diário da fronteira

“A jornalistas, oferecem dinheiro ou chumbo”

Repórter reconstitui assassinato do jornalista Léo Veras e lembra rotina de violência do narcotráfico na região

Cándido Figueredo Ruiz
19fev2020_11h59
Ilustração de Paula Cardoso sobre imagem do documentário Programa Tim Lopes/Abraji

O repórter Léo Veras foi o décimo jornalista assassinado na fronteira Brasil-Paraguai desde 1991. A pedido da piauí, um jornalista paraguaio – ele mesmo ameaçado de morte e sob escolta há quase 25 anos – narra o cotidiano de violência na fronteira dominada pelo narcotráfico.

 

12 de fevereiro de 2020 

O dia amanheceu com o calor natural desta época do ano na cidade paraguaia de Pedro Juan Caballero. Léo Veras acordou cedo, como de costume. Tomou seu café para em seguida programar o dia em busca de notícias, tanto em Pedro Juan Caballero como em Ponta Porã, cidade brasileira separada daquela apenas por uma avenida. Parecia um dia normal para Léo, mas o jornalista tinha uma preocupação que não comentara com ninguém e que só depois do seu assassinato veio a público: nos últimos dias, vinha recebendo renovadas ameaças dos narcotraficantes. 

Tenho 63 anos. Há 24 anos e oito meses vivo sob escolta policial por causa das minhas reportagens sobre a ação dos narcotraficantes na fronteira. Léo e eu costumávamos trocar informações sobre o narcotráfico na região. Naquele dia, nos comunicamos várias vezes via celular. Nosso último contato ocorreu às 17h30 do dia 12, que parecia que terminaria sem maiores sobressaltos. Léo encerrou sua jornada, voltou para casa e tomou um banho, enquanto Cinthia, sua esposa, preparava o jantar, que ambos compartilhariam com o filho de 13 anos e com o pai dela.

Léo sentou-se à mesa. Quando estavam começando a comer, de repente uma caminhonete branca parou em frente à casa e dela desceram três homens encapuzados, de arma na mão. Irromperam na sala e começaram a atirar. Léo percebeu o que estava acontecendo. Tentou sair correndo, mas foi perseguido pelos matadores, que o alvejaram pelas costas. Léo caiu ferido, e um dos pistoleiros se aproximou e o liquidou com um tiro de misericórdia na cabeça, para desespero de seus familiares, que nada puderam fazer em sua defesa. 

 

13 de fevereiro de 2020

Depois do assassinato de Léo Veras, fui ler os últimos artigos publicados, ainda antes de sua morte, em sua página digital PorãNews: tratavam da detenção de três membros do PCC no lado paraguaio e da apreensão de um grande arsenal de guerra da mesma organização criminosa, no lado brasileiro. Léo era incansável em investigar e publicar as atividades dos narcotraficantes nesta fronteira e sua ligação com políticos da região, que dão respaldo e carta branca aos criminosos do PCC e do Comando Vermelho. Essa atividade jornalística o levou à morte. Na fronteira, os narcotraficantes oferecem duas coisas a jornalistas: dinheiro ou chumbo. Léo se manteve fiel a seus princípios, nunca hesitou em publicar suas investigações e pagou caro por isso — com a própria vida.

A paraguaia Pedro Juan Caballero e sua vizinha brasileira Ponta Porã são cidades que, juntas, somam cerca de 210 mil habitantes, numa fronteira quase desconhecida para muitos, mas bastante visada e cobiçada pelos traficantes de drogas. É um ponto nevrálgico do comércio internacional de maconha e cocaína, cujo controle é disputado por membros do PCC e do CV numa guerra cotidiana. A região de Pedro Juan Caballero abriga as maiores plantações de maconha da América Latina e é corredor da cocaína proveniente da Bolívia, da Colômbia e do Peru em seu caminho para o Brasil, e dali para importantes cidades europeias.

 Não é a primeira vez que os traficantes matam jornalistas nesta fronteira. Com a morte de Léo Veras, já são dez os assassinados pela máfia do narcotráfico. Em 1991, o jornalista Santiago Leguizamón foi emboscado e fuzilado em plena linha fronteiriça entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã; em 1997, foi morto a tiros o radialista Calixto Mendoza; em 2000 foi a vez de Benito Ramón Jara ser assassinado a bala.

Outra vítima da máfia da fronteira foi Samuel Román, fuzilado em 2004 diante da mulher,  logo depois de encerrar seu programa de rádio no qual condenava as ações dos traficantes. Julio Benítez foi assassinado com quinze tiros em 2006, na cozinha de sua casa, por dois pistoleiros, depois de denunciar a narcopolítica na região; Paulo Rocaro, redator do Jornal da Praça, de Ponta Porã, também foi vítima das balas do narcotráfico, assassinado em seu automóvel em 12 de fevereiro de 2012. O radialista Marcelino Vázquez foi morto em 2013, e outro radialista, Fausto Gabriel Alcaraz, foi assassinado em 2014 quando chegava em casa depois de terminar seu programa radiofônico, no qual era implacável contra os traficantes da fronteira. O locutor de rádio Gerardo Servián foi emboscado e assassinado numa rua de Ponta Porã em 2015, e, por último, Léo Veras, neste fevereiro de 2020.

 

15 de junho de 2016

Num diário sobre mortes na fronteira, preciso voltar a este dia. Depois do assassinato do último grande chefão desta fronteira, Jorge Rafaat Toumani, na noite de 15 de junho de 2016, a região caiu sob o controle absoluto do PCC, cujos integrantes impuseram sua vontade a ferro, fogo e sangue, cometendo dezenas de assassinatos quase todos os dias em ambos os lados da fronteira.

Léo Veras cobria todo tipo de notícias na região, mas as de maior destaque e impacto eram as policiais. Contava com uma vasta rede de informantes e trabalhava bem perto dos investigadores da polícia, tanto do lado paraguaio como do brasileiro. Durante seis meses, trabalhou na redação do jornal mais importante do Paraguai, o ABC Color. Nesse período, contou com escolta policial permanente, já que seus artigos ligados ao narcotráfico na  fronteira fizeram dele alvo de diversas ameaças. Finda sua colaboração com o ABC Color, iniciou um trabalho independente em sua página digital e pediu que suspendessem a escolta policial que ainda o protegia.

 

14 de fevereiro de 2020

Jornalistas de outros países escrevem para pedir informações sobre a morte de Léo Veras. Léo sempre soube que sua vida estava em perigo. Durante todos esses anos, acompanhou centenas de operações policiais contra o narcotráfico, e publicava sem hesitação fotos e nomes dos narcotraficantes e seus parceiros políticos no Paraguai. Isto lhe valeu a ira do crime organizado, que já há algum tempo o havia jurado de morte. Poderia ter-se calado e ganhado muito dinheiro vendendo silêncio sobre o narcotráfico, mas sua personalidade e seu profissionalismo jamais lhe permitiriam fazer isso. Passou necessidade, tinha que trabalhar de sol a sol para sustentar a família. Léo Veras foi assassinado, coincidentemente, no aniversário do assassinato de outro grande jornalista da fronteira e seu amigo pessoal, Paulo Rocaro, morto em Ponta Porã em 12 de fevereiro de 2012.

Numa entrevista para a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Léo, recordando o assassinato de Rocaro e de outros colegas nesta fronteira, afirmou que decidira dispensar a escolta policial para poder trabalhar nas investigações jornalísticas com mais liberdade, e terminou declarando: “Eu sempre peço que não seja tão violenta a minha morte, que não seja com tantos disparos de fuzil, porque aqui, se o pistoleiro quer te matar, vem na tua porta, manda abrir e vai dar um disparo. Espero que seja só de um disparo para não estragar tanto a pele.” Infelizmente o pedido de Léo não foi atendido. Os matadores desfecharam contra ele doze disparos.

 

17 de fevereiro de 2020

Sempre com proteção policial, saio cedo de Pedro Juan Caballero para Assunção, a fim de participar de uma reunião no jornal. Na cidade, parece um dia como outro qualquer. Continuo buscando informações das autoridades paraguaias sobre as investigações em torno da morte de Léo Veras, mas, até o momento, a polícia, tanto brasileira como paraguaia, ainda não tem pistas sobre os três pistoleiros que acabaram com a vida do jornalista. Considerando o que ocorreu com os outros colegas assassinados na fronteira, este crime, assim como todos os anteriores, nunca será esclarecido. Os narcotraficantes impuseram a lei do silêncio, e ninguém ousa colaborar para que todas essas mortes sejam elucidadas.

 

Tradução: Rubia Goldoni e Sérgio Molina.

Cándido Figueredo Ruiz (siga @CandidoFiguered no Twitter)

Jornalista paraguaio, repórter do ABC Color na cidade de Pedro Juan Caballero

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