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Dilma minimiza dívida de campanha e diz ter agido contra cartel. Checamos

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
05.abr.2017 | 07h00 |

Em entrevista publicada pelo jornal Folha de S.Paulo na terça-feira (4), a ex-presidente Dilma Rousseff falou sobre a delação do empresário Marcelo Odebrecht, preso na Operação Lava-Jato, e sobre o julgamento que ela e o presidente Michel Temer deverão enfrentar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ambos são acusados pelo PSDB de abuso de poder econômico e político durante as eleições de 2014. Veja abaixo o grau de veracidade de algumas das falas de Dilma:

“Em 2009 eu tive um câncer e sequer era candidata à Presidência”

VERDADEIRO, MAS

Dilma Rousseff realmente só foi confirmada candidata do PT à Presidência da República na convenção que o partido realizou em junho de 2010. Mas sua pré-campanha começou bem antes, com o respaldo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em abril de 2009, Dilma era ministra da Casa Civil e iniciou tratamento contra um câncer no sistema linfático. Naquele mesmo mês, no entanto, em entrevista à Rádio Globo, Lula manifestou a intenção de lançá-la candidata nas eleições do ano seguinte. Ainda no mesmo mês, Dilma e Lula foram a Manaus e, nesse evento, o ex-presidente voltou falar da ministra como possível candidata presidencial. Vale ressaltar que a lei eleitoral proíbe campanha extemporânea.


“Terminamos a eleição de 2010 com uma dívida de R$ 10 milhões”

DE OLHO

De acordo com a prestação de contas apresentada pela candidatura de Dilma Rousseff ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2010, sua campanha arrecadou R$ 135,53 milhões e gastou R$ 153,09 milhões. A diferença – ou seja a dívida – foi de R$ 17,5 milhões, quase o dobro do que a ex-presidente afirmou na entrevista.

A assessoria de Dilma reconhece o erro. Diz que a ex-presidente “falou o montante de memória”, mas que o fato de a dívida de campanha ser maior do que o citado só reforça sua posição. “Por que a campanha de 2014 não usaria os supostos R$ 50 milhões diante de uma dívida de R$ 17,5 milhões?”.


“As doações oficiais (da Odebrecht) eram R$ 29 milhões, ou 9% do total que arrecadamos (em 2014)”

VERDADEIRO

Os dados registrados no TSE pela campanha da ex-presidente Dilma Rousseff à reeleição mostram que, em 2014, sua chapa arrecadou R$ 350,5 milhões. Desse total, a empreiteira Odebrecht respondia por R$ 29,5 milhões (doados em 14 parcelas). Esse montante equivale a 8,4% de tudo que foi arrecadado.


“Um empresário começou a dizer que estava muito difícil participar do leilão (da usina de Santo Antônio) porque havia uma espécie de cartel organizado pelo senhor Marcelo Odebrecht. Eu fui averiguar. E havia um processo de cartelização. Chamada a direção de Furnas [que participou do consórcio], isso foi imediatamente resolvido”

DE OLHO

Dilma fala da construção da usina hidrelétrica de Santo Antônio, no Complexo do Rio Madeira (RO), e alega que foi a entrada das Centrais Elétricas S.A (Furnas) no consórcio ou uma interferência sua junto à diretoria dessa empresa que “resolveu” o problema da suposta cartelização.

Documentos disponíveis no portal da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) referentes a esse leilão mostram, no entanto, que Furnas e Odebrecht integravam o mesmo consórcio desde o momento em que se inscreveram na disputa, em novembro de 2007. E não há nenhum registro público sobre a interferência de Dilma junto à direção de Furnas para impedir que houvesse um cartel na disputa pela usina de Santo Antônio.

A assessoria de imprensa de Dilma diz que a ação da ex-presidente “ocorreu antes dos leilões e, portanto, antes dos consórcios serem registrados”. Acrescenta que Dilma teria conseguido a anulação de um documento que beneficiaria a Odebrecht e Furnas naquele leilão ao impedir que outras empresas controladas pela Eletrobras pudessem participar dele, integrando outros consórcios.

*Esta reportagem foi publicada na edição impressa do jornal Folha de S.Paulo no dia 5 de abril de 2017.

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