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Manifestação do domingo, dia 4 de setembro. Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil
Manifestação do domingo, dia 4 de setembro. Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil

FGV/DAPP: Atuação da PM em manifestação ganha força nas redes e no debate eleitoral de SP

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
10.set.2016 | 14h00 |

Uso da força policial em manifestações de cunho político ecoou nas redes sociais e permeou todo o debate eleitoral da semana. Levantamento exclusivo feito pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas, da Fundação Getúlio Vargas (FGV/DAPP), mostra que a atuação da Polícia Militar no último domingo (4), durante as manifestações contra o presidente Michel Temer em São Paulo, fez com que o tema segurança pública despontasse nas postagens associadas à eleição municipal. Temas locais como saúde, educação e transporte ficaram para trás.

Entre os dias 1 e 7 de setembro, a FGV/DAPP registrou 77.700 menções ao assunto no Twitter. O foco foi o uso da força policial. Nesse universo, três palavras chamaram a atenção dos especialistas. “Vandalismo” foi destaque, com 18.300 menções, seguida pelas expressões “violência policial” ou “violência da polícia”, que tiveram juntas 8.900 menções. Em terceiro lugar, ficou o verbo “agredir”, citado 3.800 vezes.

A polêmica sobre a força policial foi debate nas principais cidades do país, mas tomou grande dimensão na capital paulista. Só no município de São Paulo, foram 14.500 postagens sobre o uso da força da PM nos atos contrários ao impeachment de Dilma Rousseff. E a consequência disso ficou evidente: os políticos que estão em campanha desde o dia 16 entraram de cabeça no assunto e passaram a se manifestar publicamente sobre ele, revelando suas opiniões.

O QUE ELES DISSERAM?

João Doria (PSDB) foi o primeiro a se manifestar. Bem cedo, na manhã de segunda-feira, foi sabatinado pela rádio CBN SP, e tratou do caso. Correligionário do governador Geraldo Alckmin, que comanda a Polícia Militar de São Paulo, Doria repudiou o uso da violência tanto por parte dos manifestantes como por parte da polícia, mas, ao final de sua colocação, disse que “a PM agiu de maneira adequada”, diante de um grupo de mais de 40 mil manifestantes. Ao ser questionado sobre se a ação policial de domingo havia sido de alguma forma incorreta, o tucano foi taxativo: “não está incorreta, mas pode ser aprimorada”.

Horas mais tarde, ainda na segunda-feira, foi a vez do atual prefeito e candidato à reeleição, Fernando Haddad (PT), se posicionar. Em vídeo publicado em suas redes sociais, foi um crítico cuidadoso. Pé ante pé, afirmou que, até aquele momento, não havia visto relatos que “justificassem uma ação violenta da Polícia Militar”. Depois silenciou nas redes com relação a esse tema.

Celso Russomano (PRB) não falou sobre o assunto no Facebook nem no Twitter, mas foi questionado nas ruas sobre a atuação da PM de São Paulo. Pareceu neutro. Disse que os protestos “são gravados pela imprensa e pela polícia” e que o governador “deve agir, se houver excessos”.

Marta Suplicy (PMDB), por sua vez, afirmou que “a depredação (por parte dos manifestantes) e a truculência da polícia” são inadmissíveis e que todos os paulistanos estavam indignados com o que havia ocorrido no domingo. Ex-petista e ex-ministra de Dilma, a senadora e candidata pelo PMDB evitou falar muito sobre a motivação das passeatas.

Luiza Erundina, que foi aos protestos contrários a Temer, fez duas postagens criticando a atuação da PM. Na primeira, publicou uma charge ironizando o uso de gás lacrimogênio, balas de borracha e spray de pimenta. Na segunda, afirmou que “o povo tem que ter assegurado seu direito à manifestação, sem violência e sem truculência da polícia”.

A Lupa vasculhou ainda o Facebook e o Twitter de Major Olímpio (SD). Até a tarde de quinta-feira (8), o ex-policial não havia comentado os protestos nem a polêmica em torno de seu desfecho.

MAS… E ANTES DA CAMPANHA?

Russomanno é autor de uma proposta de emenda constitucional (PEC) que tramita na Câmara dos Deputados desde 2009. Com ela, pretende “desconstituir as polícias civis e militares” e  “desmilitarizar os corpos de bombeiros”. Na justificativa que acompanha a PEC 403/2009, o deputado e hoje candidato pelo PRB afirma que pretende “constituir uma nova polícia, desmilitarizada e condizente ao trato para como cidadão brasileiro”.

Haddad foi alvo das manifestações de junho de 2013 depois do reajuste nas tarifas de ônibus. Naquele ano, chegou a dizer publicamente que, ao atuar para conter alguns protestos de rua, a Polícia Militar de São Paulo não havia cumprido todos os protocolos existentes. Em 14 de junho, especificamente, afirmou que a ação “não tinha ficado bem para a polícia”.

Major Olímpio também se pronunciou algumas vezes naquele ano. Em outubro, já passado o período mais quente nas ruas, disse que a polícia não estava preparada para a “nova realidade das manifestações” e criticou o governo estadual por ter prometido “ações enérgicas contra os ativistas violentos” e não as ter colocado “em prática”. O deputado e hoje candidato pelo Solidariedade reconheceu que a credibilidade da instituição ficou abalada, arranhada.

Erundina já fez diversas críticas a PM paulista. Em junho deste ano, após o fim de uma manifestação promovida pela Frente Povo Sem Medo, pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e por um grupo de mulheres, a deputada e hoje candidata pelo PSOL registrou seu “profundo repúdio ao governador de São Paulo pela repressão policial (vista) na Avenida Paulista”. Erundina disse que a atuação policial daquele dia havia sido um “desrespeito à liberdade de expressão e um risco” para a democracia.

* Esta reportagem foi publicada no site da Revista Época em 8 de setembro de 2016.

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