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Em sessão do dia 29 de setembro de 1992, deputados tratavam sobre impeachment de Collor | Divulgação Câmara
Em sessão do dia 29 de setembro de 1992, deputados tratavam sobre impeachment de Collor | Divulgação Câmara

Mas é verdade que existe essa tal de ‘Maldição do Impeachment’?

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
16.abr.2016 | 14h35 |

Por conta da tumultuada tramitação do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, tem sido frequente ouvir parlamentares de diferentes partidos buscarem paralelos entre o momento atual e o ano de 1992, quando o então presidente, Fernando Collor de Mello, foi impedido de continuar no cargo. O problema é que certas comparações podem redundar em graves erros históricos.

No último dia 9, o Twitter oficial do PMDB deu vazão à suposta “Maldição do Impeachment de 1992”. Com duas postagens seguidas, o partido afirmou na rede social que 37 dos 38 deputados que votaram contra o impedimento de Collor no plenário da Câmara não avançaram na carreira política, depois de assim se posicionarem. E que o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB) teria sido o único da lista a ser reeleito após apoiar o ex-presidente. Veja:

Twitter do PMDB

No mesmo dia, o deputado licenciado e atual secretário da Casa Civil do Paraná, Rossoni (PSDB-PR), divulgou a mesma informação, ajudando a propagar a tal “Maldição do Impeachment”. Confira:Twitter do Rossoni

No último dia 12, a Revista Época publicou uma nota informando que o deputado federal Julio Lopes (PMDB-SP) havia disparado um e-mail para seus correligionários, contendo a mesma informação. “Faço essa ponderação mais por não acreditar nas propostas e seriedade de um governo”, justificou-se.

Intrigada, a Lupa voltou aos registros oficiais da Câmara dos Deputados para checar a veracidade da informação e concluiu que o dado propagado tanto pelo @PMDBNacional quanto por @Rossoni e Lopes é:

EXAGERADO

Segundo o Diário do Congresso Nacional do dia 30 de setembro de 1992, 38 deputados realmente votaram contra o avanço do pedido de impeachment do então presidente Collor no plenário da Câmara. A relação pode ser conferida na tabela que se estende da página 59 à página 63 da edição daquele dia.

Mas, de acordo com dados reunidos pela Lupa no site da Câmara dos Deputados, desses 38 parlamentares, 17 (ou 45% deles) voltaram – sim – a conquistar cadeiras na Casa depois de se posicionarem de forma contrária ao impeachment de Collor.

Nesse grupo de 17, há oito parlamentares que conseguiram se reeleger mais de uma vez para o cargo de deputado federal. Um deles, Tony Gel, virou notícia em 2001 ao renunciar ao cargo na Câmara para ser prefeito de Caruaru, em Pernambuco.

O deputado federal Átila Nunes (PSD-AM) é outro com histórico político farto. Desde a renúncia de Collor, vem se reelegendo sucessivamente. No dia 1º de fevereiro do ano passado, tomou posse na Legislatura atual e está na lista dos parlamentares aptos a votar sobre o avanço do impeachment da presidente Dilma Rousseff no domingo (17).

Ainda há na lista, dois deputados que não conseguiram vencer uma nova eleição nas urnas, mas que acabaram assumindo vagas na Câmara como suplentes. Foram eles: Elisio Curvo, do então PRN, e Milton Barbosa, do PFL, que virou DEM.

Assim sendo, o correto é dizer que 19 dos 38 deputados que apoiaram Collor no plenário da Câmara não conseguiram se reeleger. Mas que outros 19 – seja pelas urnas ou por suplência – voltaram à Casa. Sinal de que a tal “Maldição do Impeachment de 1992” não é lá tão forte.

O ALCANCE DO EXAGERO

Segundo a versão gratuita da ferramenta TweetReach, capaz de medir o alcance de um tuíte, até a última quarta-feira (12), as duas postagens do @PMDBNacional tinham sido entregues a cerca de 189 mil e 285 mil perfis de Twitter, respectivamente.

Já a postagem de @Rossoni já havia alcançado 158 mil contas na rede social, também no mesmo período.

‘ACREDITANDO NA VERDADE’

A Lupa procurou o deputado e secretário Rossoni para que ele comentasse o exagero. Por e-mail, ele reconheceu que “se descuidou ao compartilhar (no Twitter) informação recebida pelo Whatsapp”. E, sem revelar a origem da mensagem enviada a seu celular, disse que divulgou o dado, “acreditando ser verdade”.

O PMDB foi procurado pela agência, mas não retornou os contatos até a publicação desta reportagem.

*Esta checagem foi publicada pela Revista Época neste sábado, 16 de abril de 2016.

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Não há dados públicos que comprovem a informação
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