questões cinematográficas

Jean-Luc Godard – um seguidor fiel

Recebi de Armando Freitas Filho, godardiano confesso, o email transcrito a seguir, em que ele comenta o texto publicado na piauí deste mês sobre o documentário “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague”. 

Eduardo Escorel
18jun2010_11h22

Recebi de Armando Freitas Filho, godardiano confesso, o email transcrito a seguir, em que ele comenta o texto publicado na piauí deste mês sobre o documentário “Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague”.

*

From: armando freitas filho
Date: Sun, 13 Jun 2010 17:51:46 -0300
To: Eduardo Escorel
Subject: GODARD AGAIN AND EVER

Esperei para ler sua apreciação depois de ver o filme. Afinal, não custa nem que seja por duas horas apenas, ser um “puro” como Jean-Luc, para o bem e para o mal. Um suíço que só acredita no seu relógio e o fabrica a vida inteira. Mesmo que seja um suíço sui generis, que dá uma martelada em cada Pateck, para o fazer de novo, novamente, um novo. Sua resenha está boa e fiel ao que se vê na tela. Entrei no cinema decidido: vou tentar não ler as legendas, tão sequioso eu estava pelas imagens nunca vistas de Jean Luc. Não deu muito certo: vou ter que comprar o DVD para ter em casa. Perdi nos dois campos: saí do cinema exausto, fiquei até sonolento no meio do filme, não achei o pão seco que levo no bolso sempre que vou assistir um filme desde o advento das pipocas: foi parar debaixo da cadeira e só quando a luz acendeu o recuperei. Brigas como essas (Sartre x Camus, Carlos Drummond x João Cabral, Mario x Oswald, Jean Luc x Truffaut) que nascem de um amor profundo e de uma vigilância do outro ou pelo outro apaixonada, não podem permitir perdão. Se ele não é como eu, se ele é como jamais poderei ser, ele me deve, ao menos uma fidelidade… impossível. Aí, quando essa constatação se instala, o espelho perde o caixilho, deixa de ser especulação e trai, e quebra, e vira o vero retrato de Dorian Gray no nosso quarto irremediável, e que não pode ter reparação. É Godard, com sua cara de trabalho, com a barba por fazer como sempre, com um filme por fazer como sempre, com um incrível robe de chambre vermelho, chamuscado ou adamascado e rosto alucinógeno e François, bem posto, escanhoado, de jaqueta de couro fashion, ou antes, ao lado de Cocteau colaboracionista (ou quase) de smoking. Só não concordei com ‘mesquinharia e insolência’, compreendidos como fraquezas de caráter; elas são, para mim, as armas possíveis numa era de insolvência, na falta de outro nome. Sim, eu sou um dos poucos “fiéis que restam”. Mas do que isso: sou fanático mesmo. Se não pude ser como ele, entrelaçando obra e vida, com tamanha fé como um relojoeiro maluco, continuo aplaudindo e saindo pela rua embargado da mesma maneira que saí do Riviera nos anos 60, depois de ver “Acossado”, de um desconhecido, das duas às seis – única vez que vi um filme assim em duas sessões contínuas. A embriaguês foi tanta que fui num bar e pedi para telefonar: me veio um telefone preto pegajoso com gosto de alho e hálito de caverna. Disse então para um amigo: “acabei de ver um filme de um tal de Godard que vai desbancar Bergman e Antonioni”. Truffaut foi mais certeiro ou mais fanático: "há o cinema antes de Godard e depois de Godard". Se é assim, tudo lhe é devido mesmo. Grande  abraço. Armando.



Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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