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Quanto custa blindar a escola onde morreu a menina Maria Eduarda?

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
24.jul.2017 | 10h30 |

US$ 15 mil. Este é o valor aproximado que custaria aos cofres da prefeitura do Rio de Janeiro importar material e blindar o muro da escola municipal Daniel Piza, em Acari. Foi lá que a menina Maria Eduarda Alves, de 13 anos, foi morta após levar um tiro enquanto participava da aula de Educação Física, no pátio do colégio, em março. A tragédia fez o prefeito Marcelo Crivella prometer que iria blindar as escolas cariocas e anunciar que o material já estaria encomendado . “Vou fazer o muro nas escolas assim que chegar a argamassa especial que é importada e que já foi pedida, afirmou Crivella. 

FALSO

Três meses depois do anúncio, porém, o portal da Transparência da Prefeitura não registra nenhuma compra do tipo. Teria a ideia desaparecido em meio à comoção? Em entrevista à Lupa, o secretário de Conservação e Meio Ambiente do Rio, Rubens Teixeira, afirmou que o “processo de compra do material é complexo” e que as negociações pela compra começaram “a partir do momento em que o prefeito Marcelo Crivella deu a ordem”.

Mas a única empresa do mundo que produz o material, segundo a própria prefeitura, é a Gigacrete, e lá não consta nenhum pedido. O presidente da empresa, Michael Johnson, contou à Lupa que, de fato, o gabinete de Crivella enviou um email no mês de abril solicitando um orçamento. Mas foi só. “Nós calculamos os custos de transporte, importação, demos toda a estrutura de preços, mas até agora nada foi comprado”, afirmou Johnson.

A ideia de blindar os colégios já tinha sido lançada antes mesmo da morte de Maria Eduarda. O secretário municipal de Educação, César Benjamin, anunciou a intenção de usar a argamassa especial nos muros de 45 escolas que ficam na região do Complexo da Maré, na Zona Norte.

Um investimento que pode não sair nada barato. Segundo a Gigacrete, o metro quadrado do material custa em torno de 100 dólares. No caso da escola de Maria Eduarda, cujo muro tem cerca de 50 metros de comprimento por 2 metros de altura, a blindagem custaria em torno de 10 mil dólares – fora os custos com a importação, que, segundo a empresa, giram em torno de 5 mil dólares. Se as 45 escolas usassem a mesma quantidade de argamassa, esse total pode ultrapassar 2 milhões de reais.

De acordo com a Gigacrete, o material solicitado pela prefeitura do Rio é uma massa moldável, que seria misturada aos muros. A secagem demoraria até 14 dias – tempo para que a blindagem funcione plenamente. De acordo com Johnson, escolas dos Estados Unidos e Canadá já compraram esse material. “Nós temos pedidos de diversos países, não apenas para tornar escolas à prova de bala, mas para blindar estações de trem e instalações nucleares, por exemplo”, afirmou.

O secretário de Conservação do Rio, Rubens Teixeira, defende o gasto. “A prefeitura procura benefícios fiscais para que esse material saia 50% mais barato. Quem tem dinheiro blinda seu carro, a porta da sua casa. Em um momento de tiroteio, crianças não sabem se defender. E nessa hora, quem é que defende essas crianças? O poder público”, sustentou.

Desde a campanha eleitoral de 2016, a segurança nas escolas é um tema para Crivella. Só que, naquela época, a proposta não era para blindar os colégios, mas “garantir, até o final de 2017, a presença de pelo menos um guarda municipal nas unidades de ensino”, a começar pelas áreas mais violentas da cidade. O registro foi feito no próprio programa de governo do agora prefeito.

O município do Rio possui 7.500 guardas e 1.537 escolas, mas até o momento não há qualquer plantão fixo de guardas nas escolas da cidade. A Gerência de Controle de Lei de Acesso à Informação informou que o único trabalho dos guardas para a segurança dos estudantes é o programa Ronda Escolar, criado em  1998. Ele conta com um efetivo de 266 GMs e auxilia 689 escolas. O trabalho efetivo de patrulha é realizado somente por 35 carros que circulam por até 30 escolas por dia. São eles que, segundo o documento, “percorrem as áreas interna e externa da unidade escolar, verificando se há situações de anormalidade”.

Em nota, a Secretaria de Conservação e Meio Ambiente da prefeitura do Rio informou que está terminando “questões burocráticas” para importar a argamassa especial, e que realiza contatos com a Gigacrete, fornecedora do material. Entretanto, nem a pasta, e nem o gabinete do prefeito responderam  às perguntas da reportagem sobre o número de escolas que será blindada, qual estimativa da prefeitura para este gasto e se há algum estudo que embase a compra.

Já a Guarda Municipal informou que a promessa de Crivella tem como prazo o fim deste ano, e que o programa Ronda Escolar segue ativo.

*Com supervisão de Leandro Resende

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