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João Leite: da comissão de direitos humanos à polêmica com homossexuais

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
14.out.2016 | 08h00 |

**Por Lucas Ferraz

Líder na disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte, o deputado estadual João Leite (PSDB) tenta pela terceira vez administrar sua cidade. Agora, no entanto, adota um discurso conservador que contrasta – e muito – com a atuação parlamentar e política que mostrou anos atrás.

Filiado ao PSDB, o ex-goleiro do Atlético-MG notabilizou-se na década de 1990 como defensor dos direitos humanos. Entre 1996 e 2000, chegou a presidir a comissão que foi criada no Legislativo mineiro exclusivamente para debater o assunto. Depois, no entanto, assumiu um discurso mais conservador e hoje é tido como um dos mais destacados políticos da bancada evangélica de Minas Gerais.

Em março de 2011, Leite foi abertamente criticado por uma fala que fez na Assembleia Legislativa. Ao fazer um aparte no discurso do deputado estadual Vanderlei Miranda (PMDB), endossou as críticas ao chamado “kit gay”, pensado para combater a homofobia em escolas:

“Esse é um tema  que não me agrada discutir. (…) Quero criar meu filho para se casar com uma  mulher. Quero criar minhas filhas para se casarem com um  homem. É meu direito. Direito  fundamental. Está na Declaração Universal dos Direitos  Humanos. Está na nossa Constituição. Também é nosso direito ter a nossa fé, que tem um livro, a Bíblia, que combate o homossexualismo. Rasgamos a Bíblia? Rasgamos a nossa fé?  É nosso direito ter a nossa fé”.

CONTRADITÓRIO

Num debate realizado pela TV Globo antes do primeiro turno deste ano, Leite foi questionado sobre o discurso e, constrangido, mudou o tom:

“Quero dizer que tenho as minhas convicções pessoais e não abro mão delas. A minha vida inteira eu as defendi e vivi dessa maneira. Eu, como o papa, penso que todas as pessoas têm o direito de ser o que elas quiserem. (…) As minorias, LGBT, todos eles terão amparo. Serei prefeito de toda a população, sem discriminação, sem preconceito. É muito fácil pinçar de uma declaração, ou sentença, uma frase e tentar fazer que as pessoas pensem algo contrário. Penso como o papa, amo todas as pessoas”.

Há outras declarações de campanha também contrastam com a atuação de Leite no passado. Em 1999, quando presidia a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas, ele pediu a exclusão do grupo de um colega, o também deputado Washington Rodrigues (PDT), conhecido como Sargento Rodrigues. Ex-PM, Rodrigues respondia a várias acusações por violências e abusos de autoridade quando comandava a Rotam da Polícia Militar entre as décadas de 1980 e 90. Segundo João Leite, por causa de seu “currículo como policial”, ele jamais poderia fazer parte de um grupo dedicado aos direitos humanos.

Na campanha deste ano, no entanto, seu discurso partiu em direção diferente, buscando apoio dos PMs. “Segurança pública é presença policial nas ruas, é farda, é distintivo, é isso que dá uma sentimento de segurança na população e inibe a ocorrência criminal”, disse numa sabatina ao jornal mineiro “O Tempo” (9m18s).

A relação com o PT também mudou com o passar dos anos. Fez parte da primeira administração do PT em Belo Horizonte, com Patrus Ananias. Foi secretário de Esportes até 1994, quando se elegeu deputado estadual. Desde então mantém-se na Assembleia Legislativa. Em 2000, fez sua primeira campanha à prefeitura e numa entrevista concedida na época afirmou que era mais ligado ao PT do que ao PSDB.

Em 2004, João Leite lançou-se novamente à prefeitura, desta vez pelo PSB, sem sucesso. Dois anos depois, quando retornou ao PSDB e foi eleito para mais um mandato na Assembleia Legislativa, o político deu uma guinada. A partir de então, tornou-se um entusiasta das pautas conservadoras e crítico ferrenho dos governos petistas.

“O PT se desdobra para atacar os governos anteriores, do PSDB, mas o que eles têm que explicar é essa roubalheira toda”, afirmou ele em junho de 2015.

A Lupa procurou a campanha do PSDB para que Leite comentasse o teor desta reportagem, mas não obteve retorno até o momento.

* Parte desta reportagem foi publicada pelo jornal Folha de S.Paulo na edição de 14 de outubro de 2016.

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