Livro que a Meta tentou censurar revela bastidores do Facebook
João Batista Jr. recomenda um dos destaques literários do ano

INDICAÇÃO DE JOÃO BATISTA JR.
Em março de 2016, o então vice-presidente do Facebook no Brasil, o argentino Diego Dzodan, foi preso a caminho d o trabalho, em São Paulo, quando a Polícia Federal cumpriu uma decisão da Vara Criminal de Lagarto, município de Sergipe. A prisão preventiva se deu porque a empresa se negara a cumprir uma solicitação de quebra de sigilo de mensagens de WhatsApp, no contexto de uma investigação de tráfico interestadual de drogas. O encarceramento durou pouco. O executivo foi solto no dia seguinte. O caso, no entanto, sacudiu o Vale do Silício.
Com a prisão de Dzodan, Mark Zuckerberg, dono do Facebook, postou uma frase em sua plataforma endereçada à suposta batalha pela liberdade de expressão: “Please make your voice heard and help your government reflect the will of its people” [Por favor, faça com que suas vozes sejam ouvidas, e ajudem o seu governo a refletir a vontade do povo]. Muitos usuários fizeram o que o magnata das big techs pediu, e começaram a marcar e a atacar a então presidente Dilma Rousseff online. Era um contrassenso, já que um chefe de Estado não tem ingerência em uma decisão judicial. O gabinete de Rousseff contatou Sarah Wynn-Williams, então diretora de políticas públicas da empresa, para demonstrar desaprovação à atitude do chefe dela. Wynn-Williams então recomendou ao seu chefe que deletasse ou editasse a postagem – ele editou, e o gabinete de Rousseff vazou para a imprensa que a mudança se deu após o pedido do Palácio do Planalto. Zuckerberg ficou possesso, o que piorou a sua relação com o Brasil.
Esse episódio é um entre muitos que Wynn-Williams conta no seu ótimo livro de memórias Careless People: a Cautionary Tale of Power, Greed, and Lost Idealism, lançado em março nos Estados Unidos pela editora Flatiron Books. A autora trabalhou na empresa entre 2011 e 2017, mantendo uma relação próxima com Zuckerberg. Seu livro é um dos melhores registros – com documentação farta, incluindo e-mails e mensagens – sobre como o Facebook, que depois iria se tornar o conglomerado Meta, usou seu poder para lucrar em cima da privacidade e da liberdade de seus usuários e da polarização entre eles. A narrativa é um mergulho no sistema operacional de Zuckerberg em busca do lucro: mentiras no Congresso americano; promessas ao governo chinês de expor dados sigilosos dos usuários; conivência com o genocídio étnico em Mianmar, entre outros casos. A autora conta também como uma denúncia sua de assédio sexual não deu em nada, e sobre a ajuda do Facebook à campanha de Donald Trump, em 2016.
A relação da empresa com o Brasil aparece em diversas passagens. Wynn-Williams conta, por exemplo, que o seu chefe teve a ideia de lançar uma plataforma chamada Internet.org, que supostamente daria acesso gratuito à internet em países pobres ou em desenvolvimento. O Brasil seria crucial para a coisa vingar – pela população, poder de consumo e relevância geopolítica. Mas o projeto era uma falácia: Zuckerberg não queria dar acesso livre, mas sim que as pessoas se conectassem à internet através do Facebook. Como moeda de troca, ele concederia os dados dos usuários aos governantes que topassem aderir. Rousseff foi terminantemente contra, e as tratativas – inclusive os detalhes de uma reunião entre a ex-presidente e Zuckerberg – são relatadas no livro.
A Meta tentou, sem sucesso, barrar a publicação de Careless People nos Estados Unidos, e conseguiu suspender a promoção do livro pela autora por suposta violação de uma cláusula de não difamação. No Brasil, nenhuma editora até agora comprou os direitos de tradução do livro.
Outros quatorze jornalistas da piauí indicam obras lançadas no ano que termina. Veja a lista completa aqui.
Leia Mais
Assine nossa newsletter
E-mail inválido!
Toda sexta-feira enviaremos uma seleção de conteúdos em destaque na piauí
