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Ex-cartola e empresário, Kalil tenta surfar na onda antipolítica

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
14.out.2016 | 08h00 |

**Por Lucas Ferraz

Tentando surfar na onda antipolítica que já se mostrou bem-sucedida nas eleições municipais deste ano, o ex-dirigente do Atlético-MG Alexandre Kalil ((PHS) chega ao segundo turno da disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte imerso em pelo menos uma contradição. Se por um lado diz que não é um político tradicional, por outro sua biografia mostra diversas demonstrações de participação na política local.

Seguindo a linha adotada pelo prefeito eleito de São Paulo, João Doria Jr. (PSDB), Kalil faz duras críticas à classe política e se apresenta como um empresário – o que de fato é:

“Não sou político, mas sou um gestor e gosto de ver meu povo alegre. Minha melhor recompensa era ver minha torcida alegre e, a partir do momento que acontecer alguma coisa, a torcida passa a ser o povo de BH”, declarou numa entrevista ao jornal “Estado de Minas” em março, quando já se apresentava como pré-candidato.

Meses depois, em outra entrevista, voltou a condenar o modus operandi da política ao falar de suas intenções como aspirante a prefeito de Belo Horizonte:

Posso não ter experiência política e nem quero ter. Não sou candidato a político, sou candidato a prefeito de BH. Isso não tem nada a ver com política. (…) Não tenho que ter relação política, tenho que avisar ao governo federal que isso aqui existe, avisar ao governador que preciso de ajuda. O presidente da República tem de olhar para BH. Será que é política?”.

CONTRADITÓRIO

Apesar das declarações de Kalil, seu envolvimento com a política é antigo. Ele se filiou ao PSDB em 2001 e permaneceu na legenda pelos doze anos seguintes. No período, foi um dos entusiastas e apoiadores do governo do tucano Aécio Neves em Minas Gerais (2003-10). Ao ser eleito presidente do Atlético, em 2008, Kalil também precisou fazer política para receber 67% dos votos dos conselheiros do clube.

Nas eleições de 2010, Kalil  fez campanha pelo sucessor de Aécio, Antonio Anastasia (PSDB), que acabou eleito para comandar o estado. Num dos pontos altos da campanha, apareceu numa propaganda na TV ao lado de Zezé Perrella (PTB), então presidente do Cruzeiro e hoje senador, defendendo o nome de Anastasia para o governo mineiro.

Em 2012, na disputa municipal em Belo Horizonte que reelegeu Márcio Lacerda (PSB), Alexandre Kalil, como diversos cartolas de times de futebol da capital mineira, endossou o então prefeito, destacando-o como “um dos maiores líderes políticos do país”. No evento, Kalil usava um adesivo de Lacerda no peito.

No ano seguinte, com o apoio do prefeito reeleito e do ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos, Kalil trocou de partido, incorporando-se aos quadros do PSB. A entrada na sigla abriu caminho para que ele tentasse uma vaga na Câmara dos Deputados nas eleições de 2014.

Mas a morte de Campos em um acidente aéreo, em agosto daquele ano, levou Kalil a desistir da candidatura. Uma semana depois do desastre em Santos (SP), ele convocou uma entrevista para anunciar que desistia da disputa: “Estou livre desta merda de política. (…) Quero dizer que isso me dá um alívio grande, isso me tranquiliza. Eu não nasci para ser político. Nasci para ser presidente do Atlético”, afirmou na ocasião.

Naquelas eleições, Alexandre Kalil acabou apoiando a candidatura derrotada de Aécio Neves à Presidência, assim como os candidatos do PSDB em Minas Gerais, Pimenta da Veiga, também derrotado para o governo estadual, e Antonio Anastasia, que se elegeu senador.

Kalil se desfiliou do PSB ainda em 2014, entrando no PHS em março deste ano. Ao assinar sua filiação, disse que o fazia porque “não dói e é de graça”. Agora, durante a campanha em Belo Horizonte, faz questão de ressaltar que seu adversário, João Leite (PSDB), é um homem de Aécio.

“Só estou avisando à população para ela saber que quem vai mandar é o Aécio. Como sempre mandou no PSDB. É um comunicado, vai que eles votam achando que estão votando no João Leite. É só um comunicado”, disse em entrevista.

A Lupa procurou a campanha de Kalil para que ela comentasse o teor desta reportagem, mas não obteve retorno até o momento.

* Parte desta reportagem foi publicada pelo jornal Folha de S.Paulo na edição de 14 de outubro de 2016.

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