colunistas

Indiferença e expectativa: dilemas do tempo presente

Defesa da Cinemateca Brasileira exige destemor à altura do desastre anunciado no audiovisual

Eduardo Escorel
10jun2020_09h16

O cinema é o entretenimento do qual sentem mais falta 90% das 8.179 pessoas entrevistadas, de acordo com pesquisa realizada entre 4 e 11 de maio, divulgada há uma semana (4/6) – cinema, nesse caso, inclui as salas do circuito exibidor atualmente fechadas. Para 85% de quem opinou, a expectativa pela reabertura dos locais públicos de exibição em tela grande supera a vontade de frequentar de novo bares e restaurantes, atividades ao ar livre, shows, eventos esportivos e teatros.

Surpreendente à primeira vista, o viés desses dois indicadores fica evidente sabendo-se que a pesquisa foi encomendada por uma empresa proprietária de um aplicativo de venda de ingressos que tomou por base seus próprios clientes relacionados em uma lista de e-mails. É difícil acreditar que uma amostra como essa possa ser representativa do conjunto de frequentadores habituais de cinema, pois é formada por segmento do público de poder aquisitivo alto, sem razão para ser nostálgico ou se queixar da falta de entretenimento, oferecido a domicílio em grande quantidade pelas plataformas de streaming

Ademais, quem se dispõe desde já a ir ao cinema quando forem reabertos, enquanto persistir o aumento diário do número de contaminados e mortos, vítimas da Covid-19? Isso, mesmo quando tiver sido definido o protocolo das salas, em termos que assegurem a higienização do espaço e permitam respeitar o distanciamento dos demais espectadores. Serão bloqueados ou retirados lugares de modo a garantir que todos fiquem à distância regulamentar uns dos outros?

Esses fatores sugerem que a volta aos cinemas vai demorar no Brasil. Havendo ainda perspectiva de aumento expressivo do preço do ingresso para compensar a redução da oferta de lugares, restringindo ainda mais o mercado exibidor aos blockbusters, conforme já vinha ocorrendo antes da pandemia.



Para se ter ideia do grau de pressão para reabrir as salas de cinema que deve estar sendo feito, basta conferir os dados do Statista, portal on-line segundo o qual houve queda de 7 bilhões de dólares de receita na indústria cinematográfica mundial, até meados de março, e a expectativa de perda adicional de 10 bilhões de dólares, em abril e maio, causadas pelo fechamento das salas de cinema.

Há uma vertente de filmes, porém, para os quais as condições de existência pós-pandemia sugerem tempos ainda menos favoráveis do que os usuais. São produções nacionais, como a brasileira, pouco ou menos afeitas ao entretenimento de massa. É a esses produtores e diretores independentes, assim como aos atores, técnicos e às pequenas empresas prestadoras de serviço que integram as equipes e participam da realização desses filmes que as atenções deveriam estar voltadas neste momento.

É esse grupo de profissionais que, apesar das dificuldades pessoais que vem enfrentando, demonstra ter energia para se mobilizar em defesa da Cinemateca Brasileira (CB), ameaçada de extinção, e se revolta com a inércia dos governos federal, estaduais e municipais, assim como do Poder Legislativo, incapazes até agora, passados três meses de pandemia no país, de tomar medidas substantivas para atender as necessidades das mulheres e homens do setor. Nesse sentido, a chamada Lei Aldir Blanc, aprovada pela Câmara e pelo Senado, mas pendente ainda de sanção presidencial, é providência meritória que poderá apoiar trabalhadores da cultura, espaços culturais, micro e pequenas empresas do setor, cooperativas e instituições.

No caso da CB, cujos funcionários e prestadores de serviço estão sem receber salários e pagamentos desde abril, foi lançada campanha pública de apoio para a qual é possível contribuir acessando o link.  É uma iniciativa modesta, mas sendo bem-sucedida irá minorar um dos aspectos emergenciais da crise em que a instituição se encontra.

 

Roberto Gervitz e Ícaro Martins em manifestação diante da sede da Cinemateca Brasileira no dia 4 de junho / Foto: Piero Sbragia

 

A petição Cinemateca Pede Socorro, por sua vez, atualmente com mais de 16,8 mil assinaturas, e o manifesto Cinemateca Brasileira Patrimônio da Sociedade, assinado afinal por 42 entidades profissionais brasileiras e 36 estrangeiras, apresentam com clareza a dimensão da ameaça que paira sobre a CB, pondo em risco o patrimônio audiovisual brasileiro. Não está afastado o risco de se repetir a tragédia que destruiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro, em setembro de 2018. A leitura do manifesto Cinemateca Brasileira Patrimônio da Sociedade diante da sede da instituição, na Vila Clementino, em São Paulo, feita na quinta-feira passada (4/6) diante de um pequeno grupo de pessoas usando máscaras e mantendo distância entre si, foi um ato de destemor à altura do desastre anunciado que poderá ocorrer e será responsabilidade dos governantes nas esferas federal, estadual e municipal.

Manifestação diante da sede da Cinemateca Brasileira no dia 4 de junho / Foto: Piero Sbragia

 

No dia da manifestação em frente à sede da CB, o número de mortos e de contagiados no Brasil chegou a 34.021 e 614.941, respectivamente. Setenta e duas horas depois havia chegado a 36.455 e 691.758. E na segunda-feira (8/6) atingiu 37.312 e 710.887, segundo o consórcio de veículos de imprensa.O crescimento veloz levou, primeiro, ao atraso na divulgação dos dados oficiais pelo Ministério da Saúde, na tentativa de evitar que continuassem a ser anunciados no Jornal Nacional, seguido da supressão desses números totais do boletim diário do ministério, além de ter sido anunciada a intenção de recontar os contaminados e as vítimas fatais da Covid-19. Alegou-se a princípio, de modo irresponsável, que os dados estatísticos seriam “manipulados e fantasiosos”. Conforme vozes autorizadas informam, no entanto, a probabilidade maior é, pelo contrário, que os indicadores estejam subnotificados.

Tentar desconhecer a calamidade humanitária em curso no país foi, desde o início, a postura do morador provisório do Palácio da Alvorada. Agrega-se agora o propósito de tornar as vítimas fatais e os contaminados invisíveis, atitude coerente com um dos modos preferenciais de desgovernar do atual ocupante do gabinete no terceiro andar do Palácio do Planalto – asfixiar setores subordinados ao Estado, de modo lento e seguro, por meio da ausência total de atuação nessas áreas.

Se bazófia e insolência são modos usuais de se manifestar na postura de confronto adotada em Brasília pelo presidente da República, no caso da cultura e do cinema em particular, omissão e trapalhadas têm prevalecido. O resultado, fruto de a atividade cinematográfica ser dependente crônica do Estado, é a paralisia do setor, agravada pela pandemia, com os prejuízos e o desemprego decorrentes. Em face do impacto causado pela calamidade que atingiu o país, medidas excepcionais já deveriam ter sido tomadas há muito tempo, de modo a garantir, por exemplo, condições adequadas de funcionamento à Cinemateca Brasileira, assim como às demais atividades do setor que estão em crise. Mas falta capacidade intelectual, vontade política, sensibilidade humana e eficiência burocrática por parte do governo para saber identificar prioridades neste período excepcional que estamos atravessando.

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Bebeto Abrantes, diretor com Cavi Borges do filme-processo Me Cuidem-Se!, respondeu na sexta-feira (5/6), às 8h13min, pelo WhatsApp, a um breve comentário feito mais cedo sobre a Parte 5 lançada na véspera, dizendo que “desde o lançamento da Parte 1 percebemos que os personagens são afetados tanto pela pandemia, quanto pelo pandemônio social e político. Aqui, no patropi, esse binômio pandemia/pandemônio é indissociável. Assim, nas cinco partes lançadas há sempre alguma coisa, algum episódio relacionado ao morador do Planalto e sua equipe. O bizarro, preocupante e paradoxal é que agora, com a radicalização política e as manifestações, esses extremos – quarentena e/ou ir para as ruas – estão se fundindo e cindindo por dentro e por fora nossos personagens, e a nós também: heroísmo e bravura ou irresponsabilidade e descontrole? Por isso, terminamos esse episódio com as manifestações anti-racistas/RJ e pela defesa da Democracia/SP. A primeira foi gravada pelo Amaury, personagem do Sta. Marta, e a segunda é arquivo tirado da web. Abraço”. 

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O Quarentena Online Film Festival anunciou sua premiação em 30 de maio. O Júri Popular, formado por cerca de 2.500 votantes, premiou três filmes. O mais votado foi Solilóquio, seguido de Aqui Dentro É Só Saudade e Tormenta. Solilóquio recebeu também o prêmio Stay At Home. Além desses, vários outros filmes foram premiados em diversas categorias. A relação dos classificados como “melhores” e “premiados” está disponível nos links: https://www.youtube.com/watch?v=z-3-WoQmjEI&t e https://www.youtube.com/watch?v=ZWHT8drWkec&t . E os filmes podem ser vistos em https://www.youtube.com/channel/UCG6MFJyI8dsZsARMY_irvLw/videos .

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Le Fantôme de Robinson Crusoé – Spectacle de Lanterne Magique (2015), de Patrice Guérin; Films de Paul Nadar (1896-1898), de Paul Nadar; The Half-Breed (1916) e The Good Bad Man (1916), ambos de Allan Dwan, destacam-se entre as novidades da semana disponíveis na plataforma de streaming gratuito da Cinemateca Francesa.

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 Nota: Coluna atualizada em 25 de junho de 2020. Foram eliminadas as indicações dos links de acesso ao filme Me Cuidem-se!, a pedido de seus diretores, uma vez que as cinco partes editadas deixaram de estar disponíveis no Vimeo.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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