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Foto: Ricardo Stuckert
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Em caravana pelo Nordeste, Lula erra alguns dados sobre educação

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
23.ago.2017 | 05h00 |

Na semana passada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva iniciou uma caravana para visitar nove estados do Nordeste. Até a última terça-feira (22), ele já tinha estado na Bahia e em Sergipe, e participado de diversos eventos. Neles, como de costume, fez discursos, recebeu homenagens, tirou fotos e deu entrevistas. A Lupa checou algumas das declarações dadas por Lula durante a caravana e outras postadas por sua conta no Twitter. Também ouviu o Instituto Lula para que comentasse as checagens. Veja abaixo o resultado.

“[Quando resolvi ser candidato a presidente] O Nordeste tinha menos universidade [do que as outras regiões do país]”

Lula, em discurso feito em Itabaiana (SE) e postado em seu Facebook em 21 de agostoRecortes-Posts_FALSOEm Sergipe, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que, quando disputou a presidência, tinha o “compromisso de fazer com que o Nordeste fosse menos desigual em relação ao resto do país”. A seguir, citou o fato de a região ter menos universidades do que as outras. 

Desde 1995, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), ligado ao Ministério da Educação, realiza a Sinopse Estatística do Ensino Superior. Na série histórica, a região que tem menos instituições de ensino superior é sempre o Norte – e não o Nordeste, como disse o ex-presidente.

Em 2003, quando Lula tomou posse, o Norte ficava em último lugar no ranking, com 101 instituições de ensino superior. O Centro-Oeste, em penúltimo, com 210. O Nordeste, em antepenúltimo, com 304. E o Sul e Sudeste tinham, respectivamente, 306 e 938 entidades desse tipo. 

Em 2010, quando Lula deixou a presidência, o ranking das regiões com menos instituições de ensino superior era o seguinte: Norte (146), Centro-Oeste (244), Sul (386), Nordeste (433) e Sudeste (1.169). Isso indica que, durante o governo Lula, o Nordeste ganhou 129 instituições de ensino superior. Mas as outras quatro regiões também tiveram alta nesse quesito. O Sudeste abriu 231 novas entidades. O Sul, 80. O Norte, 45. E o Centro-Oeste, 34.

Em nota, o Instituto Lula destacou que o Nordeste tinha menos universidades antes de Lula do que tem hoje. Em seguida, acrescentou que o ex-presidente fazia “uma comparação com as regiões mais ricas do país – não com a região Norte”.


“[Quando resolvi ser candidato a presidente] O Nordeste tinha mais analfabeto [do que as outras regiões do país]”

Lula, em discurso feito em Itabaiana (SE) e postado em seu Facebook em 21 de agostoRECORTES-POSTS-VERDADEIRO-MASSegundo o IBGE, em 2002, quando Lula foi candidato à presidência, o Nordeste realmente era a região com maior índice de analfabetismo do país, com 8 milhões de pessoas com mais de 15 anos nessa condição (17,76% da população geral). Mas, em 2011, depois do governo do petista, a região continuava sendo a de maior número de analfabetos: 6,8 milhões (13,49% da população). 

Em nota, o Instituto Lula ressaltou apenas que, de fato, o analfabetismo caiu no Nordeste.


“A primeira universidade do Brasil só veio em 1930”

Lula, no Twitter, em 21 de agostoRecortes-Posts_FALSOA primeira instituição de ensino superior do Brasil foi a Escola de Cirurgia da Bahia, criada em 1808. Depois, vieram a Faculdade de Direito de Olinda e a Faculdade de Direito de São Paulo, ambas fundadas em 1827. Depois disso, há uma polêmica sobre qual seria a primeira universidade. De acordo com o CPDoc, da Fundação Getúlio Vargas, a Universidade do Brasil, que acabou virando a UFRJ – comumente tratada como a primeira do país, só foi criada em 5 de julho de 1937. Ela surgiu dando continuidade a já existente Universidade do Rio de Janeiro, que havia sido constituída na década de 1920 – e não de 1930, reunindo escolas superiores já existentes na cidade.

O Instituto Lula diz que a conta do ex-presidente no Twitter se equivocou ao transcrever a fala dele e que, “em vários discursos, Lula já falou que a primeira universidade brasileira foi em 1922”.


“Agora eles estão tirando o subsídio do programa Minha Casa Minha Vida”

Lula, em entrevista à radio Fan FM, de Sergipe, em 21 de agostoRECORTES-POSTS-EXAGERADOEm 2015, o Minha Casa Minha Vida teve um orçamento executado de R$ 16,5 bilhões. No ano passado, de R$ 6,9 bilhões. Mas os cortes no programa começaram no governo Dilma Rousseff. De maio de 2015 a abril de 2016, quando houve o impeachment, o governo federal contratou 17.308 unidades por R$ 565 milhões na chamada Faixa 1, que atende aos grupos de baixa renda (até R$ 1.800 por mês). De maio de 2016 a junho de 2017, já na gestão Michel Temer, foram contratadas duas vezes mais unidades e gastos 62,4% a mais com essa faixa do Minha Casa Minha Vida: 35.497 unidades por R$ 1,5 bilhão.

Em nota, o Ministério das Cidades, pasta responsável pelo programa, diz que, em maio de 2016, o programa tinha cerca de 70 mil unidades em obras paralisadas e que atualmente são 33 mil.

Em nota, o Instituto Lula reforça que o governo Michel Temer “eliminou os subsídios às faixas de baixa renda no Minha Casa Minha Vida”.


“Eles acham que Bolsa Família é só no Nordeste. Em São Paulo, 1,4 milhão de famílias recebem o benefício”

Lula, no Twitter, em 21 de agostoRECORTES-POSTS-VERDADEIRO-MASSegundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social, neste mês de agosto, 1,4 milhão de famílias receberão o Bolsa Família no Estado de São Paulo. Com um valor médio de R$ 159,55 por benefício, o total investido no estado será de R$ 235,6 milhões.

Na região Sudeste são 3,4 milhões de beneficiários. Com uma bolsa média de R$ 165,10 por família, a região recebe R$ 568,6 milhões em repasses do governo federal por meio do programa de distribuição de renda.

No Nordeste, todos os números são maiores. A região recebe mais da metade das 13,5 milhões de bolsas concedidas pelo programa. Um total de 6,8 milhões de famílias é beneficiado pelas bolsas. Com um benefício médio de R$ 185,76 por família, o Nordeste responde por R$ 1,2 bilhão injetado todos os meses no programa.  


“E quando a Dilma percebeu que estava saindo mais dinheiro que entrando, que ela fez? Preparou uma reforma e mandou para o Congresso, e o Eduardo Cunha não deixou votar”

Lula, em entrevista à rádio Metrópole, em Salvador, no dia 18 de agostoRECORTES-POSTS-EXAGERADOO primeiro ano do segundo mandato de Dilma Rousseff foi marcado pela defesa do ajuste fiscal, comandado pelo então ministro da Fazenda, Joaquim Levy. O governo propôs, por exemplo, o aumento de impostos e mudanças nas concessões de benefícios sociais – ações que precisavam da autorização do Congresso.

Duas dessas ideias foram votadas e aprovadas na Câmara chefiada por Eduardo Cunha (PMDB-RJ): as que modificaram a concessão da pensão por morte e o acesso ao seguro-desemprego. Não passou a recriação da CPMF, imposto que seria aplicado sobre as transações financeiras. A proposta não saiu sequer da Comissão de Constituição e Justiça da Casa. Vale lembrar que, à época, Cunha era crítico às medidas enviadas pelo governo e chegou a dizer que elas eram ineficientes.

O Instituto Lula reconhece que não foi aprovado todo o pacote, mas lembra a oposição de Cunha à presidente.


“Até a metade do século 20, a maioria da população brasileira ainda era analfabeta”

Lula, no Twitter, em 21 de agostoverdadeiroDados do IBGE mostram que, em 1940, 56% da população brasileira com 15 anos de idade ou mais era analfabeta. Em 1950, a taxa se mantinha acima da metade. Era de 50,5%. Só a partir de 1960 que a maioria do país deixou de ser analfabeta.

*Parte desta reportagem foi publicada na versão impressa do jornal Folha de S.Paulo no dia 23 de agosto de 2017.

folha lula nordeste

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