questões de mídia e política

“Imprecionante” e Enem explodem Weintraub

Após fiascos, referências ao ministro da Educação têm crescimento explosivo e fazem dele bolsonarista mais citado no Twitter em janeiro

Luigi Mazza
07fev2020_11h27
ILUSTRAÇÃO DE PAULA CARDOSO SOBRE FOTO DE PEDRO LADEIRA/FOLHAPRESS

“O melhor Enem de todos os tempos”, nas palavras do ministro da Educação, Abraham Weintraub, não foi tão bom assim. Nem para os milhares de estudantes afetados pelo erro de correção das provas, nem para o próprio ministro. A repercussão negativa dos equívocos cometidos pelo MEC dominou as redes sociais no primeiro mês do ano e fez explodir as menções a Weintraub. Ele foi citado 1,3 milhão de vezes no Twitter, na maior parte delas de forma negativa, e encabeçou a lista de bolsonaristas mais citados na rede. Ficou à frente de protagonistas do governo, como os filhos do presidente Bolsonaro e o ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sergio Moro. Os dados foram compilados pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (DAPP-FGV), que, a pedido da piauí, monitora as citações a políticos ligados ao governo no Twitter.

Foi o segundo maior número de menções a Weintraub desde maio do ano passado, quando foi o alvo principal dos protestos contra os cortes de verbas das universidades públicas. À época, houve manifestações em vários estados, e Weintraub obteve 1,4 milhão de citações – em sua maioria, negativas – no Twitter. Desde então, oscilou conforme a maré de polêmicas que ele mesmo criou. O ministro está entre os bolsonaristas mais lembrados na rede social desde novembro, quando denunciou a suposta existência de “plantações extensivas de maconha” nas instituições de ensino superior do país.

Mais recentemente, Weintraub ganhou evidência com as notícias que dão conta de que ele já está com um pé para fora da Esplanada. O fiasco do Enem e a demissão de vários assessores ligados ao ministro endossaram esses rumores, até agora negados por Bolsonaro. De quebra, Weintraub viralizou nos primeiros dias do ano depois de publicar um tuíte em que trocava “impressionante” por “imprecionante”. Ele apagou a postagem pouco depois, o que não impediu que a hashtag com seu erro de grafia circulasse bastante.

 

O ministro virou objeto de um cabo de guerra no Twitter. Seus detratores alavancaram hashtags como #ForaWeintraub, enquanto seus apoiadores tuitavam #FicaWeintraub. Nos últimos dias, a batalha cresceu depois que um grupo de deputados foi ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedir o impeachment do ministro, alegando que suas atitudes são “incompatíveis com decoro, honra e dignidade da função”. Em resposta, figuras ligadas ao governo – como Eduardo e Flavio Bolsonaro – saíram em defesa de Weintraub, e a hashtag #JuntosComWeintraub alcançou os trending topics. No fim das contas, ao que tudo indica, o ministro saiu da crise mais forte do que entrou.



Ao menos em janeiro, no entanto, a batalha de tuítes não foi nada favorável a Weintraub. De todas as postagens que citavam o ministro, mais de 70% eram críticas a ele, segundo a análise feita pela DAPP. Na Esplanada de Bolsonaro, Weintraub é, neste momento, a figura que mais concentra a rejeição ao governo. E se esforça para isso. Quando faz suas provocações à esquerda e à imprensa ou posta vídeos performáticos, zombando de quem o critica, o ministro engaja a oposição em torno de seu nome e dispara em número de menções.

Outra figura que disputa com Weintraub o posto de “polo negativo” do governo é o senador Flavio Bolsonaro, filho mais velho do presidente. Ele foi o segundo bolsonarista mais citado no Twitter em janeiro, com 904 mil menções. Isso se explica, em parte, como rescaldo da explosão de menções a Flavio motivada pela investigação do caso Queiroz, em dezembro. Mas, em boa medida, o que mantém Flavio na boca dos tuiteiros é o fato de que ele se tornou uma espécie de coringa para críticas ao governo. Seu nome – e muitas vezes o de Queiroz – é trazido à tona pelos tuiteiros sempre que algo de negativo acontece no entorno de Bolsonaro. Quando o assunto é corrupção, falam de Flavio; quando é Sergio Moro, chefe da Polícia Federal que investigou o filho do presidente, idem.

Tanto Weintraub quanto Flavio conseguiram se sobressair em um mês marcado pela exoneração do secretário da Cultura, Roberto Alvim, depois que ele gravou um vídeo repleto de referências ao nazismo. No Twitter, Alvim saltou de um quase anonimato em dezembro para cerca de 555 mil menções em janeiro. Foi o sexto bolsonarista mais citado. Sua sucessora, Regina Duarte, ficou em oitavo lugar, com 377 mil menções.

O ministro Sergio Moro liderou o ranking de bolsonaristas mais citados em 2019 de forma quase ininterrupta. Protagonista das pautas de segurança pública e combate à corrupção, ele consegue manter um engajamento espontâneo nas redes sociais e tem um patamar alto de menções mesmo quando não se envolve em polêmicas. De janeiro a janeiro, o ex-juiz foi mencionado mais de 35 milhões de vezes no Twitter, equivalente ao que tiveram, somados, Flavio, Carlos e Eduardo Bolsonaro.

Nos últimos meses, porém, Moro vem encolhendo de tamanho. Em janeiro deste ano, foi citado 776 mil vezes pelos tuiteiros. Não é pouca coisa, se comparado a outros membros do governo (Paulo Guedes, por exemplo, teve a metade disso), mas é um declive relevante, dado seu histórico. Nem a entrevista que deu ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em janeiro, serviu para reverter o cenário. Esse foi o menor número de menções que o Moro teve desde janeiro do ano passado, quando a DAPP passou a monitorar o desempenho dos influenciadores bolsonaristas no Twitter. Na ocasião, ele foi citado 671 mil vezes.

 

As razões para essa queda são difusas. Desde julho, Moro perdeu espaço no debate público devido ao esfriamento do escândalo sobre as conversas vazadas da Lava Jato, reveladas pelo site The Intercept Brasil. No final do ano passado, ele se estabilizou num patamar igual ao que tinha antes da revelação dos diálogos. Agora, nem isso. As polêmicas envolvendo Weintraub e Alvim também não deixaram muito espaço para Moro nas redes.

O Twitter, em muitos aspectos, funciona como um termômetro das movimentações políticas de Brasília. E um dos indicativos que ele deu nos últimos meses de 2019 foi a perda de relevância da pauta econômica para o engajamento do governo. Houve, na verdade, uma transferência: a responsabilidade pelas reformas saiu das mãos de Paulo Guedes e passou para as de Rodrigo Maia, presidente da Câmara. O protagonismo de Maia, evidente no noticiário, se reflete nas redes: de janeiro a janeiro, ele foi citado 9,5 milhões de vezes. Quase empatou com Carlos Bolsonaro (9,9 milhões) e ficou bem à frente de Guedes (6,5 milhões).

 

Além de trazer para si o compromisso com a economia, Maia se tornou um importante agente de “moderação” do bolsonarismo. Essa postura faz com que ele ganhe a simpatia – e os retuítes – da oposição, assim como os ataques de apoiadores do governo. Por isso, está sempre em evidência. Numa conversa com jornalistas, no final de janeiro, ele disse que Weintraub é um “desastre” que “atrapalha o futuro de milhões de crianças”. Pouco antes disso, afirmara que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, perdera as condições de ser interlocutor. “Acho que ele radicalizou demais”, afirmou Maia, num evento em São Paulo.

O espaço que o presidente da Câmara ganhou é o que Guedes perdeu. O ministro da Economia, embora esteja à frente da maior parte das reformas econômicas previstas para este ano, vem perdendo espaço na agenda do governo Bolsonaro. O mesmo acontece com o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, que se tornou uma espécie de Posto Ipiranga número dois, mas entrou em trajetória de queda nos últimos meses. Os dois ministros são símbolos da pauta econômica e, juntos, não têm o alcance de um Maia.

Luigi Mazza (siga @LuigiMazzza no Twitter)

Repórter da piauí, produtor da rádio piauí e diretor do podcast Foro de Teresina

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