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Presidente Temer despede-se de Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia. Foto: Beto Barata/PR
Presidente Temer despede-se de Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia. Foto: Beto Barata/PR

Os erros e os acertos de Michel Temer durante encontro da cúpula do Brics

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
18.out.2016 | 01h00 |

No último fim de semana, o presidente da República, Michel Temer, esteve no estado indiano de Goa e participou da VIII Cúpula do Brics,  grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. No encontro, falou sobre desmatamento, inflação, financiamento estudantil e muito mais. Veja abaixo o resultado das checagens da Lupa.

Na sessão plenária do encontro multilateral, o presidente Michel Temer deu destaque aos “resultados expressivos que o Brasil tem obtido na redução do desmatamento”

EXAGERADO

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), desde 2004 realmente houve uma queda expressiva no desmatamento da Amazônia Legal. No entanto, entre agosto de 2014 e julho de 2015 (último dado disponível), a curva voltou a subir. Desmatou-se 6.207 km², 24% a mais do que o observado no período imediatamente anterior. Ainda vale destacar que o dado mais recente consiste na maior taxa anual observada desde 2011, quando a destruição da Amazônia Legal foi de 6.418 km².

Procurado, o Planalto informa que o desmatamento amazônico tem registrado queda se comparado o período entre 2004 e 2015. Em 2004, ocorreu a “instituição do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal – PPCDam)“, destaca.  Além disso, “em novembro de 2015, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicou o relatório “OCDE – Avaliações de Desempenho Ambiental: Brasil 2015”, no qual menciona a redução do desmatamento no país.


Ainda na sessão plenária, Temer afirmou que “já transcorreram dez anos desde que o Brics passou a ser mais do que sigla cunhada no mercado financeiro”

EXAGERADO

Segundo informações do Itamaraty, a coordenação entre Brasil, Rússia, Índia e China (Bric) – sem a África do Sul – iniciou de modo informal em 2006, durante uma reunião paralela à abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas.

Em 2007, o Brasil assumiu a organização de um novo encontro, ainda informal e à parte da Assembleia Geral, e verificou o interesse em organizar uma reunião específica dos chanceleres do então Bric.

A primeira reunião formal do grupo aconteceu em 18 de maio de 2008, em Ecaterimburgo, na Rússia. Desde 2009, os chefes de estado e de governo do Bric se encontram anualmente. Nos últimos sete anos, ocorreram sete reuniões de cúpula, com a presença de todos os líderes do mecanismo. A África do Sul só passou a integrar o grupo em 2011, a partir da 3ª cúpula. 

Procurado, o Planalto informou que a “periodização mencionada pelo presidente da República faz referência ao início da coordenação do bloco (2006), composto na época por Brasil, Rússia, Índia e China.”


Em entrevista concedida durante a cúpula, Temer disse o seguinte:

“Nós (no Brasil) lançamos mais 70 ou 75 mil vagas para o financiamento universitário”

VERDADEIRO, MAS

Em 16 de junho, Temer e o ministro da Educação, Mendonça Filho, anunciaram a autorização de 75 mil novos contratos para estudantes junto ao Fies. Apesar disso, o número total de novos contratos liberados para serem firmados em 2016 é 20% menor frente à quantidade oferecida em 2015.

No primeiro semestre deste ano, de acordo com o Ministério da Educação, foram criadas 147.407 “bolsas”. Com as novas 75 mil, o total do ano chega a 222.407.  Em 2015, foram 278.040. Em 2014, o total foi muito maior, de 732.510

Procurado, o Palácio do Planalto informou que “a atual gestão encontrou o MEC sem recursos para novas vagas do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) para o segundo semestre de 2016 e sem orçamento para o pagamento da taxa de administração dos agentes financeiros”. Destacou que “com o apoio do presidente Michel Temer, o MEC conseguiu aporte financeiro e anunciou, em junho, a criação de mais de 75 mil vagas para o Fies, além de melhorias no programa, como o aumento do requisito da renda familiar mensal bruta, por pessoa, que passou de 2,5 para até 3 salários mínimos”.  Por fim, ressaltou que “a expansão permite que mais beneficiários de famílias que precisam do Fies possam ser atendidos dentro do programa de financiamento do governo federal”.


Em encontro privado realizado ainda no estado indiano de Goa com os chefes de estado e de governo do Brics, o presidente afirmou que “a inflação (do Brasil) tem cedido e, em setembro passado, tivemos o menor índice para o mês desde 1998”

VERDADEIRO, MAS

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), principal indicador da inflação, ficou em 0,08% em setembro, o menor valor para o mês desde 1998. Se observado o acumulado entre janeiro e setembro de 2016, a inflação chega a 5,51%, abaixo dos 7,64% observados no mesmo período em 2015. Vale ressaltar, no entanto, que o índice acumulado em 2016 é superior ao registrado de janeiro a setembro em pelo menos outros 10 anos, entre 2004 e 2014.


No mesmo encontro, o presidente citou Gilberto Freyre e disse que, “em seu (livro) ‘Sobrados e Mucambos’, (o autor) descreveu o Brasil como se fôra ‘espécie de Goa’”

VERDADEIRO

A referência feita por Temer está correta. Na obra citada (páginas 748 e 749), Freyre escreveu que “não era só ecologicamente que o Brasil, oficialmente colonizado por europeus, se aproximara de tal modo do Oriente e, através de experiências e instrumentos de cultura do Oriente, se adaptara de tal modo ao trópico, a ponto de se haver tornado, sob vários aspectos de sua organização e de sua paisagem, área indecisa entre o Oriente e o Ocidente. Área que às vezes se diria destacada antes do Oriente que do Ocidente. Espécie de Goa portuguesa em ponto grande onde o Oriente se encontrasse com o Ocidente produzindo um tipo misto de português e de cultura como a surpreendida na Índia lusitana”.

* Parte desta reportagem foi publicada na edição de 18 de outubro de 2016 do jornal Folha de S.Paulo.

(Com Marina Estarque)

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