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Crivella: ‘Nos últimos 5 anos, cada escola de samba recebeu R$ 1 milhão’. Será?

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
21.jun.2017 | 11h30 |

O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, chega ao sexto mês de sua administração imerso numa polêmica sobre o financiamento do carnaval. Nos últimos dias, anunciou que faria um corte de 50% nos repasses feitos às escolas de samba do Grupo Especial e foi alvo de críticas.

Ao mesmo tempo, mantém no ar uma série de anúncios oficiais sobre seu primeiro semestre na Prefeitura do Rio. A Lupa analisou algumas frases sobre isso. Veja abaixo:

Em coletiva concedida na última terça-feira (20), em São Paulo, o prefeito Marcelo Crivella comentou o assunto e disse o seguinte:

Nos últimos cinco anos, com exceção do ano passado, [o carnaval] recebeu R$ 1 milhão por escola”

FALSO

Dados oficiais disponíveis para consulta no Portal da Transparência do município do Rio de Janeiro mostram que, há dois anos, a prefeitura repassa às escolas de samba valores que superam a cifra de R$ 1 milhão.

O Rio Transparente indica que, em 2016, cada uma das doze escolas do Grupo Especial recebeu R$ 1,5 milhão da Empresa de Turismo do Rio de Janeiro (Riotur). No ano anterior, em 2015, havia sido R$ 1,9 milhão. 

Na série histórica, ainda é possível constatar que, em 2013 e 2014, o repasse feito a cada agremiação foi de R$ 900 mil. Já a consulta relativa a 2012 não está disponível no Rio Transparente da mesma forma que as demais. Não é possível esmiuçar os valores destinados a cada escola.

Em nota, a Riotur reconhece que, em 2015 e em 2016, os repasses feitos pela prefeitura a cada uma das escolas de samba superaram R$ 1 milhão. Destaca, no entanto, que esse foi o valor destinado pelo município às agremiações durante todo o mandato do ex-prefeito Cesar Maia e que se estendeu por seis dos oito anos da gestão Eduardo Paes.

Confira os valores repassados pela prefeitura em 2013 (aqui e aqui), 2014 (aqui e aqui), 2015 (aqui e aqui) e 2016 (aqui e aqui).


Numa coletiva dada na segunda-feira (19), Crivella disse que não está quebrando a promessa que havia feito sobre o carnaval durante a campanha eleitoral:

“Na época da campanha, eu disse que nós iríamos aplicar os recursos dos últimos anos”

CONTRADITÓRIO

Em entrevista concedida à revista Veja Rio em 17 de setembro de 2016, Crivella foi questionado sobre o assunto. A reportagem perguntou: “A prefeitura subvenciona parte do orçamento das escolas de samba do Grupo Especial. Esse modelo é o ideal? Qual a sua proposta para o Carnaval carioca?”. E Crivella respondeu: “Não se mexe em time que está vencendo. O modelo vem dando certo e, graças a ele, fazemos o maior espetáculo do planeta. Gera empregos e movimenta a economia criativa. Vou manter o apoio aos desfiles e democratizar o patrocínio aos blocos de rua”.

A mesma posição já havia sido fixada por ele em nota enviada à CBN dias antes. Nela, Crivella afirmou que pretendia “continuar apoiando as escolas diretamente” e que também ajudaria “na busca de patrocínio privado” para o carnaval do Rio.

Também vale lembrar que, em busca de apoio no setor, o então candidato participou de pelo menos um encontro com carnavalescos e chegou a puxar o samba “Festa Para um Rei Negro – Pega no Ganzê”. Nesse encontro, quando Regina Celi, presidente do Salgueiro, perguntou se ele acabaria com o carnaval, Crivella foi enfático e enalteceu a festa carioca.

Por fim, uma consulta ao programa de governo que a campanha do PRB registrou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que, no papel, o candidato prometia “manter o apoio da prefeitura aos desfiles das Escolas de Samba”.

Agora, no entanto, o prefeito Crivella anuncia que o repasse sofrerá um corte de 50%.

Procurada, a Riotur disse que “o carnaval é importante para a cultura e a economia da cidade” e que “apenas ajustou a contrapartida para a atual realidade dos cofres públicos, quando diversos reajustes estão em curso para atender a setores prioritários como saúde e educação”.


Em meio à polêmica do carnaval, a prefeitura publicou algumas propagandas sobre suas atividades nos seis primeiros meses de gestão e também sobre como anda a cidade. Num desses anúncios, afirma-se o seguinte:

“Compromissos assumidos no passado estão fazendo com que, hoje, a Prefeitura do Rio tenha R$ 5 bilhões a menos para investir no social”

EXAGERADO

De fato, o prefeito Marcelo Crivella tem menos dinheiro para investir do que tinha a gestão Eduardo Paes em 2016, mas o valor não chega ao total mencionado por ele. O orçamento aprovado a cidade do Rio no ano de 2017 foi de R$ 29,5 bilhões, R$ 1,3 bilhão (4%) a menos do que os R$ 30,8 bilhões aprovados para  2016. Esse total está longe dos R$ 5 bilhões citados na frase analisada.

Dentro dos orçamentos, estão fixados os “investimentos” que devem feitos pela prefeitura em cada ano. Ao analisar esse item específico, também se constata um retração –  mas não tão grande quanto a apontada por Crivella.

Em 2016, Eduardo Paes teve R$ 5,2 bilhões destinados a “investimentos” em todas as áreas de seu governo. Crivella possui agora R$ 2,1 bilhões. A diferença, portanto é de R$ 3,1 bilhões.

Se analisada apenas a área de Assistência Social, por exemplo, o valor foi de R$ 18,3 milhões no ano passado para R$ 6,6 milhões agora – numa retração de R$ 11,7 milhões.

A prefeitura não comentou esta checagem.


Ainda na propaganda oficial, a Prefeitura do Rio falou sobre o enxugamento da máquina:

“[O prefeito] Reduziu o número de secretarias de 26 para 11”

VERDADEIRO, MAS

Segundo a última edição do Diário Oficial da gestão Eduardo Paes, a cidade tinha 21 secretarias e cinco “secretarias especiais”. Seriam, portanto, 26 no total.

Hoje em dia, o site da Prefeitura lista 11 secretarias municipais e uma especial, a de Relações Institucionais. No Diário Oficial, nem existe essa distinção. Seriam, então, 12 – e não 11, como afirma a propaganda.

*Parte desta reportagem foi publicada na edição impressa do jornal Folha de S.Paulo no dia 22 de junho de 2017.

folha crivella chuva

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VERDADEIRO
A informação está comprovadamente correta
VERDADEIRO, MAS
A informação está correta, mas o leitor merece mais explicações
AINDA É CEDO PARA DIZER
A informação pode vir a ser verdadeira. Ainda não é
EXAGERADO
A informação está no caminho correto, mas houve exagero
CONTRADITÓRIO
A informação contradiz outra difundida antes pela mesma fonte
SUBESTIMADO
Os dados são mais graves do que a informação
INSUSTENTÁVEL
Não há dados públicos que comprovem a informação
FALSO
A informação está comprovadamente incorreta
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