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Checagem de dados vive período de ouro na eleição americana de 2016

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.out.2016 | 12h57 |

‘Seja quem for o próximo presidente dos Estados Unidos, ele já terá mentido publicamente e de forma descarada para todos nós aqui’. Foi com essa frase e um murro sobre a mesa que o jornalista Fabio Posada, do site ColombiaCheck, deu por encerrada a maratona de checagens que, na noite de quarta-feira (20), reuniu 25 jornalistas de todo o mundo na sede do canal de televisão Univisión, em Miami.

Até aquele momento, o grupo de fact-checkers, ou seja de jornalistas especializados em monitorar o discurso dos políticos, já havia acompanhando de perto o terceiro e último debate presidencial dos Estados Unidos. Ao longo dos 90 minutos de embate, a equipe já tinha classificado como falsas frases ditas tanto pelo republicano Donald Trump quanto pela democrata Hillary Clinton.

No confronto político sediado pela Universidade de Nevada, em Las Vegas, Trump derrapou ao falar sobre aborto, política de imigração e ao criticar as contas do Departamento de Estado na gestão de sua adversária eleitoral. Hillary, por sua vez, se equivocou ao afirmar de forma contundente que, se eleito, Trump desmantelaria a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Repetindo o que havia acontecido nos dois debates anteriores e também durante todos os encontros das primárias, na desenfreada disputa por votos, republicanos e democratas tinham mais uma vez deixado de lado a verdade – e colocado os fact-checkers para trabalhar a todo vapor.

Fact-checking, ou checagem de dados, fatos e discursos, em bom português, é uma vertente do jornalismo político que surgiu nos Estados Unidos na década de 1990, ainda durante a campanha de George Bush pai à reeleição, mas que ganhou enorme destaque na cobertura eleitoral dos Estados Unidos neste ano, graças ao fenômeno Donald Trump.

Segundo levantamento feito pela Duke University, em agosto nada menos do que 47 plataformas de checagem estavam ativas em território americano, atuando em pelo menos 22 estados. Três delas carregam reputação consolidada entre os eleitores e também entre os políticos há anos: o FactCheck.org, o Politifact.com e o Washington Post Fact Checker. Mas a expansão e o impacto desse tipo de iniciativa sobre a população já são tangíveis.

Na noite de 26 de setembro, no primeiro debate entre Trump e Hillary, o site da NPR (National Public Radio) bateu – em muito – seus recordes de audiência. Apostando nesse modelo de jornalismo que contrasta afirmações com dados públicos, a rádio mobilizou uma equipe de 20 profissionais e ofereceu uma decupagem em tempo real de tudo o que estava sendo dito no debate. Nas entrelinhas desse documento, inseriu, também em tempo real, informações sobre a veracidade das afirmações feitas por Trump e Hillary. Com direito a comentários de especialistas. De acordo com o Poynter Institute, que monitora o avanço do fact-checking pelo mundo, a transcrição final da NPR tem mais de 40 páginas, centenas de notas e já foi vista mais de 7,4 milhões de vezes até hoje.

E quem acompanha o assunto não tem dúvidas de que o chamado “ano de ouro do fact-checking” está intimamente ligado à (baixa) qualidade das afirmações de Donald Trump. Em março deste ano, por exemplo, o site The Huffington Post escalou cinco de seus repórteres para analisar as falas do republicano num evento promovido pela CNN. A conclusão foi de que, em uma hora de discurso, Trump deu nada menos do que 71 informações contendo algum grau de incorreção. “Tivemos um dado equivocado a cada 169 palavras transcritas ou 1,16 erro por minuto”, escreveu Sam Stein, editor de política da página.

E, para enfrentar a metralhadora de informações desencontradas prevista para a noite da quarta-feira (20), os checadores de Brasil, México, Colômbia, Argentina, Espanha, Guatemala, Uruguai, Peru e Costa Rica passaram dois dias na sede da Unisivión, coletando o maior número possível de dados e informações sobre os seis assuntos que haviam sido acordados pelas campanhas para serem tratados ao vivo, em Las Vegas.

Segundo as regras do debate, o âncora Chris Wallace, da Fox News, poderia questionar Trump e Hillary sobre endividamento, imigração, economia, o futuro da Suprema Corte, política internacional e também sobre suas biografias. E os 25 checadores se dividiram em pequenos grupos para se municiar.

Quando o debate começou, tinham planilhas de Excel e documentos de texto compartilhados. Haviam traçado estratégias de comunicação por mensagens internas e também contavam com o apoio de designers e ilustradores para entregar aos eleitores a melhor informação possível sobre os seis assuntos estudados. Tudo em tempo real. E assim foi feito. Ao final da noite, o Detector de Mentiras, da Univisión, havia publicado sete checagens: quatro sobre Trump (três falsas) e três sobre Hillary (uma falsa).

Mas os fact-checkers queriam mais:

“Falaram muito pouco sobre imigração”, queixou-se Jorge Cancino, um dos repórteres especiais da casa. “E olha que esse é um dos pontos mais polêmicos de Trump: o muro, a deportação, os muçulmanos… Hillary tinha que ter trazido mais dados”, acrescentou a mexicana Dulce Ramos, que trabalha para a versão em espanhol do New York Times.

“Eu acho que não usaram a palavra narcotráfico nenhuma vez em nenhum dos debates”, comentou Romina Colman, do La Nación Data, enquanto ainda revirava as transcrições dos três encontros. “Mas valeu muito a pena. Agora, estaremos de olho é na Casa Branca”, arrematou o jornalista de dados Antonio Cucho, da Univisión.

As eleições americanas acontecem no próximo dia 8 de novembro. Nos Estados Unidos, o voto é facultativo.

Essa análise também foi publicada na edição de sexta-feira (21) da Folha de S. Paulo. 

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