questões cinematográficas

Isto não será um filme

A notícia de que Sulaiman Abu Ghaith, genro de Osama bin Laden, alegou inocência ao ser informado, em uma corte federal em Manhattan, da acusação de que conspirou para matar americanos, sugere imaginar como poderia ser um filme americano que algum dia fosse feito inspirado nesse fato, conforme foi noticiado sexta-feira (8/3/2013).

Essa especulação poderia seguir pelo menos dois rumos divergentes.

Eduardo Escorel
11mar2013_17h59
Argo
Argo CO

A notícia de que Sulaiman Abu Ghaith, genro de Osama bin Laden, alegou inocência ao ser informado, em uma corte federal em Manhattan, da acusação de que conspirou para matar americanos, sugere imaginar como poderia ser um filme americano que algum dia fosse feito inspirado nesse fato, conforme foi noticiado sexta-feira (8/3/2013).

Essa especulação poderia seguir pelo menos dois rumos divergentes. O primeiro, terminaria com o Oscar de melhor filme do ano. O outro, na melhor das hipóteses, com algumas indicações, mas talvez nem isso, dependendo do grau de realismo que houver disposição e coragem de atingir, e for considerado admissível por Hollywood.

Não é difícil saber como seria a hipótese premiada – basta assistir a . A segunda alternativa, mais interessante mas não tão fácil de imaginar, pode ser vislumbrada lendo a notícia publicada no New York Times e, em especial, vendo a entrevista em vídeo do correspondente de segurança nacional do jornal que acompanha a matéria. O que chama atenção e serviria para fazer um filme que poderia ter grande interesse são as circunstâncias relacionados à prisão e transferência para os Estados Unidos de Sulaiman Abu Ghaith que continuam indeterminadas e por esclarecer.

Pode parecer ingênuo supor que um filme como esse possa vir a ser produzido em Hollywood. Um filme no qual não se saiba todos os fatos, no qual não seja dada explicação clara para tudo que acontece, no qual nem tudo tenha causa definida etc.

Ainda assim, o verdadeiro interesse da história de Sulaiman Abu Ghaith não estaria, em certa medida, justamente na imprecisão que até o momento transparece da notícia sobre sua prisão e transferência para os Estados Unidos, publicada também no Globo, no mesmo dia?

Os autores do artigo não deixam de assinalar o simbolismo, que as duas versões cinematográficas certamente também incluiriam, de Sulaiman Abu Ghaith ter comparecido a uma corte federal, em Manhattan, a apenas alguns quarteirões do local onde ficavam as Torres Gêmeas.

Segundo a matéria do New York Times, na manhã seguinte a 11 de setembro de 2001, Sulaiman Abu Ghaith apareceu com Osama bin Laden e Ayman al-Zawahri, na época substituto e agora sucessor de Bin Laden. Em um discurso feito depois advertiu que “as tempestades não cessarão, especialmente a tempestade dos aviões” e avisou muçulmanos, crianças e oponentes dos Estados Unidos “a não embarcarem em nenhum avião e a não viverem em andares altos.”

Ainda de acordo com a matéria, colocado sob custódia de autoridades americanas por volta de meia-noite de 28 de fevereiro, Sulaiman Abu Ghaith, que foi porta-voz da al-Qaeda, chegou aos Estados Unidos no dia seguinte, por volta de meio-dia e meia.

Ele teria passado os últimos dez anos no Irã, e sido detido inicialmente na Turquia, enquanto estava hospedado num hotel da capital, provavelmente graças a informação dada pelos Estados Unidos às autoridades turcas. Como os turcos não queriam entregá-lo diretamente aos americanos, temendo alguma represália da al-Qaeda, aparentemente o que aconteceu foi que o deportaram para o Kuwait, seu país natal, e numa escala na Jordânia teria sido entregue à custódia americana. Possivelmente com conhecimento dos turcos e a cumplicidade dos jordanianos.

O uso de itálico no parágrafo anterior serve para indicar o que pode ou não ter ocorrido conforme descrito. E a questão que se coloca é o que impede o cinema americano de fazer um filme que incorpore conjecturas como essas. Afinal, o interesse não está tanto no que se sabe quanto no que se supõe ter ocorrido?



Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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