heterossexual no estado (todo terceiro domingo de dezembro), uma lei que declara a Bíblia como patrimônio imaterial da Bahia, um projeto que enviou para votação para que haja estudo bíblico na rede estadual de ensino e sua intenção de pôr um monumento à Bíblia no Dique do Tororó. O dique, que fica próximo à Arena Fonte Nova, tem um conjunto de monumentos aos orixás do candomblé.

Porém, o feito que mais o envaidece é a instalação de um painel em homenagem à Bíblia de mais de seis metros de comprimento, no plenário da Assembleia. O monumento tem como figura central a imagem de uma grande Bíblia ladeada por uma pomba e uma arca da aliança com a inscrição: “Ao Deus de Israel.”

Pediu que o assessor de imprensa mostrasse um vídeo onde promove uma festa de inauguração do painel. “Esse dia mudou a história da Assembleia Legislativa da Bahia.” Continuou: “Somos a única onde o Deus de Israel foi entronizado no plenário. E ainda teve colega que torceu o nariz. Depois vieram me questionar ‘Ah, o estado é laico.’ As divindades do candomblé têm valor cultural para Bahia? E o povo cristão não tem? Se é laico tira tudo, então.” Ele se referia ao painel “Procissão de Bom Jesus dos Navegantes”, instalado na casa desde 1993, obra do artista baiano Carlos Bastos. “Se nesse painel tivesse uma foto de homem com homem iam dizer que era cultura”, disse Isidório em tom indignado.

 

Eram 18 horas e Isidório precisava voltar para sua casa na Fundação Doutor Jesus, para cuidar dos preparativos para a visita de juízes e desembargadores no dia seguinte. Mas, o presidente da Comissão de Pastores de Candeias, Jucivaldo Barbosa de Jesus, um homem negro e alto de terno escuro, pediu a palavra. “A gente está aqui diante do futuro deputado federal. Abençoamos a vida dele e de sua família. E que Deus dê ao seu filho João Isidório sabedoria para seguir com o projeto. Amém!?”, rogou Barbosa de Jesus.

Os próximos passos políticos de Isidório foram expostos na bênção. Na eleição de 2018, o político vai disputar o cargo de deputado federal. Mas seu empenho vai ser para garantir a eleição de seu filho para uma vaga na Assembleia Legislativa da Bahia. “Dizem as más línguas que vou ter entre 200 a 300 mil votos. Então minha briga vai ser para garantir a eleição do meu filho”, gabou-se.

O filho ouvia em silêncio. “Se eu tiver 200 mil e conseguir passar 20% disso, o garoto ganha 40 mil votos. Precisa de 35 mil para ser eleito. Tá feito.” Um coro de “Glória a Deus” na sala de Isidório sucedeu sua contabilidade.

Ao voltar a Candeias, o culto noturno já estava em andamento no galpão da fundação. Isidório apresentou sua casa, ampla, semelhante às instalações dos internos. Além da mulher, sete filhos, noras e netos, a residência está sempre cheia de assessores e agregados. O pastor mostrou o quarto onde disse – em tom de zombaria – transar três vezes por noite com a esposa, que ele chama de pastora Elza. Elza Celestino tem 54 anos e está casada com Isidório há 37. De poucas palavras, Celestino é uma mulher rechonchuda de cabelos longos e pretos, vestida com uma saia comprida.

Isidório tirou o terno cinza e saiu do quarto de bermuda, camiseta e descalço. Foi até um canto da casa onde havia uma idosa muito magra e enferma sobre uma cama e a beijou na testa. Em seguida, gritou pela casa perguntando em tom severo se deram banho na sua mãe naquele dia. Uma mulher de sua família se apressou em dizer que sim. As perguntas em tom altivo do pastor em direção ao séquito não costumam ficar sem resposta, por mais ríspidas que sejam.

 

Manoel Isidório de Santana Junior nasceu em Salvador em 1962 e passou a infância em Periperi, bairro pobre do subúrbio. A mãe era costureira e o pai cozinheiro de plataforma de petróleo da Petrobras. Passava quinze dias embarcado e outros quinze em terra. O patriarca era boêmio e mal parava em casa. Ganhava bem, mas gastava a maior parte do salário com as amantes, o que apertava o orçamento familiar.

Isidório não passou fome, mas na infância teve que vender picolé e amendoim para complementar a renda da família. “Não guardo rancor do meu pai, ele não tinha Jesus na vida dele. Quando não era convertido, minha vida era assim também.”

Antes de entrar na adolescência, disse o pastor, a mãe hospedou temporariamente um primo militar na casa da família. O parente dormia no quarto de Isidório e à noite o molestava. A esse episódio ele atribui as experiências homossexuais que passou a ter na adolescência.

Quando confrontado sobre esse pensamento, pois nem toda pessoa abusada na infância é homossexual e nem todo homossexual foi abusado quando criança, o pastor se mantém irredutível: “Isso mexe na conduta da gente nessa fase de formação de comportamento.”

O pastor não entra em detalhes sobre suas experiências homoafetivas, diz apenas que estava sempre bêbado e transava com homens, mulheres ou o que aparecesse pela frente. Mesmo depois de casado com Elza. Ele diz que a esposa nunca desconfiou. “Nunca deixei de comparecer em casa.”

Isidório entrou para a Polícia Militar da Bahia no início dos anos 80. A personalidade imperativa e o apreço pela disciplina disse ter absorvido na corporação. Não conta detalhes, mas afirma ter planejado assaltos a bancos quando era policial. Embora nunca tenha ativamente participado de um roubo, dava “instruções táticas”, afirmou.

A conversão ao evangelho o pastor relembra com detalhes. Estava na porta de casa, em Candeias, a poucos metros de onde hoje fica sua fundação. Vestia “camisetinha apertada e bermudinha curta de viado”, como disse, quando apareceu um grupo de fiéis da Assembleia de Deus cantando hinos religiosos e tocando violão. Isidório disse que se emocionou. Uma das mulheres do grupo levantou a Bíblia e perguntou quem queria “aceitar Jesus”. Isidório levantou a mão. Desde então, disse ter “largado completamente” as drogas e nunca mais se relacionou com homens.

Dizendo-se estimulado pelas palavras do evangelho, passou a receber em casa usuários de drogas. O número de pessoas que o procuravam pedindo ajuda cresceu. Foi quando ocupou o terreno vazio, onde hoje funciona a fundação, para abrigar um número maior de pessoas. Construiu um barracão de bambu e com o tempo melhorou a estrutura. Depois que entrou para a política, no início dos anos 2000, conseguiu que o governo do estado apoiasse financeiramente a instituição. Desde 2007 há um convênio entre o governo da Bahia e a Fundação Doutor Jesus. Atualmente o centro de reabilitação recebe 10,7 milhões de reais por ano da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social do Estado da Bahia.

 

Foi um episódio traumático o que lhe abriria as portas para a política, em julho de 2001. Nessa época, a Polícia Militar de vários estados reivindicava aumento de salário e melhores condições de trabalho com greves. O movimento preocupou o governo federal a ponto de se cogitar uma intervenção militar nesses estados.

Repercutiu naqueles dias uma ação policial que impediu com bombas, cassetetes e bordoadas manifestações contrárias ao então senador Antônio Carlos Magalhães por um grupo de universitários. “A polícia baiana tinha virado massa de manobra nas mãos de ACM e era malvista por parte da sociedade”, disse Isidório. O próprio ministro da Educação à época, Paulo Renato, condenou a repressão violenta aos estudantes.

O sargento, então, encaminhou um pedido de audiência ao comandante-geral para discutir a imagem da PM, hora extras e aumento salarial. A proposta foi recusada. Desarmado e sem farda, Isidório marcou uma reunião para tratar dos assuntos em pauta com outros colegas da corporação. O ato incomodou o governo da época. Isidório e o tenente Everton Uzeda, identificados como líderes, foram presos. Dias depois, quando soltos, foram exonerados com outros 68 soldados e oficiais que participavam da reunião. Em solidariedade aos colegas, desencadeou-se enfim uma greve na PM da Bahia.

A violência em Salvador cresceu. Outros batalhões aderiram. Quando foi solto, Isidório foi a Brasília entregar uma carta ao ministro da Justiça, denunciando más condições de trabalho. Acabou preso novamente pela polícia baiana na volta da capital federal.

Isidório assume temporariamente um tom de voz baixo e uma expressão melancólica ao relatar o que aconteceu depois. “Me jogaram do alto de uma escadaria para dentro de um porão do batalhão. Era escuro. Tinha produtos químicos, tambores de gás para simulação de combate a incêndio. Passei seis dias lá. Quando me tiraram para me levar à UTI, eu estava golfando sangue. Quiseram me internar como louco.” A voz rouca que tem ainda hoje, afirma, é consequência desse episódio. O coronel responsabilizado pelo ato contra Isidório foi condenado por prática de tortura.

 

O incidente deixou sequelas, mas foi importante para o início de sua trajetória política, como o próprio reconhece. Isidório saiu com fama de líder popular. Seu primeiro convite para entrar na política veio do PT, partido pelo qual foi eleito deputado estadual em 2002, com 44 559 mil votos.

Depois concorreu a prefeito de Candeias e deputado federal, e perdeu em ambas. Em 2010 voltou como deputado estadual. Disputou a Prefeitura de Salvador em 2016 e ficou em terceiro lugar. Passou pelo PSC, PSB, PROS, PDT e hoje preside o Avante no estado. Mas foi a votação expressiva para deputado estadual em 2014 que o consagrou como força política na Bahia.

A justificativa para a troca constante de legenda, disse, é a recusa em aceitar diretrizes partidárias com as quais discorda. “Sou evangélico, não posso partilhar de coisas que a minha convicção não permite, como casamento gay e aborto.”

Uma reportagem no jornal A Tarde diz que Isidório deixou o PSB depois de ser repreendido por declarações homofóbicas. Ao jornal, o pastor disse: “Pediram para moderar minhas declarações, mas não tem como. Casamento é homem com mulher, não tem outro jeito.”

A cisão com o PT, sua primeira legenda, se deu por discordâncias com os rumos do partido logo no primeiro mandato de Lula. “Vi Sarney, Collor e Calheiros virarem Lula. Tudo o que é desgraça virou Lula. Para mim não dava mais. Lula foi o presidente dos meus sonhos. Não foi ele que chamou os deputados de picaretas no passado? Devia ter feito um pacto com o povo e não com essas pessoas com que se meteu.”

Ainda assim, apoiaria o ex-presidente caso seja candidato. “Lula errou? Errou. Se juntou com quem não presta, sim. Agora, não conheço presidente que se aproximou de negros, pobres e miseráveis mais do que ele. Esses economistas, filósofos, sociólogos, ninguém fez mais que Lula. Se ele comeu, também botou para o pobre. Apoiaria a candidatura dele.”

A imagem militarista e o discurso moralista e conservador que prega nos cultos poderia supor afinidades com o ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro. Mas Isidório rejeita. “Parece comigo em algumas coisas, mas tenho críticas a ele. Estimular o armamento da população vai transformar o Brasil numa praça de guerra. Parece que ele está a serviço dos fabricantes de armas.”

O deputado também não compartilha do discurso punitivista de Bolsonaro encarnado na lógica de que bandido bom é bandido morto. “Tudo de ruim eu já fui. Se Deus mudou minha vida, pode mudar a dos bandidos. Os colarinhos brancos estão em tudo quanto é canto. Na hora de matar bandido nessa nação, só chega nos lascados da periferia. Não tem que matar, tem que pregar o evangelho que liberta.”

Questões sobre sexualidade e identidade de gênero não despertam a mesma tolerância no parlamentar. “Essa coisa de dizer que nasceu no corpo errado é bobagem. Deus não faz nada errado. Tudo isso é coisa do satanás.”

O principal alvo de sua ira é a Rede Globo, à qual se refere como Rede Esgoto. E que, segundo Isidório, é o maior veículo de propaganda “de ideias pervertidas”. “A Globo está danificando a família brasileira. Malhação, às cinco da tarde, fala de relação de mulher com mulher. Eles estão formando a conduta dos jovens.”

Em seu programa de governo para a Prefeitura de Salvador há propostas de combate à discriminação e ao assédio moral contra a população LGBT, além da criação de centros de apoio. O deputado mostra traquejo político ao explicar que não há incoerência entre o que fala e o que propõe: “Como pastor, sou contra queimar rosquinha. Quando você disputa a Prefeitura, tem que contar com voto de gay, lésbica, macumbeiros e espíritas. Um gestor da coisa pública precisa entender que o dinheiro público é de todos.”

Ele acrescenta que na Fundação Doutor Jesus “não nega abrigo” a homossexuais. Mas deixa claro que dentro da instituição não permite manifestações que considera “impuras”. O pastor nega a acusação que se faz a ele de que promove a cura gay. “Não curo ninguém. Não é doença, é espiritual. Apenas recebo em minha sala os internos que me procuram querendo se livrar do pecado e mostro a palavra de Deus.” Uma das passagens preferidas do pastor é o Levítico: “Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação.”

 

Na noite anterior à visita dos magistrados, Isidório estava descalço e sem camisa. Percorria a fundação orientando internos e funcionários sobre como proceder na recepção dos convidados. Ordenava sempre com sua voz de trovão.

Quando finalmente parou, disse que o mundo está mudando rápido demais. Reclamou dos netos que não respeitam mais a autoridade e que os filhos já não o ouvem como antes. Por isso, disse sentir que “seu tempo na Terra está se esgotando”.

Animou-se apenas ao falar sobre João Isidório, filho e herdeiro político. “Tenho certeza de que vai dar sequência à Fundação Doutor Jesus quando eu não estiver mais aqui. Mas tem coisa que estou orando para ele mudar. João já está no segundo casamento aos 26 anos. Eu estou casado com a mesma mulher há quase quarenta. Para mim isso não é certo. É sinal de uma quebra de tradição.”

Por volta das 11 horas da manhã seguinte, 31 de janeiro, chegaram os magistrados. O presidente da Associação dos Magistrados da Bahia, Freddy Pitta Lima, o desembargador Abelardo Matta e os juízes Jonny Maikel e Anderson Bastos. Os juízes conheceram as instalações. Tudo estava no lugar, assim como no dia anterior, exceto por uma mudança: um dia antes ninguém usava a piscina, o salão de jogos e as quadras. Naquela manhã, porém, os arcanjos organizaram tudo para que houvesse atividade em cada ponto da instituição. Os meninos na piscina, jogando capoeira nas quadras poliesportivas, tocando instrumentos musicais. Tudo funcionando ao mesmo tempo. Como num comercial institucional da fundação.

Diferentemente do dia anterior, as mulheres usavam os espaços de lazer, mas foi só os magistrados passarem por elas que logo o bate-bola das meninas foi suspenso. O interno badalou a sineta, homens e mulheres se perfilaram rapidamente na entrada da instituição, agora sob o comando do sargento Isidório – vestindo seu traje cáqui completo, com o quepe militar.

Tudo debaixo de um sol implacável. “Apresentaaaar armas!”, ordenava Isidório ao microfone. “Jesus!”, respondia o exército de internos, batendo continência.

“Fundação Doutor Jesus, olhar à esquerda!” Os garotos respondiam ao comando de Isidório. “Direita, volver!”

Isidório e os juízes passaram diante dos garotos acanhados de roupas rotas e chinelos gastos e os velhos com rosto cansado. O pastor-sargento os olhava como se os passasse em revista. “Fundação! Esquerda, volver. Direita, volver!”

Terminada a cerimônia, o pastor seguiu para o altar. Microfone em punho. Os magistrados sentados atrás dele, enfileirados. Os internos lotando o galpão aberto. Isidório tirou o traje de gala e se apresentava agora na roupa que mais lhe caía confortável: bermuda, camiseta, descalço. Começava seu show.

“Há quanto tempo você queima a tarraqueta?”, perguntou para um rapaz que sentava-se diante do púlpito e formava junto de outros um grupo de internos recém-chegados. “Nunca”, disse o homem. Isidório soltou uma risada com afetação homossexual. Se aproximou de um outro recém-internado com os cabelos pintados de vermelho. “Olha esse cabelo vermelho. Hummm!”

Risadas na plateia. O magistrado mais jovem dos quatro também soltava sonoras gargalhadas diante da performance de Isidório. O pastor ainda cantou, dançou, deu piruetas, rebolou. Por inúmeras vezes fez imitações caricatas de gays e lésbicas.

 

Dez homens que haviam acabado de chegar à fundação para receber o tratamento anticrack sentavam em cadeiras diante de Isidório. Observavam as estripulias do pastor no altar entre o riso e o espanto. Seus olhos se arregalaram particularmente quando o pastor lhes apresentou seus “assessores”.

A primeira foi a missionária Teresa, a mais antiga aliada de Isidório: um pedaço de pau de quase um metro. O religioso simulava acertar com Teresa na cabeça de alguém gesticulando com violência. “Essa daqui é para a galera que gosta de mostrar o dedo para o pastor Isidório, para quem me enfrenta, me manda tomar no fiofó. Aqui ó, vai apanhar”, dizia, balançando o bastão no ar, em tom ameaçador. Depois ele mostrou ao resto da turma dois bastões chamados “pastor Pedro” e “bispo Abraão”.

Ele passa a dizer, em tom ameaçador: “Para quem chega e se faz de doido, querendo bater, dizendo: ‘Vamos ficar aqui sem mulher, cadê as mulheres?’ Olha…”, Isidório pega um facão enorme e grita: “Olha aqui sua psicóloga!” Longe dos internos, o pastor disse nunca ter usado os instrumentos contra eles. Servem para coação psicológica. “Muitos deles chegam aqui alucinados de droga. Eu preciso botar algum medo neles.”

Ele também abençoou os internos recém-chegados. Chamou-os ao altar. Apertou suas mãos e os abraçou. Depois ajoelhou diante dos pés de cada um.

Isidório agradeceu repetidamente a presença dos juízes e entregou um diploma de “embaixadores” da fundação. Os magistrados disseram que o pastor poderia “contar com o apoio deles”. O homem mulato de pés descalços era reverenciado. Era hora do almoço. O sineiro badalou. Os internos da Fundação Doutor Jesus correram em disparada para comer.

 

 

Foi Rui Costa quem incentivou Isidório a se candidatar a deputado federal este ano, segundo o pastor. “Ele me disse: ‘Rapaz, se você for deputado federal pela Bahia terá 18 milhões de reais do orçamento impositivo para investir no tratamento de dependentes químicos’”, afirmou Isidório, referindo-se à Emenda Constitucional 86, que determina que o Poder Executivo execute emendas parlamentares ao orçamento até o limite de 1,2% da receita do ano anterior.

“Eu paro de receber dinheiro do governo da Bahia como faço hoje, e passo a repassar dinheiro para projetos que ajudem o estado. Quero ajudar outros pastores com trabalho parecido com o meu, de recuperação de usuários de drogas.”

Isidório disse que caso vá para Brasília, não vai fazer diferente do que faz em âmbito estadual. Não se submeterá à decisão do partido para fazer suas escolhas. Isidório encarna o atual espírito apolítico. Disse odiar e não confiar em partidos políticos. “Esse modelo presidencialista é o modelo da desgraça. É negociata pura entre os partidos.”

Mas é esse o sistema ao qual o senhor vai ter que se submeter, certo? “Nesse sistema eu não entro. Se Deus e o povo me botarem lá, eu vou entrar, mas que desgraça vai acontecer eu não sei.”

Tiago Coelho (siga @tiagocoelh no Twitter)

Tiago Coelho é repórter da piauí e roteirista

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