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‘Pesquisa da OIT diz que 52% das mulheres já sofreram assédio no trabalho’?

| Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
07.abr.2017 | 12h00 |

Desde a segunda-feira (3), as atrizes da Rede Globo iniciaram a campanha  #mexeucomumamexeucomtodas, em solidariedade à figurista Su Tonani, que contou ter sido assediada pelo ator José Mayer durante as gravações da novela “A Lei do Amor”. Após a pressão pública, Mayer fez uma carta na qual admitiu o erro e se desculpou por suas “brincadeiras machistas”.

Assim que a campanha ganhou as ruas e as redes sociais, diversas pessoas se pronunciaram sobre o assunto, citando uma série de dados. A Lupa resolveu conferir o grau de veracidade de alguns deles. Veja a seguir:

“Segundo a OIT, em todo mundo, 52% das mulheres já sofreram assédio sexual”

INSUSTENTÁVEL

Essa informação vem sendo amplamente divulgada no Brasil. Há notícias contendo esse dado desde o fim de 2012, em páginas estatais, projetos de lei e requerimentos oficiais. Nessas notícias, os 52% ora diziam respeito a todo o mundo, ora apenas ao Brasil, ora vinham sem qualquer demarcação geográfica. O dado, no entanto, não aparece na base de dados pública mantida pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A Lupa procurou a OIT e foi informada pela assessoria de imprensa da entidade que a informação (sobre os 52%) não procede e que não existe nenhuma pesquisa da OIT nesse sentido.

Em 2005, a organização publicou um relatório sobre ações feitas para combater mundialmente o assédio sexual no trabalho. O documento, porém, não traz dados que quantifiquem o número de denúncias desse tipo realizadas em todo o mundo. A organização ressalta ainda a dificuldade de chegar a esse dado, devido à grande subnotificação.

Além disso, em 2007, a OIT fez  uma declaração de princípios e direitos fundamentais no trabalho. Nesse breve documento, há um tópico chamado “fatos-chave” que descreve que de 40 a 50% das mulheres da União Europeia afirmaram – à época – que haviam sido vítimas de assédio sexual no trabalho. O documento, porém, não menciona a fonte da pesquisa.

A informação pública mais próxima à compartilhada nas redes sociais nos últimos dias foi localizada é uma pesquisa da Trade Union Congress. De acordo com essa fonte, em 2016, um estudo apontou que 52% das mulheres do Reino Unido – e não do mundo todo nem do Brasil – afirmaram ter sido vítimas de assédio sexual no trabalho.


“No Brasil, 77% (das mulheres) já sofreram algum assédio sexual”

VERDADEIRO, MAS

Os dados constam na pesquisa #Meninapodetudo: Machismo e violência contra a mulher, da ONG Énois Inteligência Jovem em parceria com os Institutos Vladimir Herzog e Patrícia Galvão, realizada em 2015.

O estudo, no entanto, foi produzido exclusivamente sobre a violência sofrida por mulheres jovens da periferia, com idades entre 14 e 24 anos e membro das classes C, D e E.

Das 2.285 entrevistadas em 370 cidades brasileiras, 77% relataram ter sofrido algum tipo de assédio sexual físico na rua, no transporte público, em passeios ou em festas. Desses episódios, 72% ocorreram com desconhecidos.

Os dados foram apresentados no 1º Seminário Internacional Cultura da Violência contra as Mulheres, em 2015, organizado pelos institutos e a ONU Mulheres.


“26% dos homens acham que mulher pede pra ser estuprada”

VERDADEIRO, MAS

O gráfico 24 da pesquisa “Tolerância social à violência contra as mulheres”, divulgada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em abril de 2014, aponta que 26% dos entrevistados concordam parcial ou totalmente com a afirmação “mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. O estudo revela ainda que 58% dos entrevistados concordaram, total ou parcialmente, com a frase “se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”. Mas vale ressaltar que na pesquisa foram ouvidos homens e mulheres – e que a frase fala apenas em homens.

*Hellen Guimarães sob a coordenação de Juliana Dal Piva

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A Agência Lupa é membro verificado da International Fact-checking Network (IFCN). Cumpre os cinco princípios éticos estabelecidos pela rede de checadores e passa por auditorias independentes todos os anos

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VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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