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Desarmamento: Marcelo Freixo e Flavio Bolsonaro erram em debate

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
01.set.2017 | 11h10 |

Conhecidos por divergirem ideologicamente em diversos pontos, os deputados estaduais do Rio Marcelo Freixo (PSOL) e Flavio Bolsonaro (PSC) participaram de um debate sobre desarmamento promovido pelo Descomplica na última quinta-feira (31). O evento tinha por objetivo ajudar os candidatos que farão o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) a entender mais sobre o assunto. A Lupa acompanhou a conversa e checou alguns dos argumentos usados por Freixo e Bolsonaro. Veja o resultado:

“Há um estudo da Universidade de Harvard dizendo que, quanto mais cidadãos armados, a tendência nesses locais é o número de homicídios cair”

Deputado estadual Flavio Bolsonaro (PSC-RJ)Recortes-Posts_FALSOA informação mencionada por Bolsonaro remete a um texto que foi publicado em 2007 numa revista feita por estudantes da Universidade de Harvard e que voltou a circular nas redes sociais em 2015. Mas, em 2009, David Hemenwey, um dos diretores de Harvard, emitiu um parecer público em que classificou o texto como sendo um trabalho que ignora todos os estudos sobre violência existentes, além de ser “polêmico, enganoso e com dados incorretos e ilógicos”.

No site do “Injury Control Research Center”, também da Universidade de Harvard, ainda é possível localizar cinco estudos que relacionam o alto número de armas à maior incidência de homicídios. Foram analisados, por exemplo, os homicídios registrados entre 1988 e 1997 em 50 estados americanos. E ficou comprovado que onde havia mais armas de fogo havia mais assassinatos. Um outro estudo que analisou os índices de 26 países no começo dos anos 1990 também chegou à mesma conclusão, de que mais armas aumentam o número de mortes.

O portal Snopes.com que faz checagem de dados e é parceiro da Lupa na International Factchecking Network (IFCN), também já havia checado a informação sobre o suposto estudo de Harvard e também já havia concluído que ele é falso.

Em nota, o deputado Flavio Bolsonaro informou que realmente usou esse artigo feito por estudantes de Harvard em 2007 como fonte de informação, mas também destacou que os dois autores do texto são “reconhecidos internacionalmente pelo trabalho crítico às políticas de restrição às armas de fogo”.


 

“Neste período, depois do Estatuto do Desarmamento, nós economizamos 160 mil vidas, que estariam mortas se mantivesse o dado de 8%”

Deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ)RECORTES-POSTS-EXAGERADOO indicador de vidas poupadas aparece num estudo feito pela Unesco junto aos Ministérios da Saúde e da Justiça. Publicado em setembro de 2005, pouco antes do referendo do desarmamento, ele analisa os impactos do estatuto no total de homicídios cometidos por armas de fogo. De fato, antes do desarmamento, o crescimento obedecia a uma taxa de 8,1% ao ano. Após a medida, vigente desde 2003, a velocidade de crescimento caiu para 2,2% ao ano.

O índice de vidas poupadas é calculado comparando o número de homicídios esperados e os que efetivamente ocorreram após o estatuto. A atualização mais recente consta no Mapa da Violência de 2016, que contabiliza 133.987 vidas poupadas de 2003 a 2014 – cifra inferior aos 160 mil apontados pelo deputado.

Em nota, o deputado afirmou que “a informação de que 160.036 vidas foram poupadas desde a promulgação do Estatuto do Desarmamento foi veiculada em veículos de comunicação, como o El País, e o site da Organização da Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, que tiveram como base a pesquisa divulgada no Mapa da Violência 2015.

A pesquisa, no entanto, traz os dados citados pela Lupa.


 

“Segundo o Ipea, de 2005 a 2015, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes subiu 22% em média em alguns estados (…) 232% no Rio Grande do Norte. Em alguns estados, as taxas diminuíram. Em São Paulo, mais de 40%, no Rio, mais de 30% de redução”

Deputado estadual Flavio Bolsonaro (PSC-RJ)RECORTES-POSTS-VERDADEIROEstudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) feito em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostra que, em 2005, ocorreram 48.136 homicídios no Brasil. Em 2015, o número subiu para 59.080. Os 10.944 homicídios a mais representam um aumento de 22,7%.

Alguns estados nas regiões Norte e Nordeste tiveram uma alta de mais 100% na taxa de homicídio. O Rio Grande do Norte realmente teve um crescimento recorde de 232%. Em 2005, a taxa de homicídios no estado era de 13,5 para cada 100 mil habitantes. Em 2015, passou para 44,9.

No Sudeste, por outro lado, houve uma melhora nos números. Em São Paulo, a taxa de homicídio caiu 44,3% (de 21,9 para 12,2), e, no Rio de Janeiro, 36,4% (de 48,2 para 30,6).


 

“Em 2003, temos o Estatuto do Desarmamento, que é o marco do debate.  É a primeira vez que [o ritmo de crescimento] dos homicídios saí de 8% ao ano para 2% ao ano”

Deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ)RECORTES-POSTS-VERDADEIROO Mapa da Violência de 2016, produzido pela Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais (Flacso) de fato mostra que há um ponto em que os homicídios no Brasil reduzem seu ritmo de crescimento. Segundo o estudo, mencionado por Freixo, os homicídios cometidos por armas de fogo cresceram ao ritmo de 8,1% entre 1980 e 2003.

No primeiro ano da série, foram cometidos  6,1 mil homicídios. Em 2003, 36,1 mil. A partir disso e com o Estatuto do Desarmamento aprovado, o ritmo de crescimento caiu e passou a ser de 2,2% ao ano, chegando a 42,2 mil em 2014. O mesmo estudo destaca ainda que há um crescimento no uso das armas de fogo para cometer homicídios. Se, em 1980, apenas 43,9% dos homicídios eram cometidos com armas de fogo, esse percentual sobiu para 70,8% em 2003 – se mantendo constante 71,7%.

*Hellen Guimarães sob a supervisão de Leandro Resende

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