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Reprodução TV Globo
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Registros oficiais sobre visitas a Sérgio Cabral na prisão contêm erros

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
23.jun.2017 | 05h20 |

Os registros que a Secretaria Estadual de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro (Seap) mantêm sobre visitas feitas ao ex-governador Sérgio Cabral na prisão contêm erros. E o coronel Erir Costa Ribeiro, atual secretário de Administração Penitenciária, reconhece essas falhas.

Segundo documentos oficiais obtidos pela Lupa, junto à Seap, por meio da Lei de Acesso à Informação, dois deputados estaduais do PSOL – Marcelo Freixo e Flavio Serafini – teriam visitado Cabral quando ele estava em Bangu 8. Freixo, às 9h25 do dia 31 de março. E Serafini, no dia 15 maio, sem horário.

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Procurados, os dois deputados estaduais negaram com veemência os encontros. O advogado Rodrigo Roca, que atende o ex-governador preso em decorrência da Operação Lava Jato no Rio, também desconhece que Freixo e Serafini tenham feito essas visitas a Cabral.

Freixo chegou a encaminhar um ofício à Seap, questionando a inclusão de seu nome na lista de visitantes de Cabral. No dia em que, de acordo com o documento, ele teria estado com o ex-governador preso, o deputado de fato esteve no Complexo Penitenciário de Gericinó. Como presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Freixo acompanhou os integrantes do Mecanismo Estadual de Combate à Tortura em uma visita a quatro unidades que integram o complexo – não aquela em que Cabral estava. Esse dado é corroborado por membros do Mecanismo.

Serafini, por sua vez, afirmou, por nota, que esteve em Bangu 8, mas para “conversar com o diretor [do local] sobre a situação de um preso com problemas psiquiátricos”. O deputado sugeriu que imagens das câmeras internas do próprio presídio podem confirmar que ele não esteve com Cabral.

“Eu desconheço isso [essas visitas]”, disse o advogado do ex-governador, por telefone. “Não sei sobre isso, não”.

Diante do conflito de informações, a reportagem procurou a assessoria de imprensa da Seap e foi informada de que a pasta não comentaria as contestações feitas aos documentos oficiais divulgados pelo órgão via Lei de Acesso. Também afirmou que, até a tarde de quarta-feira, ainda não havia recebido o ofício protocolado por Freixo, demandando explicações.

O secretário estadual de Administração Penitenciária, coronel Erir Costa Ribeiro, por outro lado, reconheceu o erro nos documentos oficiais da pasta em um mensagem enviada pelo celular. Num texto enxuto, disse que os deputados do PSOL “só foram na unidade [Bangu 8], mas não tiveram contato com os presos”.

O nome que mais se destaca na lista de Cabral é o do deputado federal Marco Antônio Cabral (PMDB), primogênito do ex-governador. Entre novembro e maio, ele esteve 43 vezes com o pai – 22 vezes fora dos horários permitidos pela Seap. O peemedebista alegou, por nota, que suas visitas respeitaram as regras do presídio e da prerrogativa parlamentar.

SOB SUSPEITA

Também há questionamentos com relação aos registros oficiais de visitas feitas a outros presos da Operação Lava Jato no Rio. Verônica Fernandes Vianna é mulher do ex-secretário estadual de Saúde Sérgio Côrtes, preso em 11 de abril por acusações envolvendo desvios de verba pública no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO). Ela aparece, porém, nos documentos da Seap como “esposa” de Sérgio de Castro Oliveira, a quem teria visitado nos dias 17, 20 e 27 de maio. “Serjão” foi preso em 26 de janeiro, apontado como um dos primeiros operadores financeiros de Cabral e do empresário Eike Batista.

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O advogado Gustavo Teixeira, que atende a Côrtes e Verônica, afirma que ela só esteve em Bangu 8 para ver seu marido – e não “Serjão” – e que sua carteira de visitação só dá acesso ao preso Sérgio Côrtes.

As falhas detectadas pela Lupa nos registros da Seap se somam aos problemas revelados pela TV Globo em 28 de maio. No fim do mês passado, uma reportagem mostrou que duas páginas do livro de controle de visitas do presídio onde o ex-governador e outros presos da Lava Jato no Rio estavam detidos haviam sido arrancadas.

Vera Lúcia Alves, membro do Mecanismo, explica como são feitos os registros de visitantes nos presídios do Rio, normalmente assinados pelo próprio visitante: “Cada unidade tem seu inspetor, seus livros [de visitação] e quem entra em um anota num livro. Quem entra em outro anota em outro livro. Você não tem como ir de um lugar para o outro sem sair e entrar de novo”. 

*Esta reportagem foi publicada na edição impressa do jornal Folha de S.Paulo no dia 23 de junho de 2017.

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