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Foto: Rodrigo Amorim/Flickr
Foto: Rodrigo Amorim/Flickr

Nove das 21 campanhas para prefeito de Rio e São Paulo têm contas no vermelho

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
27.set.2016 | 19h09 |

Quase metade dos 21 candidatos que disputam a prefeitura de Rio de Janeiro e São Paulo está com as contas de campanha no vermelho. É o que indicam dados levantados nesta terça-feira (27) pela Lupa junto ao site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na capital paulista, quatro concorrentes se comprometeram com gastos que, somados, ultrapassam os valores que conseguiram arrecadar até agora. Na capital fluminense, são cinco. Entre eles, há alguns dos candidatos mais bem posicionados nas últimas pesquisas de intenção de voto.

Em diferentes graus, essas nove campanhas correm o risco iminente de chegar ao primeiro turno – marcado para o próximo domingo – sem caixa para arcar com aquilo que contrataram. Um choque frontal com as promessas de boa gestão do dinheiro público repetidas ao longo da corrida eleitoral.

Segundo a legislação, eventuais dívidas são de responsabilidade do candidato e de seus partidos, que poderão lançar mão de diferentes tipos de recursos – entre eles o fundo partidário – para quitá-las.

EM SÃO PAULO

João Doria (PSDB) é o candidato que, em valores absolutos, mais despesas contratou. Até 27 de setembro, eram R$ 13 milhões – 117% a mais do que sua campanha havia arrecadado: R$ 5,9 milhões.

Desde o início da corrida eleitoral, Fernando Haddad (PT) recebeu, por sua vez, R$ 4,9 milhões. Sua campanha já contratou serviços que somam 107% a mais: R$ 10,1 milhões.

Ricardo Young (Rede) e João do Bico (PSDC) também apresentam esse desequilíbrio. O primeiro arrecadou R$ 323 mil e declarou ao TSE ter contratado despesas no valor de R$ 554 mil (71% a mais do que dispõe). O segundo juntou R$ 35,5 mil, mas já contratou serviços no total de R$ 140 mil, ou quatro vezes o que possui em caixa.

Confira o gráfico:

O restante dos candidatos de São Paulo declarou ter contratado despesas inferiores aos valores arrecadados para custear as campanhas. Veja:

 

NO RIO DE JANEIRO

Na capital fluminense, os candidatos Carlos Osorio (PSDB), Flávio Bolsonaro (PSC) e Jandira Feghali (PCdoB) também apresentam diferenças superiores a 40% entre os valores que arrecadaram e as despesas que suas campanhas contrataram.

A maior distorção percentual foi verificada nos valores de Osorio. O tucano arrecadou R$ 872 mil, mas ordenou serviços que somam R$ 1,7 milhão – quase o dobro do que tem em caixa.

Bolsonaro registrou receita de R$ 425 mil e contratou despesas totais de R$ 756 mil – 77% a mais do que a verba disponível em campanha.

Jandira apresentou a contratação de serviços no valor de R$ 581 mil, mas conseguiu arrecadar apenas R$ 395 mil. Os gastos são 47% superiores à receita de sua campanha.

Além deles, Marcelo Crivella (PRB) registrou uma contratação de despesas 18% superior ao arrecadado, e Indio da Costa (PSD), de 2,72% a mais. Confira a lista completa dos candidatos do Rio que gastaram mais do que receberam:

O restante dos candidatos no Rio declarou despesas inferiores ao total disponível nos caixas de suas campanhas. Veja:

 

O QUE DIZ A LEI?

De acordo com a Resolução/TSE Nº 23.463, os candidatos são obrigados a prestar contas no sistema do Tribunal Superior Eleitoral. As informações disponíveis são de responsabilidade integral deles. Toda vez que eles recebem uma doação têm até 72 horas para registrá-la no TSE.

A prestação final de contas referente ao primeiro turno deverá ser feita até o dia 1 de novembro. Os candidatos que disputarem o segundo turno deverão prestar contas até o dia 19 de novembro.

Ainda de acordo com o TSE, eventuais dívidas de campanha são de responsabilidade dos candidatos e de seus partidos. Na prestação de contas final, os concorrentes precisam registrar a origem do dinheiro arrecadado durante a campanha e o que foi usado para cobrir as despesas. A diferença entre o arrecadado e o gasto pode vir do bolso do próprio candidato e do caixa dos partidos, que podem, por sua vez, recorrer a doações ou ao fundo partidário, por exemplo.

A Lupa procurou os candidatos com despesas superiores às receitas para que comentassem os números acima. Confira o que as campanhas informaram:

JOÃO DORIA (PSDB): “Nossa prestação de contas declarou rigorosamente os serviços efetivamente contratados para todo o período eleitoral, com os valores reais, sem qualquer fatiamento ou omissão de despesas, sendo importante registrar que o pagamento poderá acorrer após o pleito eleitoral.”

RICARDO YOUNG (Rede): ” Esta era uma previsão de gastos e há duas semanas já foram revistos e sofreram cortes, devido à baixa arrecadação.  Serviços e produtos foram suspensos antes de sua realização. Ainda está em curso um esforço de arrecadação que, acreditamos, poderá ajudar. Estamos atentos à situação e quem quiser contribuir pode fazê-lo no Voto Legal, onde está nossa planilha detalhada.”

JOÃO DO BICO (PSDC): “Existe uma falta de dinheiro em virtude de poucas doações. A dívida será quitada com recursos próprios do candidato”

CARLOS OSORIO (PSDB): “Nenhuma dificuldade. Estamos seguindo nosso planejamento com as arrecadações em andamento. E tudo será devidamente quitado.”

JANDIRA FEGHALI (PCdoB): “A campanha segue a orientação do TRE de divulgar todos os contratos firmados desde o início, reafirmando seu compromisso com a transparência. Quanto à eventual dívida após o período eleitoral, o partido assumirá e honrará este compromisso.”

FLÁVIO BOLSONARO (PSC): “Toda a campanha foi custeada com recursos do Fundo Partidário. Como se tornou público, a campanha não aceitou doações dos eleitores. O que constar como débito será totalmente custeado com recursos do Diretório Nacional do PSC.”

INDIO DA COSTA (PSD):  “Não há dívidas em nossa campanha. O fluxo de caixa da campanha acompanha a dinâmica operacional. Os compromissos com as despesas algumas vezes acontecem antes da efetivação das doações. Dificuldades para gerenciar a campanha há muitas, pela falta quase absoluta de recursos.” 

Os demais candidatos ainda não se posicionaram sobre o assunto.

Nota 1: A pesquisa da Lupa foi feita com as informações disponíveis no site do TSE entre os dias 26 e 27 de setembro de 2016. 

Nota 2: A foto que ilustra esta matéria é “Coins”, de Rodrigo Amorim, e está disponivel no Flickr.

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