anais da catástrofe

Loucos por Bento Rodrigues

Dois anos após o desastre de Mariana, ex-moradores ainda frequentam as ruínas arrasadas pela lama e se negam a trocar os destroços por novas casas

Daniel Camargos
02nov2017_14h37
Fiéis saem em procissão em honra a São Bento, padroeiro de Bento Rodrigues. Desde julho de 2016, um grupo de ex-moradores volta às ruínas do distrito quase todos os finais de semana para celebrar datas religiosas
Fiéis saem em procissão em honra a São Bento, padroeiro de Bento Rodrigues. Desde julho de 2016, um grupo de ex-moradores volta às ruínas do distrito quase todos os finais de semana para celebrar datas religiosas FOTO: DANIEL CAMARGOS

Quando alguém anunciou a chegada do padre Geraldo Barbosa – atrasado quase uma hora –, o mecânico Mauro da Silva correu em direção a um barranco perto dos destroços da Escola Municipal Bento Rodrigues e soltou os foguetes. Os estampidos marcaram o início da festa de São Bento, o padroeiro do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, Minas Gerais, destruído pela lama vazada da barragem do Fundão, da Samarco, empresa controlada pela Vale e BHP Billiton, em 5 de novembro de 2015. Os dejetos mataram dezenove pessoas, uma está desaparecida, e destruíram a maior parte das casas de Bento Rodrigues, seguindo pelos rios até o Oceano Atlântico, deixando um rastro de destruição que perdura até hoje, dois anos depois, sem que ninguém fosse condenado.

Naquele domingo, 30 de julho, quando Silva acendeu o pavio dos fogos, ele vestia uma camiseta com uma foto estampada nas costas. Tirada em 2016, a imagem mostrava dezenove pessoas abraçadas, grupo conhecido como Loucos por Bento Rodrigues. Fazia um ano que a tragédia havia destruído suas casas. Dois anos depois do rompimento da barragem, ele se multiplicaram: são mais de trinta e formam a resistência na luta para garantir os direitos dos atingidos.

Eles não querem abrir mão da história do local onde nasceram e insistem em voltar às ruínas quase todos os finais de semana para celebrar datas religiosas e até mesmo o Carnaval. Acima de tudo, celebram a vida que não perderam. Apressado, pois está dividido entre tocar o sino, soltar os foguetes e apoiar a organização da festa, o mecânico me disse: “Não vamos desistir daqui.”

A poeira fofa no chão tem textura de pó de arroz e suja os sapatos de ir à missa, ou de “ver Deus”, como brincam no interior de Minas. Não poupa nem os uniformes, impecáveis até então, dos músicos da Sociedade Musical Santa Cecília, que vieram de Passagem de Mariana, outro distrito da cidade histórica.



Mais do que celebrar a data do santo, o evento marca ainda o aniversário de um ano do surgimento dos Loucos por Bento Rodrigues. Em julho de 2016, Mauro decidiu que iria até o povoado – à revelia das recomendações da Defesa Civil e da Samarco, que emitiam alertas para que as pessoas se afastassem da área – para soltar foguetes e rezar em frente aos destroços da igreja. Conseguiu companhia de um grupo de moradores. Naquele ato surgiu o “Loucos”.

Desde então eles não pararam. Celebraram outras festas religiosas, passaram a noite nas casas da rua mais alta, que não foi atingida pela lama, estiveram lá no Réveillon, Carnaval, Semana Santa. E retornam sempre que desejam.

“Fomos chamados de loucos por aqueles que não querem voltar aqui”, explicou Mônica Quintão, uma das lideranças do grupo. O adjetivo que pode parecer depreciativo foi adotado, segundo ela, em uma atitude que mistura provocação e manifesto. “É uma tentativa de amenizar o nosso sofrimento, protestar e declarar o amor por nossa terra.”

A família Quintão, de Mônica, é uma das principais do grupo. Além dela, a mãe, Maria e as tias Simária e Sandra estão sempre presentes nos atos. Sandra era a dona do bar que ficava ao lado da igreja. Passa grande parte da tarde da festa do lado de fora do tapume que cerca os destroços do templo. Observa, desalentada, o local onde ficava o bar, famoso pelas coxinhas preparadas por ela.

“Agora eu virei feirante. Lá em Mariana vendo as coxinhas na feira da praça da Estação”, detalhou. Apesar de ter perdido tudo, ela ainda consegue ver uma vantagem. “Na feira não tem fiado. Todo mundo paga à vista e não tem cano.” Uma fotografia do bar, com um bonito gramado à frente e a capela de São Bento ao lado estampa a blusa do irmão dela, Antônio Quintão.

Quintão, como é conhecido, é operador de máquinas da Vale, na Mina de Alegria, próxima a Bento Rodrigues. Veste uma calça imunda de terra, a mesma que usava no dia que a barragem rompeu. Nunca mais lavou a calça e quando retorna a Bento faz questão de usá-la. “A comunidade está suja e eu vou ficar sujo junto com ela”, justificou.

Ele mostra o local onde ficava a casa dele, no lote contíguo ao bar da irmã. Aponta a cama de casal, de alvenaria, e com um ramo de mamona aproveita para tirar a poeira do local. Quintão conta que depois do rompimento da barragem ficou um pouco confuso, precisou procurar um psiquiatra e tomar alguns medicamentos, mas que agora está melhorando.

Na antiga casa criava 60 galinhas, 50 passarinhos, uma gata com cinco filhotes e dois cachorros. Todos mortos pela lama. “Não me ajeitei em Mariana. Lá é muita zoeira”, contou o operador de máquinas. Recentemente, ele mudou para um bairro afastado do Centro, chamado ironicamente Vila Samarco.

A queixa de Quintão é recorrente entre os atingidos. A sede de Mariana, que os moradores dos distritos chamam de “a cidade”, tem quase 60 mil moradores, 100 vezes mais do que havia em Bento Rodrigues.

 

Acompanhei o grupo na primeira noite que passaram em Bento Rodrigues. Era um sábado, 22 de outubro do ano passado. Na chegada, Maria Quintão, mãe de Mônica e irmã de Antônio, parou na esquina das ruas Carlos Pinto e Dona Olinda e apontou para uma mesa de totó enviesada na porta: “Ali era o bar do Barbosa.”

Maria olhou para o lado esquerdo e seguiu a descrição: “A casa do seu Manoel, o açougue, a feirinha da Alessandra, a casa do Paulo de Carminha, a casa de Onézio, da Valéria, o bar da Joelma, a casa de Darci.” A irmã dela, Simária, interrompeu e disse: “Eu queria dormir na minha casa. Mas não sobrou nada.”

Em outubro do ano passado a luta do Loucos por Bento Rodrigues era contra a construção do Dique S4. A conversa na madrugada, enquanto faziam churrasco e bebiam cerveja e refrigerante, era sobre o governador Fernando Pimentel (PT), que, segundo os moradores, autorizou a construção do dique. “Queria que o senhor governador viesse colocar o pé na lama antes de decidir pela gente”, afirmou Mônica. A luta não teve sucesso e o dique foi construído, alagando grande parte dos destroços de Bento Rodrigues.

 

Um ano mais tarde, no dia 20 de setembro, Mauro da Silva estava sentado atrás de uma mesa de mármore, ao lado de Maria do Carmo Silva, moradora do distrito de Paracatu de Baixo, também atingido pela lama, e de duas advogadas, uma da Fundação Ford, que colabora com o Ministério Público Estadual, e outra da Cáritas, ligada à Igreja Católica e que auxilia as vítimas. Eles encaravam quase trinta jornalistas em uma entrevista coletiva realizada na sede do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, no Centro de Belo Horizonte.

“Nós conseguimos sobreviver, mas as perspectivas para o futuro ainda são vagas. O processo de reassentamento segue a passos lentos. Não está andando como a gente necessita”, afirmou Silva. De acordo com a Fundação Renova – entidade criada após um acordo das mineradoras Samarco, Vale e BHP com os governos federal e estadual –, a entrega das casas está prevista para o primeiro semestre de 2019.

No mesmo dia da entrevista dos atingidos, o ministro de Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, estava em Nova York e referiu-se ao rompimento como “acidente” e “fatalidade”. “Tem que ser encarado como foi, de fato foi um acidente. Nós temos que trabalhar para que outros não ocorram, mas como uma fatalidade, você não tem controle sobre isso”, afirmou o ministro.

A última pressão do grupo foi para impedir o que eles chamam de permuta. Eles não aceitam ter que ceder os terrenos que foram destruídos pela lama em troca de uma nova casa. Em audiência de conciliação na 2ª Vara Cível, Criminal e de Execuções Penais da Comarca de Mariana, realizada em 5 de outubro, a hipótese foi descartada.

Os Loucos foram para a porta do Fórum usando camisetas com os dizeres: “Não trocamos nossa história por lama – Permuta não!” De acordo com o promotor Guilherme Meneghin, a cessão dos terrenos era uma possibilidade aventada por representantes da empresa durante negociações, mas, no acordo assinado, a destinação das áreas atingidas será definida pelos moradores.

 

Durante a missa deste ano o padre Geraldo Barbosa passou o microfone para alguns moradores que estavam na primeira fila. Marinalda Muniz, que cantava no coral, deixou claro que pretende continuar frequentando Bento Rodrigues. “Não vamos aceitar permuta. Não vamos trocar aqui por nada”, afirmou, na celebração em honra a São Bento, em 30 de julho.

O padre perguntou quem entre os presentes desejava que a capela, hoje reduzida a escombros, seja restaurada. Todos levantaram a mão. Alguns levantaram os dois braços. O padre prosseguiu o discurso, criticando os meios de comunicação brasileiros, que, segundo ele, são de propriedade de apenas cinco famílias. “Fazem com que as pessoas aceitem tudo”, disse.

“Mesmo se algum dia surgir outro povoado nós não aceitamos que Bento acabe. Aqui é o nosso lugar, nossa vida e nossa história. É muito amor envolvido”, explicou Mônica, após submeter, via WhatsApp, suas respostas às questões da reportagem para aprovação dos membros dos Loucos por Bento Rodrigues.

Outro integrante do grupo é Manoel Marcos Muniz, o Marquinhos, funcionário aposentado da Samarco. Além da casa da família, em um terreno de 600 metros quadrados, ele perdeu 8 800 metros quadrados de terra. Depois da lama, o terreno dele foi tomado pela construção do dique S4. “Não tem nada definido. Não resolveram as indenizações. O que me alivia é vir para cá. Aqui é o lugar para desabafar. Nem que seja para chorar”, lamentou Marquinhos.

São 16h10 e o padre conclama os fiéis para saírem em procissão. Antes, explica o sentido do ato. “Procissão remete a caminhada pelo deserto em busca da terra prometida. É uma caminhada pela liberdade.”

Na saída da capela é possível observar, além das ruínas, as placas com a tinta reluzente, que alertam para os riscos de desabamento. Uma delas avisa: “Ao ouvir a sirene evacue a área.” Sinalização inexistente em 5 de novembro de 2015, quando a barragem rompeu.

Depois de dar a volta pela rua de cima, que não foi atingida, os fiéis descem a rua Carlos Pinto e, na esquina com a rua dona Olinda, é possível observar a mesa de totó atravessada na porta do que era o Bar do Barbosa, estática, no mesmo local desde a tarde de 5 de novembro de 2015.

Na última semana de setembro os moradores da resistência se reuniram mais uma vez em Bento Rodrigues, desta vez para comemorar a festa de Nossa Senhora das Mercês, santa que dá nome a outra igreja do local, que não foi atingida pela lama.

O adro da igreja, gramado e cercado por um baixo muro de pedra, foi onde as pessoas se refugiaram quando a lama chegou. “Foi para a igreja que o povo correu”, disse o bispo dom Geraldo Lyrio Rocha, celebrante do dia. Pouco antes do final da missa, Maria Quintão saiu apressada da igreja dizendo que precisava finalizar o jantar. Os Loucos consertaram a casa de uma das irmãs dela, colocando janelas e portas.

Mônica pediu a palavra e chamou as cerca de 200 pessoas para jantar na casa simbolicamente restaurada. Quando os moradores chegaram, viram que o imóvel era iluminado por um gerador, e tinha até água encanada – caixa-d’água cheia graças a um caminhão pipa.

Todos fizeram fila para comer feijoada, arroz, farofa e couve. Maria, que comandou a cozinha, lembrou da primeira festa que fizeram, quando os Loucos surgiram. “Aquele dia foi bom demais. Nós extravasamos. Olhava para o lado e estava todo mundo chorando”, lembra ela, que trabalhou na cantina da escola em Bento Rodrigues e também como cozinheira. Depois do almoço, o grupo se reuniu e repetiu em uníssono: “Estamos vivos, estamos juntos, estamos fortes, somos muitos e somos loucos! Somos loucos por Bento Rodrigues.”

Daniel Camargos

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