colunistas

A importância de contar

Documentário sobre os yanomami permite refletir sobre predadores

Eduardo Escorel
14jul2021_09h04

Ao rever agora o filme A Última Floresta (já comentado aqui), três meses após ter assistido à exibição online do documentário de Luiz Bolognesi no encerramento do Festival É Tudo Verdade, fui surpreendido pela afirmação do xamã Davi Kopenawa Yanomami, da qual não me lembrava – “[…] temos que contar para os outros como era diferente no passado.” Mas narrar o quê?

No caso específico dos habitantes da aldeia Watoriki, situada em área protegida da Floresta Amazônica, próxima à serra do Vento, na região do Rio Demini, em Roraima, trata-se de relatar que “[…] rio acima, onde eles [os garimpeiros] trabalharam, o igarapé já secou. O rio virou barro. Este rio pode ficar assim também – lá para cima está tudo seco. Se você seguir o rio, der toda a volta, por todos os lugares eles garimparam. Tudo seco… Se garimpeiros chegarem aqui de surpresa, se descerem de helicóptero, derem presentes, espingardas… Não aceitem! Espingarda não alimenta! Se aceitarem presentes, cartucho, espoleta, pólvora, chumbo, vamos acabar todos doentes. O mercúrio faz a cabeça doer pelo resto da vida. Temos de ficar de olho.”

Além de expulsar um pequeno grupo de invasores, como guerreiros yanomami fazem, armados de arco e flecha, com seus corpos pintados de preto, em uma cena, é imprescindível difundir experiências vividas, missão à qual Kopenawa se dedica, indo inclusive à Universidade de Harvard “ensinar alguma coisa”, conforme se vê próximo ao final de A Última Floresta.

Aos sete minutos do filme, ele diz em off com a imagem enevoada do amanhecer, segue in diante da câmera, e termina outra vez em off, com dois planos de um jovem e dele nas suas redes, iluminados pelas chamas da fogueira: “Os brancos não nos conhecem. Seus olhos nunca nos viram. Seus ouvidos não entendem nossas falas. Por isso é preciso ir lá? Fazer o que na terra dos brancos? Não devemos ter medo. Eles não conhecem os yanomami de perto. Não quero ir lá para levar comida de festa, nem dança folclórica. Por sermos filhos de Omama [demiurgo que, junto com a filha do monstro aquático Tëpërësiki, deu origem aos yanomami], os últimos filhos da floresta, precisamos lutar para nossas crianças nascerem saudáveis e nossas filhas crescerem e virarem moças. Preciso ensinar o nosso pensamento para eles.” Para Kopenawa não se trata, portanto, apenas de contar, mas também de estar em estado de alerta, além de uma forma de luta e de ensino.

Cena de ‘A Última Floresta’ – Foto: Pedro J. Márquez

 

Ao fazer A Última Floresta, Bolognesi se associa a essa tarefa que assume como sua, após ter convidado o xamã yanomami para ser corroteirista e ouvir dele que não gostava de seu filme anterior, Ex-pajé (2018), porque “o xamã está fraco e quem está forte é o pastor evangélico” (conforme depoimento publicado neste site). Kopenawa disse querer “mostrar o povo yanomami forte, morando na floresta, com os nossos xapiri (espíritos da floresta) vivos. Quero um filme bonito, que viaje pelo mundo. Porque vocês, o povo da mercadoria, estão doentes. Vocês destroem os rios, as florestas, os animais. Vocês, brancos, precisam ouvir o que nós, os yanomami, temos a dizer.” 

O cineasta urbanoide branco muda, então, de perspectiva, atenuando seu habitual viés crítico. Adota orientação positiva para o relato em voz off e grava lindas imagens, algumas suscitadas por outra proposta de Kopenawa. Ele disse: “Luiz, cinema é sonho, né? Então você tem que ir à minha aldeia e dormir umas noites lá. Temos que falar dos nossos sonhos para encontrarmos juntos essas histórias.”

No filme, a importância e o efeito propiciador dos sonhos ficam claros e definem o caráter híbrido de A Última Floresta, que entrelaça com destreza registros verdadeiramente documentais com eventos do cotidiano vividos deliberadamente diante da câmera para serem registrados e encenações do mito de origem.

À noite, pai, mãe e filhos pequenos estão deitados nas redes, seus rostos iluminados pela pequena fogueira. A voz em off de Kopenawa comenta: “Aqui na floresta é escuro, as pessoas dormem logo, já que tudo fica quieto. Não tem carros, luzes, e se dorme bem. Quando você sonha, você organiza o seu pensamento. O que será que eu sonhei? Hoje vou dormir com fome, então, talvez eu sonhe. Vou dormir no fogo. Sou a floresta de verdade. Eu sou a própria floresta, quente… É fogo sobrenatural. O espírito Thorumari [‘uma grande estrela que caiu do céu’, segundo nota em A Queda do Céu, de Kopenawa e Bruce Albert]. Trouxe o verão e ficou.”

A jornada de Bolognesi o levou a se “entregar ao desconhecido”, nas suas próprias palavras. “Como meu objetivo era fazer um filme o mais indígena possível, fui perdendo o controle de forma consciente, primeiro da dramaturgia e depois da direção.” Foram os homens mais velhos e os guerreiros da aldeia, reunidos por Kopenawa, “que foram decidindo que histórias iríamos contar. Foram eles que resolveram incluir o mito dos gêmeos Omama e Yoasi, os deuses criadores do povo yanomami. Pensei: ‘Caramba, vou ter que contar uma história mitológica num documentário sem dinheiro. Como vai ser isso?’ Não tinha a mínima ideia.”

Para fazer um filme “o mais indígena possível”, o realizador teria que refrear sua própria personalidade – tarefa impraticável, salvo se abrisse mão de dirigir o filme, o que não ocorreu. Lembrando que o poder supremo, especialmente em um documentário, está nas mãos de quem toma as decisões finais na montagem, tarefa a cargo, no caso, de Bolognesi e do montador Ricardo Farias.

O trajeto de alto risco percorrido na realização de A Última Floresta chegou a bom termo, atendendo à expectativa de Kopenawa de ser “bonito” e viajar “pelo mundo”. Em junho, foi ovacionado na 71ª Berlinale e recebeu o Prêmio do Público da mostra Panorama do festival. A estreia em cinemas, no Brasil, está prevista para setembro, e o lançamento em plataforma de streaming ocorrerá no mês seguinte.

Além da importância que Kopenawa atribui ao ato de contar, que andei relativizando em colunas anteriores a respeito do cinema brasileiro, ao rever A Última Floresta me ocorreu a possibilidade de fazer uma analogia entre a ameaça representada por predadores de vários matizes – garimpeiros, comerciantes de madeira, criadores de gado etc. –, e blockbusters que ocupam periodicamente o circuito de salas de cinema do nosso mercado exibidor, por menos equivalentes que sejam, de fato, a violência dos predadores e a ocupação das salas.

Segundo manchete da matéria publicada no Segundo Caderno de O Globo, em 7 de julho, junho foi “o melhor mês do cinema desde o início da pandemia”. É mesmo? Eu não notei.

Baseado em dados da plataforma Filme B, o texto informa que estaria havendo uma retomada, perceptível na venda de 3,7 milhões de ingressos, em junho, correspondendo à renda total de 63,1 milhões de reais, embora esses índices correspondam, na verdade, a apenas 28% da renda obtida no mesmo mês em 2019. Dois títulos – Invocação do Mal 3 e Velozes e Furiosos 9 – respondem pela maior parte dessa receita. O presidente da Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas e a mídia festejam: “Com certeza o pior já passou. Acredito que a retomada seja definitiva, principalmente devido ao avanço das vacinas no país.” Com cerca de 25,7% das salas ainda fechadas, um golpe no horizonte, o progresso lento da vacinação e a variante Delta rondando, parece temerário celebrar. Ainda mais por se tratar de fenômeno restrito à aliança tradicional de exibidores e distribuidores que comercializam principalmente produções importadas e, em muitos casos, representam interesses de empresas estrangeiras. Nessa equação, exibidores dependem dos distribuidores estrangeiros para abastecer suas salas e sobra pouco espaço para o cinema brasileiro se apresentar e ter motivo para promover celebrações.

A disparidade entre, de um lado, A Última Floresta e, de outro, Invocação do Mal 3 e Velozes e Furiosos 9, entre tantos blockbusters semelhantes, é gritante e dispensa maiores esclarecimentos. Apesar de todos os três serem filmes, eles têm naturezas substancialmente diversas. O filme de Bolognesi é ancorado no mundo concreto, transmite com habilidade uma experiência humana palpável, além de se propor a lutar em defesa de uma causa, sem ser militante, e a ensinar ignaros, sem ser didático. Mesmo sem ter assistido aos outros dois, arrisco dizer que ambos atendem com imenso sucesso comercial à demanda de um amplo público de cinema ávido por fantasias desabridas de terror ou de ação. Invocação do Mal 3 rendeu 175 milhões de dólares, enquanto Velozes e Furiosos 9 ultrapassou 541 milhões de dólares, no circuito mundial, desde suas respectivas estreias, no Brasil, em 3 e 24 de junho, um dia antes dos lançamentos nos Estados Unidos. Invocação do Mal 3 teve orçamento de produção de 39 milhões de dólares, e Velozes e Furiosos 9 teria custado entre 200 e 225 milhões de dólares. Será preciso acrescentar algo mais para atestar que A Última Floresta, “um documentário sem dinheiro”, segundo Bolognesi, não tem meios de competir em igualdade de condições com os demais, pois pertencem a galáxias diferentes. O âmbito do filme brasileiro requer imperiosa e urgente necessidade de medidas legais de proteção e incentivo para assegurar a preservação do patrimônio depositado na Cinemateca Brasileira e a sobrevivência no país de produção audiovisual independente dedicada a contar histórias inteligentes. Mãos à obra.

*

Dia 18 de julho, domingo, como sempre às 11 horas, Piero Sbragia, Vanessa Oliveira e este colunista conversam com Luiz Bolognesi no programa #DomingoAoVivo do canal de YouTube 3 Em Cena.

O acesso à conversa com Bolognesi no programa #DomingoAoVivo pode ser feito através do link https://youtu.be/qcIFze5ZUeY .

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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