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Imagens Justiça Federal do Paraná
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De olho nas declarações de Lula e Sergio Moro em Curitiba

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
19.maio.2017 | 19h38 |

Na semana passada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva prestou depoimento ao juiz Sergio Moro como parte do processo que ele responde na Justiça Federal do Paraná. O Ministério Público Federal acusa Lula de ter adquirido um apartamento triplex no Guarujá com a ajuda da empreiteira OAS, numa transação envolvendo propina e troca de favores. O ex-presidente nega.

A Lupa passou os últimos dias conferindo frases do depoimento – que durou mais de quatro horas – e contrastando esse conteúdo com informações públicas. Veja o resultado abaixo:

LULA:

“Eu não participei de nenhuma reunião do PT desde que fui eleito presidente da República, em 2002”

FALSO

Enquanto era presidente, Lula participou de dois Congressos Nacionais do partido. De acordo com o site da legenda, esses eventos servem para que a sigla tome “decisões programáticas ou estratégicas de mais longo prazo”, estabeleça rumos.

Um dos dois congressos de que Lula participou como presidente ocorreu entre os dias 31 de agosto e 2 de setembro de 2007, em São PauloO ex-presidente foi à reunião e discursou sobre seu governo. De acordo com o documento oficial divulgado em seguida, Lula prometeu que não daria “palpite sobre sua sucessão, para o bem ou para o mal”. O evento também foi acompanhado pela Folha de S.Paulo

O segundo congresso de que Lula participou como presidente ocorreu em Brasília, entre os dias 18 e 20 de fevereiro de 2010. Nele, Lula defendeu a candidatura à Presidência da então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. No ato, disse: “o que vai convencer de verdade as pessoas a votarem na companheira Dilma Rousseff será o processo daqui pra frente, o trabalho dela, os debates, as alianças políticas (…) há um sem número de coisas que vão quebrar o preconceito apontado com relação à companheira Dilma”.

Documentos da Fundação Perseu Abramo, criada pelo PT, também mostram a presença de Lula em outras reuniões da legenda. Entre elas, a abertura do 13º Encontro Nacional, realizado em 2006 em São Paulo.

Procurado para comentar, o Instituto Lula disse que “participações em eventos do partido não é a mesma coisa que participar de reuniões da executiva ou do diretório do partido, que acontecem regularmente.  O ex-presidente fez participações públicas em eventos pontuais e maiores do partido”.


MORO:

“Senhor presidente, quem se baseia nas informações da imprensa é o senhor”

CONTRADITÓRIO

O magistrado cita notícias de jornal em quatro momentos diferentes do interrogatório de Lula. Em dois deles, o tema é o tríplex. Em outros dois, o juiz federal quer detalhes da indicação de Paulo Roberto Costa para a Petrobras.

No primeiro momento, depois de 1h36’24” de depoimento, Moro diz:

“Consta uma matéria de jornal que foi juntado… essa matéria da Folha de São Paulo, em 29/2/2014, diz o seguinte: ‘o ex-presidente Lula estuda vender o triplex no Guarujá, que adquiriu em 2005 com a mulher, Marisa Letícia, num prédio construído pela Bancoop. Segundo interlocutores do ex-presidente, a repercussão de reportagem sobre seu apto fez com que Lula reavaliasse a efetivação da compra do imóvel (…) O sr. ex-presidente sabe explicar o conteúdo dessas informações que teriam sido passadas ao jornalista”?

O segundo momento ocorre depois de 1h39’ de depoimento:

“Consta também no processo uma matéria do jornal O Globo de 10 de fevereiro de 2010 na qual se afirmava naquela época, e aqui abro aspas, ‘a família Lula da Silva deverá ocupar a cobertura triplex, com vista para o mar, relativamente a esse triplex no Guarujá.’ O senhor saberia me explicar como a jornalista, em 2010, poderia afirmar que a cobertura seria do ex-presidente?

A terceira referência à imprensa é feita depois de 2h8’55” de depoimento:

“Há diversas notícias que foram juntadas pelo MP no processo que a pauta da Câmara dos Deputados estava trancada em abril de 2004, por obra da oposição e por apoio de partidos como o PP, que estariam insatisfeitos pela falta de nomeação para os cargos prometidos.”

A quarta ocorre a 2h9’24” do depoimento:

“Há uma informação também juntada em notícia pelo MP que nessa época, abril de 2004, o sr. teria recebido diversos políticos em um churrasco na Granja do Torto, e tomado um café da manhã com 35 dos 53 deputados do PP.”


LULA:

“Só houve um momento em que um presidente ganhou uma eleição sozinho, foi o presidente Sarney, em 1985”

FALSO

José Sarney nunca disputou uma eleição para presidente como cabeça de chapa. Em 1985, foi candidato à vice na chapa de Tancredo Neves, numa eleição indireta feita pelo Colégio Eleitoral, grupo formado no Congresso Nacional para escolher o sucessor do general João Figueiredo. Sarney só assumiu a Presidência da República após a morte de Tancredo. O Colégio Eleitoral só confirmou o vice no cargo depois disso.

Procurado para comentar, o Instituto Lula reconheceu que de fato não houve eleição em 1985. Disse que “foi um equívoco de memória que reforça ainda mais o ponto argumentado pelo presidente. Em todas as eleições, os candidatos a presidente foram obrigados a fazer alianças políticas”.


MORO:

“Eu decretei a prisão do Alberto Youssef”

VERDADEIRO, MAS

O juiz de fato prendeu do doleiro Alberto Youssef na primeira etapa da Lava Jato, ocorrida em março de 2014. Por conta dessa operação, Youssef recebeu nove condenações que juntas somam 122 anos de reclusão. Mas também foi Moro que autorizou sua prisão domiciliar em novembro de 2016, devido ao acordo de delação premiada.

Na decisão, Moro escreveu que “Alberto Youssef foi condenado por diversos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Deveria permanecer preso por vários anos considerando sua elevada culpabilidade. Entretanto, forçoso reconhecer que colaborou significativamente com a elucidação de vários casos criminais no âmbito da assim chamada Operação Lava Jato e igualmente para outras investigações criminais”.


LULA:

“Faz dois meses que a Bancoop foi absolvida, o Vaccari foi absolvido”

VERDADEIRO, MAS

Em 9 de abril deste ano, a juíza Maria Priscilla Ernandes Veiga Oliveira, da 4.ª Vara Criminal da Capital de São Paulo, realmente emitiu uma sentença absolvendo o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, o ex-executivo da OAS Léo Pinheiro e mais dez pessoas acusadas pelo Ministério Público de São Paulo de estelionato no caso Bancoop.

A magistrada justificou a decisão, afirmando que a comprovação do crime não havia ocorrido. “Não há a minúcia necessária, tão somente alegações vagas, o que não pode ser aceito para prosseguimento de um feito criminal”, escreveu a juíza no texto.

O caso, no entanto, parece longe do fim. Na terça-feira (16), o MP-SP entrou com uma apelação no Tribunal de Justiça do estado, recorrendo da decisão de Ernandes. 


LULA:

“Veja que o Vacari é tesoureiro do PT há pouco tempo. Tivemos vários tesoureiros na história do PT”

VERDADEIRO, MAS

Dados do Partido dos Trabalhadores mostram que João Vaccari Neto ocupou o cargo de tesoureiro entre 2011 e 2015 – há dois anos. Foi substituído por Márcio Macedo, que assumiu em 17 de abril.

Mas, desde 2000, o PT teve quatro tesoureiros: Delúbio Soares (de 2000 a 2005), Paulo Ferreira (de 2006 a 2010), Vaccari Neto e, agoraMacedo.

Vale destacar, no entanto, que, desses quatro, três já foram presos: Delúbio Soares foi  condenado no processo do Mensalão e na Lava Jato. Já Paulo Ferreira foi preso no ano passado na Operação Custo Brasil. Vaccari segue preso pela Lava Jato.

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A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
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EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
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A informação está comprovadamente incorreta
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