A PRIMEIRA AGÊNCIA DE FACT-CHECKING DO BRASIL

Ana Pastor e Natalia Hernández no platô de El Objetivo/laSexta. Divulgação
Ana Pastor e Natalia Hernández no platô de El Objetivo/laSexta. Divulgação

‘Passei duas semanas nos bastidores do melhor programa de checagem em TV’

Fundadora | Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
23.fev.2017 | 12h30 |

São 8h55 de quinta-feira, e a jornalista Natalia Hernández viaja de pé, no trem que conecta o centro de Madrid a Fuencarral, um bairro da região norte da capital espanhola. Do lado de fora é inverno, -2 graus. As luzes seguem acesas. Hernández está concentrada, com os olhos fixos no celular. Pelo fone, escuta a entrevista que Mariano Rajoy, atual presidente do governo, dá à rádio Onda Cero, uma das mais ouvidas de seu país. Dali a três horas, ela entraria ao vivo – penteada e maquiada -no programa informativo Al Rojo Vivo, um dos mais emblemáticos do canal de TV laSexta. Falaria para uma audiência de mais de 1 milhão de pessoas e elencaria as mentiras ditas pelo governante naquela manhã.

Acompanhei Hernández naquele trem. E, por mais 15 dias, trabalhei junto com ela e com a equipe do programa El Objetivo, o único a fazer fact-checking televisivo em toda a Espanha e que hoje serve de referência mundial no assunto. Cheguei a Madrid em meados de janeiro, com uma bolsa concedida pelo Poynter Institute, e tinha como objetivo aprender a fazer checagem audiovisual. A Agência Lupa, empresa de fact-checking que dirijo desde 2015, pretende trilhar esse caminho.

AS LIÇÕES

Naquela manhã, ainda antes de chegar à redação, anotei minha primeira lição: checagem em TV requer previsão. Requer que, ainda muito cedo, toda a equipe saiba onde estarão os principais líderes políticos do país. Sem a agenda, não é possível gravar os vídeos com as declarações que serão postas à prova e, sem esses vídeos, não há matéria-prima para TV.

Às 9h15, quando chegamos ao El Objetivo, os três checadores da equipe de Hernández também ouviam Rajoy. Já tinham anotado algumas “frases suspeitas” e solicitado à equipe de documentação, que separasse as gravações contendo aquele material.

Redação do programa espanhol el Objetivo / laSexta, que faz checagem em TV Redação do El Objetivo/laSexta, em Madrid

A lição número dois foi essa. Para fazer checagem de qualidade em TV é preciso ter uma equipe de documentação – um grupo capaz tanto de gravar como também de decupar, transcrever e armazenar todo o conteúdo político dito num determinado dia. Tudo de modo facilmente identificável.

Manuela Ruiz coordena a documentação do El Objetivo. Toda manhã, seguindo a agenda política pré-determinada, ela programa o software Videoma para gravar as entrevistas e os discursos solicitados pelos checadores. O sistema, que foi criado na Espanha e está em constante aprimoramento, armazena uma sucessão de gravações de 15 minutos de duração numa pasta compartilhada por toda a redação e permite que sejam feitos cortes ainda menores nelas. O sistema de busca interna é capaz de localizar frases que vem sendo repetidas à exaustão e de facilitar recortes e montagens. Algo muito impressionante.

“FALSOS DE RAJOY”

Ana Pastor, diretora e apresentadora do El Objetivo, costuma chegar à redação pouco antes das 10h. Naquela manhã, cruzou a porta perguntando sobre os “falsos” de Rajoy. Queria notícias quentes.

Pastor é a idealizadora e a figura mais forte do El Objetivo. Tem uma carreira consolidada na televisão espanhola e é seguida por cerca de 2 milhões de usuários no Twitter. Em 2013, quando esteve nos Estados Unidos, ficou admirada com as checagens que a CNN fazia e, encantada com formato, decidiu levá-lo ao outro lado do Atlântico. O cenário político espanhol também era favorável ao fact-checking.

Em quatro meses, com o apoio de seus subdiretores, Joaquin Ortega e Itziar Bernaola, e da produtora executiva Esperanza Martin, montou uma apresentação, gravou um spot de 6 minutos e conseguiu convencer o canal laSexta sobre a importância de levar adiante a checagem política. No início de 2017, quando a conheci, Pastor regia um time de 30 jornalistas e centenas de câmeras, infografistas, editores de áudio, vídeo e muito mais. Estava muito contente com o programa El Objetivo.

Às 10h30 daquela manhã de janeiro, o fact-checker Alejandro Olvera informou ao grupo que havia conseguido pegar a primeira declaração falsa de Rajoy. Logo em seguida foi a vez de Jesús Espinosa e de Álvaro Lorenzo cantarem a mesma pedra. O trio comemorou. Naquela semana, a Espanha contemplava – horrorizada – a alta no preço da energia elétrica. E Rajoy havia mencionado dados equivocados justamente ao falar desse assunto.

O checador Alejandro Olvera em ação O checador Alejandro Olvera em ação

Hernández alertou Pastor, que fez contato com os editores de Al Rojo Vivo e conseguiu um espaço para que a checagem do El Objetivo entrasse ao vivo no canal laSexta. E a terceira lição nasceu aí: a checagem de TV começa onde a de texto, que estou tão acostumada a fazer, termina.

TV exige gráficos, vídeos bem editados e uma explicação muito clara dos fatos. Para que isso tudo funcione, é indispensável montar um roteiro preciso. Assim, enquanto a equipe do produtor Raúl Otegui se desdobrava para transformar a redação do El Objetivo num platô de TV, Hernández e Olvera corriam para transformar os “falsos” publicados no site e no Twitter do programa num produto televisivo. Certificaram-se de que o time de documentação tinha a frase exata de Mariano Rajoy e levaram aos infografistas os dados sobre energia que precisavam aparecer na tela do telespectador.

Fazer um roteiro de TV requer treino. E, para que conseguisse elaborar minha quarta lição, Hernández e Olvera listaram seus conselhos:

1- Diálogos são mais produtivos. Abaixo ao monólogo. O ideal é que, num platô de checagem televisiva, haja duas pessoas: o checador, que é quem apresenta o assunto, e um âncora, que faz o papel de cidadão comum e verbaliza possíveis dúvidas dos telespectadores.

2- O checador precisa dominar o assunto. O fact-checker é como um bom garçom: traz o prato principal, explica quais são seus ingredientes, responde a eventuais dúvidas e sai de cena com a certeza de que foi claro e preciso sobre o assunto. Nem um dado a mais, nem um dado a menos.

3- Vocabulário simples e relacionado ao tema checado. Fale de forma que as pessoas te entendam. Menos é mais.

4- Insira dados extras no roteiro. É bom que o checador tenha em mãos material extra e de alta qualidade para o caso de um gráfico não entrar na hora certa ou de uma pergunta mais difícil ser feita. Cuidado, no entanto, para não “sujar” o roteiro com extras demais. O documento é algo que estará ao alcance dos olhos num ao vivo. É uma espécie de cola. Não pode conter excessos.

5- Frases curtas. Opte por pequenos blocos de ideias curtas. Quem vê TV pode estar fazendo outra coisa ao mesmo tempo, e uma checagem só é compreensível se acompanhada do começo ao fim.

6- Repita o conteúdo checado. Nunca é demais repetir quem falou a frase checada e qual é exatamente o trecho posto em xeque. As pessoas podem ligar a TV no meio da desconstrução.

7- Roteiro em progressão crescente. Se for checar mais de um dado, opte por um gran finale. Deixe o pior falso para o fim.

8- Surpreenda com gráficos e vídeos. Busque novos formatos, cores. Saia da mesmice, sem romper a linguagem estética do programa como um todo, é claro.

9- Um dado para cada gráfico. Em vez de sobrepor informações, faça dois gráficos. Menos é mais, de novo. Indique as fontes por escrito e na fala do checador também.

10- Prefira um apresentador que tenha participado ativamente no processo de verificação. É melhor que ele tenha feito parte da equipe que trabalha diariamente para detectar verdades e mentiras.

Às 12h20 daquela quinta-feira, a equipe de produção do El Objetivo gritou “silêncio”, e Hernández entrou ao vivo. Em três minutos, explicou que Rajoy tinha dado uma entrevista à rádio e que nela havia apresentado três informações falsas. Mostrou os gráficos com os dados verdadeiros e se despediu do apresentador do telejornal com simpatia. Em média, gastou um minuto pulverizando cada mentira de Rajoy.

Perguntei a Pastor qual a chance de o Palácio Moncloa, sede do governo espanhol, ligar reclamando da checagem. Pastor riu: “Nenhuma. Eles nos ignoram. Mas já conseguimos que Rajoy corrigisse muitas de suas falas. A Espanha, por exemplo, deixou de ser o país que mais cresce na Europa, como ele sempre afirmava”.

Há quatro anos El Objetivo recebe os principais atores políticos do país para entrevistas e checagens. Rajoy nunca aceitou participar, mas passa pelo termômetro da verdade com frequência. Seus opositores também. Nos dois programas de que participei, os entrevistados foram Pablo Iglesias e Iñigo Errejón, do partido político Podemos. Suas aparições chegaram aos trending topics do Twitter.

Também perguntei a Ana por que Hernández não tinha levado ao telejornal as frases verdadeiras que haviam sido detectadas na fala de Rajoy naquela manhã, e Pastor  foi objetiva mais uma vez: “Porque isso é a obrigação dele. Eu defendo a pedagogia da mentira”. E lembrou que a TV tem grande penetração na sociedade espanhola e disse que os cidadãos precisam primeiro saber onde seus líderes estão mentindo.

Questionei sobre a falta de surpresa, já que todas as frases analisadas tendem a ser tachadas como falsas. Mas Pastor disse que não se importa. Destacou, no entanto, que não se nega a dar um verdadeiro “desde que ele, sim, seja surpreendente”.

A quinta lição de minha imersão no El Objetivo tem a ver com internet. O programa é referência mundial em fact-checking de TV, mas engatinha no que diz respeito ao digital. É verdade que, El Objetivo é um caso atípico. Começou a verificar declarações primeiro na TV e, só depois, migrou para a web. A equipe sabe que ainda há um longo caminho para percorrer no digital, mas gosta de destacar que ainda centra a maior parte de seus esforços nos conteúdos que vão ao ar nas noites de domingo. Enquanto isso, mantém o ObjetivoXtra em seu site, com informação atualizada e checagens inéditas.

Em fevereiro, o Facebook do programa tinha 59 mil curtidas. No Twitter, eram 265 mil seguidores. Pastor não tinha Facebook e, consequentemente, esta parecia ser a rede social em que menos investiam. Mas qual a lição aqui? A de que fazer checagem em TV ocupa muito tempo, exige muita atenção. Então é preciso ter dois times: um televisivo e um digital.  

Na parte da tarde, os checadores do El Objetivo começaram a planejar seu principal produto: o programa de domingo. Hernández e os três checadores conectaram o software Videoma, plugaram seus fones de orelha e passaram a escutar tudo que havia ocorrido naquela manhã. Acabaram flagrando uma informação falsa de um líder político da Andaluzia, e a roda produtiva voltou a girar.

O PROGRAMA DE DOMINGO

El Objetivo é transmitido ao vivo, às 21h25 de todos os domingos. A seção de checagem, batizada como “Prueba de Verificación” costuma acontecer no final, por volta das 22h15. Mas Pastor e Hernández já estão no platô desde as 19h. Gostam de fazer um ensaio completo do programa antes de ir ao ar. É muito importante treinar, dizem sobre a sexta lição. Juntas elas repassam o roteiro, rabiscam nele as informações que precisam ir à TV de qualquer jeito, checam a ordem dos vídeos e as informações dos gráficos. Não há espaço para erro.

O platô do El Objetivo é clean, mas salta aos olhos. Seu chão é branco, com pequenas luzes azuis. No centro há uma mesa também branca iluminada. Nela há uma tela tátil, que exibe os infográficos à medida em que as apresentadoras tocam nela. No fundo da sala, há um imenso telão onde são projetadas as principais informações checadas. “Nos inspiramos num platô francês de Des Paroles Des Acts”, disse a produtora executiva Martín. “A tela tátil é um pedido meu”, acrescentou Ana, que nem sequer toca nela.

Esperanza Martín e Natalia Hernández ensaiam no platô Martín e Hernández ensaiam no platô

Na noite de 29 de janeiro, o roteiro ensaiado por Pastor, Hernández e sua equipe tinha umas 10 páginas e previa 42 extras – vídeos, gráficos, animações… Eram 15 a mais do que no roteiro que o time havia deixado “pronto” na sexta-feira à noite. E 14 a menos do que efetivamente acabou sendo exibido naquele dia. “Uma coisa é o roteiro. Outra é o que vai realmente ao ar”, ponderou Hernández. E é Pastor quem decide, do platô, usando o grupo de WhatsApp do programa, o que fica e o que cai da grade.

Perguntei a Pastor sobre o que chamei de “desperdício”. Ela negou, elencando a sétima lição: “na TV você precisa ter gordura, material extra. Qualquer coisa pode acontecer, menos o jornalista ficar na mão, sem conteúdo de qualidade”.

Além do Prueba de Verificación, El Objetivo ainda tem outras três seções com cara de fact-checking. Maldita Hemeroteca, de Clara Jiménez, mostra vídeos em que as personalidades se contradizem. Sé lo que hicistéis con el último contrato, de Inés Calderón, acompanha o andamento de obras públicas. E Pacto Check, de Miriam Ruiz, mostra a evolução de promessas políticas. Não é todo domingo que as quatro seções aparecem – depende do tempo que sobra no programa após as entrevistas de Pastor.

Mas, afinal, como começar a fazer checagens em vídeo? O subdiretor Joaquin Ortega não hesita: ensaiando na internet. Num dos meus últimos dias na redação do El Objetivo, Ortega me mostrou vídeos que considera de boa qualidade e foi taxativo ao dizer que não é necessário contar com muita tecnologia para começar a gravar. “Aì estão os Youtubers. O que precisa é sair da inércia”. Ortega costuma acompanhar as postagens do Vox e do Playground. Oitava lição. Inspire-se naquilo de que você já gosta. E Pastor completou: “Não precisa ter alguém de TV. Precisa ter jornalista bom no time”. Nona lição.

A décima lição é a seguinte: se você pretende fazer checagem na televisão, se preocupe em fazer um bom benchmark com aqueles que já estão no meio, exatamente como fiz com El Objetivo. Isso é um passo importante rumo ao sucesso. Na Lupa, estamos organizando uma unidade de TV. Em 2018, o Brasil terá eleições presidenciais, e os brasileiros precisarão desse serviço a seu alcance. A passagem pelo El Objetivo só contribui para isso.

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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