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Marcelo Crivella usou tribuna do Senado para defender a Igreja Universal

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
27.out.2016 | 08h00 |

Desde o início da campanha à prefeitura do Rio, o candidato Marcelo Crivella (PRB) se esforçou para deixar de lado a imagem de bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e se firmar como um político desvinculado de questões religiosas. Em ao menos duas ocasiões, ele tratou do assunto em seu horário eleitoral:  

“Eu jamais misturei política com religião”, afirmou Crivella na TV (aos 8min19seg)

FALSO

O acervo digital do Senado guarda todos os discursos proferidos por Crivella na tribuna da Casa. Nesse conjunto, existem ao menos 29 pronunciamentos em que o senador – agora candidato – misturou política e religião.

Consultando suas ações no Senado, também encontram-se ao menos 11 proposições legislativas que citam as palavras “templo”, “igreja” e “bíblia”. São projetos de lei (PL), emendas constitucionais (PEC) e requisições registradas por Crivella como senador.

OS DISCURSOS

No dia 20 de maio de 2011, Crivella fez um pronunciamento para comemorar a impressão da centésima milionésima (100 milhões) Bíblia do país. Nele, criticou a aprovação da união civil homossexual pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e disse o seguinte: “O Congresso é que deve fazer as leis, e, aqui, no Congresso, desde Rui Barbosa e daquele Cristo, daquela cruz que está ali, a Bíblia tem um papel muito importante. Nós podemos emendar a Constituição, mas não podemos emendar a Bíblia. Nem devemos. Ela tem sido a base deste país, da nossa história”.

Em 2009, Crivella criticou o projeto de lei que criminalizaria a homofobia em mais um discurso feito da tribuna do Senado. Em sua opinião, o projeto em debate poderia ferir a fé das pessoas. “É disso que precisamos, sr. Presidente (do Senado), aperfeiçoar e fazer com que esse projeto não fira a fé das pessoas. O Brasil é um país cristão, na alma do povo brasileiro existe a fé. Nós temos essa índole, essa vocação, todos nós, católicos, evangélicos, nós cremos na Bíblia, temos uma Bíblia só”.

Crivella também já usou a tribuna em pelo menos quatro ocasiões para fazer defesas públicas da Igreja Universal. Em 2009, fez um pronunciamento de “repúdio às denúncias veiculadas na imprensa sobre apropriação de dinheiro das ofertas de fiéis pela Igreja Universal”. Na ocasião, refutou o conteúdo das declarações feitas por fiéis em uma ação que corria no Tribunal de Justiça de São Paulo e que foi noticiada pelo jornal O Globo em 12 de agosto de 2009. Integrantes da Igreja acusavam o bispo Edir Macedo, tio de Crivella, de usar laranjas para ocultar patrimônio obtido com dinheiro entregue por fieis à Igreja.

No mesmo dia da publicação da reportagem, Crivella subiu à tribuna do Senado para dizer que as denúncias eram antigas e não tinham fundamento. Ao final, concluiu: “Não aguardem que, dessa vez, a interpretação seja a de dar a outra face, ficando calado… Tenho a impressão de que dar a outra face, muito mais do que a interpretação literal, significa responder mentira com verdades, calúnia com assertivas da realidade, e é isso que faremos. Hoje, o noticiário da TV Record será amplo e colocará na mídia aquilo que vai contraditar todo esse dilúvio de injúrias, infâmias, calúnias e insultos de que fomos vítimas”.

No seu primeiro mandato como senador, Crivella chegou a falar no Senado como representante da Universal. Em 11 de julho de 2005, saiu em defesa da igreja depois que o então deputado João Batista, do extinto PFL, foi flagrado no aeroporto de Brasília com sete malas que, segundo a Polícia Federal, continham R$ 6 milhões. Naquela ocasião, a Igreja Universal informou que o dinheiro era transportado para sua sede nacional, em São Paulo, local que centralizaria o pagamento de despesas (impostos, aluguéis, empregados e contas de consumo) de todos seus templos. De acordo com a PF, no entanto, na época, não foram apresentados comprovantes que sustentavam a informação.

Crivella se apresentou na tribuna como membro da igreja. “Sr. Presidente, Srªs e Srs. Senadores, venho hoje à tribuna do Senado Federal prestar um esclarecimento, não como Senador do Rio de Janeiro, mas como membro da Igreja Universal, da qual participo desde a sua fundação. Tivemos um numerário apreendido pela Polícia Federal em Brasília, em malas que transportavam ofertas de membros da igreja da região da Amazônia e da região de Brasília… É um dinheiro que é necessário à igreja, que tem despesas enormes, e envolve milhões de pessoas. Esse transporte não podia ser feito de outra maneira”.

Esse episódio também motivou o requerimento 798, firmado pelo senador, solicitando informações ao ministro da Fazenda “sobre a existência ou não de notas falsas ou seriadas no montante apreendido”. A solicitação foi arquivada em dezembro de 2005.

ATIVIDADE LEGISLATIVA

A atuação de Crivella em temas de interesse de religiosos e da igreja continuou. A proposição legislativa mais recente assinada por ele e com esse viés data de 15 de outubro do ano passado. Trata-se de uma PEC para acrescentar ao artigo 156 da Constituição “a não incidência sobre templos de qualquer culto do Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU), ainda que as entidades abrangidas pela imunidade tributária sejam apenas locatárias do bem imóvel.” A emenda já foi votada em dois turnos no Senado e aprovada. Agora tramita na Câmara dos Deputados.

Procurada, a campanha disse que “os números provam que as citações são mínimas, além do mais fazer referências não significa necessariamente “misturar” política e religião”. Confira a nota.

*Parte desta reportagem foi publicada na edição de 27 de outubro de 2016 do jornal Folha de S.Paulo.

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