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Myrtle Cook, do Canadá (à esquerda), vence a prova preliminar dos 100 metros nos Jogos
Olímpicos de Paris, 1924.  Foto: Library and Archives Candada, CC BY 2.0(https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/br/)
Myrtle Cook, do Canadá (à esquerda), vence a prova preliminar dos 100 metros nos Jogos Olímpicos de Paris, 1924. Foto: Library and Archives Candada, CC BY 2.0(https://creativecommons.org/licenses/by/2.0/br/)

Total de atletas mulheres jamais se igualou ao de homens nos Jogos Olímpicos

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
25.jul.2016 | 00h00 |

Em 1900, quando os atletas chegaram a Paris para participar da segunda edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, 22 mulheres e 975 homens integravam o grupo. Ao longo dos dias daquela competição, elas disputaram provas em duas modalidades: golfe e tênis. Eles competiram em nada menos do que 93 eventos nos mais diversos esportes.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) ainda não dispõe de dados sobre a participação feminina na Rio 2016, mas a pesquisadora Nelma Gusmão de Oliveira conta no estudo inédito “Saltando obstáculos: a mulher no espetáculo esportivo” que, até Londres 2012, mais de um século depois da disputa francesa, as mulheres ainda não tinham representado 50% do total de atletas olímpicos nenhuma vez. 

Na pesquisa, parte do webdossiê  sobre megaeventos e violações de direitos humanos que a Fundação Heinrich Böll divulga nesta terça-feira (26), Nelma quantifica a participação das mulheres em todas as edições dos Jogos e conclui que Londres 2012 foi a que, proporcionalmente, teve o maior time de competidoras. Dos 10.567 atletas, 4.675 (ou 44,2%) eram mulheres. Também foi na capital britânica que as mulheres puderam disputar absolutamente todas as modalidades oferecidas aos homens pela primeira vez. 

Obtida pela Lupa, com exclusividade, a pesquisa de Nelma ainda reúne diversas informações de relevância sobre a participação feminina nos Jogos Olímpicos modernos.

VOCÊ SABIA QUE…

. Até 1928, o COI se recusava – de forma sumária – a aceitar mulheres no atletismo. A mudança só aconteceu depois que a francesa Alice de Milliatt fundou a Federação Esportiva Feminina Internacional e, em 1922, organizou os primeiros Jogos Olímpicos Femininos. O torneio alternativo se repetiu em 1926 e, devido a seu grande sucesso, serviu como ferramenta de pressão para que o COI passasse a aceitar equipes femininas nas pistas de atletismo. Amsterdã 1928 foi a primeira edição dos Jogos em que as mulheres competiram nessa modalidade. Foram cinco provas apenas.

. Até 1949, a Carta Olímpica, uma espécie de constituição dos Jogos, um documento que conta com a assinatura de absolutamente todos os países participantes, só autorizava mulheres a competir em dez modalidades: esgrima, ginástica artística, natação, canoagem, patinação artística, esqui, vela, exibições de artes e atletismo. Veja no gráfico abaixo como o número de provas com participação feminina avançou ao longo dos anos:

. Em 1968, sob o argumento de criar condições de fair play, o COI instituiu o “teste de feminilidade”. Qualquer mulher com “indício corporal de anormalidade”, ou seja, com crescimento de pelos, voz grossa, seios pouco evidentes e musculatura desenvolvida, passou a ser suspeita de doping e, consequentemente, submetida a uma bateria de exames. Os “testes de feminilidade” incluíam exames de laboratório e uma inspeção visual ginecológica. As mulheres aprovadas nesses exames recebiam um documento chamado cartão rosa que “certificava cientificamente sua feminilidade” e a autorizava a competir. A partir de 1971, a concordância em se submeter ao teste se tornou condição necessária para participar do evento e passou a constar na Carta Olímpica. A exigência se manteve até os Jogos de Atlanta, em 1996, quando os “testes de feminilidade” deixaram de ser obrigatórios. Apesar disso, algumas federações internacionais de esportes como a de atletismo exigiam esses exames até 2015 quando a Corte Arbitral dos Esportes suspendeu os testes por dois anos.

. Até 1981, não havia entre os cargos de comando do COI nenhuma mulher. A participação feminina na administração dos Jogos só passou a acontecer há 35 anos, quando duas mulheres foram admitidas entre os 83 membros ativos do comitê. Atualmente, a participação feminina na administração do COI é de 23,9%, 22 dos 92 membros são mulheres. No Comitê Executivo, no entanto, somente quatro dos 15 componentes (26,6 %) são mulheres. Dentre os quatro vice-presidentes, apenas uma, Nawal El Moutawakel, (25%) é mulher.

Nota 1: Os dados apresentados no livro “Saltando obstáculos: a mulher no espetáculo esportivo” foram levantados por Nelma Gusmão de Oliveira nas Cartas Olímpicas e nos Boletins do COI. “A carta é a parte legislativa do comitê, como uma constituição que precisa ser respeitada e obedecida. Todas os países precisam assinar esse documento, mostrando que acatam as regras dos Jogos. Os boletins do COI são como o diário oficial, uma revista interna direcionada aos membros do comitê para o desenvolvimento das ideias ao longo do tempo”, explica a pesquisadora.

Nota 2: O número total de membros ativos do COI varia com frequência. Na época da pesquisa, no início deste ano, eram 92. No dia 25 de julho, eram 90. Mas a quantidade de mulheres (22) não foi modificada. As mudanças ocorrem devido à obrigatoriedade de aposentadoria aos 70 anos. Os membros ativos que atingem essa idade passam a ser membros honorários, sem direito a voto.

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