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A transformação da ‘dona Marta do PT’

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
01.out.2016 | 10h30 |

Por Lucas Ferraz

Candidata à Prefeitura de São Paulo pela quarta vez, a senadora Marta Suplicy vai estrear nas urnas pelo PMDB, seu novo partido, ostentando um discurso que contraria alguns dos pilares de sua carreira política.

Prefeita de São Paulo entre 2001 e 2004 pelo PT, sigla a qual esteve filiada por mais de 30 anos, Marta tenta voltar ao comando da maior cidade do Brasil mostrando uma imagem diferente da que o eleitor paulistano tinha dela.

Em entrevista publicada no último dia 20 pelo jornal Folha de S.Paulo, Marta afirmou:

“Eu nunca me coloquei como alguém de esquerda”.

CONTRADITÓRIO

Em outubro de 2000, depois de vencer o ex-prefeito Paulo Maluf (PP) no segundo turno daquela eleição municipal, Marta fez um discurso contundente e nele declarou:

“Se trata de uma vitória de todas as forças políticas e sindicais, democráticas e progressistas contra o representante do conservadorismo de direita preconceituoso, autoritário e desonesto; o mesmo que, no passado, servia de sustentação para o regime militar e que continua, no presente, procurando preservar os privilégios de alguns”.

Naquele pronunciamento, inegavelmente à esquerda, Marta ainda disse: “O PT sai destas eleições municipais fortalecido. Este PT mais maduro e responsável, defensor ferrenho do sistema democrático e do socialismo moderno. Sim, a dona Marta é do PT”.  

No primeiro dia de 2001, ao tomar posse como prefeita da capital paulista, ela voltou a fazer referências à esquerda. Em sua fala, deixou claro o direcionamento de sua administração e revelou como seria sua relação com os governos federal e estadual de São Paulo, à época sob o comando do PSDB.

“Mesmo que a força que estrutura a nova administração (da cidade) esteja identificada com a oposição de centro-esquerda aos governos estadual e federal, procurarei, em todo o momento, fazer prevalecer a parceria e o diálogo”.  

SOBRE O PMDB

Marta tem enfrentado críticas dos adversários por seu passado no PT. Deixou o partido em 2015, quando se filiou ao PMDB, e , desde então, caiu em contradição algumas vezes ao tentar explicar as razões de sua mudança (provocada, também, pelo fato de que o atual prefeito, Fernando Haddad, pretendia tentar a reeleição pelo PT).

“Hoje, não tem um partido no Brasil que não esteja acusado de corrupção. No PMDB, vejo uma coisa diferente em relação ao PT. No PMDB, temos pessoas investigadas, não temos uma organização partidária, não é sistêmico. O PT organizou a corrupção”.

Mas as investigações da Lava-Jato já mostram que paira sobre o PMDB as mesmas sombras que rondam o PT e o PP. Seu novo partido, assim como sua velha sigla, também é investigado pela suspeita de arrecadar propina de negócios da Petrobras e lavar dinheiro no exterior. Os principais caciques do partido que abrigou Marta já são alvos da investigação, bem como os caciques do PT. Estão na mira da operação o ex-presidente José Sarney, os senadores Renan Calheiros, Romero Jucá e Edison Lobão, para citar alguns.

Marta já afirmou também que optou pelo PMDB porque o partido é “estruturado, forte e que tem, no DNA, o combate à ditadura”. Ela ressaltou que, como senadora por São Paulo, precisaria estar em uma legenda grande.

“Meus princípios, que continuam os mesmos, podem ser completamente exercidos no PMDB”.

CONTRADITÓRIO

Em 2004, no entanto, quando se preparava para a campanha à reeleição em São Paulo (que acabou perdendo), ela mantinha uma relação bem diversa com o PMDB. Em sabatina no programa Roda Vida, da TV Cultura, explicou o motivo de não ter aceitado um vice peemeebista para disputar a corrida daquele ano em sua chapa:

“Eu queria ter um vice que fosse de minha total confiança. Eu não poderia ter um vice do PMDB. Eu não teria confiança”.  

CONCESSÕES E POLÍTICA PARA DROGAS

A hoje peemedebista também aparenta ter mudado de opinião sobre algumas políticas públicas que ganharam destaque no debate político-eleitoral deste ano. Em 2000, antes de assumir a prefeitura, Marta foi veemente ao descartar a ideia de repassar à iniciativa privada órgãos municipais como o Estádio do Pacaembu, o Anhembi e o Autódromo de Interlagos. À época, discutia-se a privatização como uma maneira de aprimorar as contas do município, sufocadas, sobretudo, pela dívida pública.

“Não está em nossos planos a privatização. Isso era uma piada. Não causaria nenhum alívio na dívida de forma concreta”.  

CONTRADITÓRIO

Recentemente, ao falar à Folha de S.Paulo, Marta não descartou essa opção:

“O Pacaembu é um monumento, não tem que ser privatizado em hipótese alguma. O Anhembi, eu acho que aí cabe uma concessão. O autódromo dá para estudar, tem rendimento”.

Outra mudança de discurso relaciona-se aos programas municipais de atendimento a dependentes de crack, a chamada política de redução de danos.

Durante sua gestão como prefeita de São Paulo, Marta apoiou a realização da 1ª Conferência Municipal de DST/AIDS, que teve como resultado a criação de uma comissão homônima ligada ao Conselho Municipal de Saúde.

Dentre as várias políticas defendidas por sua equipe para evitar a disseminação da doença na cidade, estava a distribuição de seringas a usuários de drogas injetáveis (para que eles não terminassem compartilhando equipamento contaminado). Isso aparece em informativo elaborado pela prefeitura à época.

Em 2008, em mais uma entrevista sobre o assunto, Marta afirmou ser a favor da política de redução de danos. Naquele tempo, debatia-se a existência de uma possível epidemia de AIDS na cidade. Mais tarde, em 2011, ainda senadora pelo PT, Marta saudou o lançamento do Plano de Ações contra o Crack e outras drogas (programa “Crack, É Possível Vencer!”), elaborado pelo Governo Federal e contrário à política de internação involuntária. Fixava sua posição histórica.

Mas, agora, durante a campanha de 2016, Marta já anunciou que, se eleita, acabará com o “Braços Abertos”, programa que foi implementado pela prefeitura de Fernando Haddad e que é baseado no conceito da redução de danos, oferecendo reabilitação e reinserção social aos dependentes, com hospedagem, alimentação e trabalho, sem exigir deles a abstinência.

Ainda na recente entrevista concedida à Folha, Marta, que é psicóloga de formação, falou sobre o assunto e seus projetos em torno dele:

“O Braços Abertos tem que ser descontinuado. É um processo de convencimento para desintoxicação. Nós vamos trabalhar com a espiritualidade, com as organizações sociais, principalmente religiosas”.

E A TAL ‘INDÚSTRIA DAS MULTAS’

Na disputa deste ano, Marta também parece incomodada com a chamada “indústria das multas”. No horário eleitoral que foi ao ar no último dia 10 de setembro, tratou do assunto:

“Serão 15 milhões de multas até o final do ano, um aumento de 500% em relação ao período em que fui prefeita. Mas eu vou acabar com a indústria da multa e retirar todos os radares pegadinha, ou seja, metade de todos os radares serão desativados nos primeiros seis meses de governo”

DE OLHO

Em maio de 2001, em plena gestão Marta, no entanto, as multas aplicadas por radares fotográficos chegaram a quadruplicar depois que a Companhia de Engenharia de Tráfego da época reduziu a margem de tolerância dos equipamentos. As máquinas que antes aplicavam multas aos veículos que ultrapassassem em 15 km/h a 20 km/h o limite de velocidade numa determinada via passaram a apontar a infração a partir dos 10km/h de excesso. A Folha chegou a escrever que a alteração não havia sido oficialmente divulgada pela gestão Marta e que acabou provocando uma elevação de 310% na quantidade de infrações detectadas pelos radares móveis.

Vale ressaltar ainda que a proposta de redução de velocidade não consta no programa eleitoral que Marta registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O trecho que mais se aproxima do assunto sugere “fiscalização e melhora na sinalização nos polos geradores de trânsito”.

A Lupa procurou a campanha de Marta Suplicy diversas vezes ao longo do último mês, pedindo que a candidata comentasse o material, mas não obteve retorno dela até a publicação desta reportagem.

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