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Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil
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As polêmicas afirmações de Ricardo Barros, o ministro da Saúde

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
06.out.2017 | 06h00 |

A saúde é a área que mais preocupa a população brasileira hoje em dia. Segundo pesquisa divulgada pelo Datafolha nos últimos dias, 24% dos entrevistados acreditam que este é o principal problema do país. Ricardo Barros, ministro da Saúde, já afirmou em entrevista à revista Exame que todos os problemas de saúde pública do Brasil poderiam ser resolvidos com 1.500 hospitais. Veja o resultado da checagem desta e de outras frases recentes dele

“Poderíamos resolver tudo [atender à demanda por saúde pública] com 1.500 hospitais. Esse é o dado estatístico com base numa análise criteriosa de atendimentos”

Ministro da Saúde, Ricardo Barros, em entrevista à revista Exame, em 21/09/2017Recortes-Posts_INSUSTENTAVELA Lupa procurou a  Organização Mundial de Saúde (OMS) para saber qual é a quantidade ideal ou média de leitos hospitalares por habitante, mas a entidade informou que não estabelece quantia fixa por conta das especificidades de cada país. O órgão tem, no entanto, o estudo Estatísticas de Saúde de 2014, que mostra que o Brasil tinha uma média de 2,3 leitos hospitalares (públicos e privados) para cada mil habitantes entre 2006 e 2012 – taxa inferior à média mundial (de 2,7) e às de Argentina (4,7), Espanha (3,1) ou França (6,4), por exemplo. Essa pesquisa indica a necessidade de mais leitos, mas não fixa quantos exatamente.

A Lupa recorreu, então, ao Banco Mundial. A entidade fez uma avaliação do Sistema Único de Saúde (SUS) ao longo de 20 anos e concluiu que “os hospitais brasileiros são, em sua maioria, pequenos demais para atuar com níveis de eficiência adequados, sendo que 65% têm menos de 50 leitos”. Assim como o anterior, esse estudo também não estipula um total ideal de leitos por habitantes.

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) fez uma pesquisa que mostra que o sistema inglês possui 2,8 leitos por mil habitantes, taxa próxima à do Brasil. Só que o Brasil têm três vezes mais habitantes que o Reino Unido. A OCDE também também não sugere um número ideal de leitos para o Brasil.

Procurado para comentar esta checagem, o Ministério da Saúde informou que fez uma estimativa levando em conta dados do Banco Mundial, OCDE e Sistema de Saúde Inglês. Segundo a pasta, 150 milhões de pessoas dependem do SUS hoje em dia. Assim, com 1.500 hospitais com 100 leitos cada um, o atendimento seria pleno. O ministério não apresentou, porém, o estudo baseado em “análise criteriosa de atendimentos” mencionado por Barros em sua frase. O órgão estimou, ainda, que a utilização eficiente do SUS promoveria um aumento de 37% na assistência hospitalar. 


“80% dos exames de imagem no SUS [Sistema Único de Saúde]) têm resultado normal”

Ministro da Saúde, Ricardo Barros, na Brazil Conference, em 08/04/2017Recortes-Posts_INSUSTENTAVELO ministro Ricardo Barros informou, por nota, que a origem da informação mencionada seria um levantamento feito a partir dos resultados obtidos nos exames realizados dentro do programa Corujão da Saúde, da prefeitura de São Paulo. Segundo o ministro, 80% dos exames feitos na força-tarefa da capital de SP teriam tido resultado normal.

Barros referia-se, portanto, exclusivamente à cidade de São Paulo. Não dispõe de um dado relativo a todo o país – como sugere a frase analisada.

Procurada, a prefeitura de São Paulo não soube confirmar se existe algum estudo sobre o assunto, como diz o ministro. O Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem, maior entidade médica do setor e indicado pelo Conselho Federal de Medicina como uma órgão que poderia ter esse dado, disse desconhecer pesquisas nesse sentido.

Procurado novamente para comentar, o ministério reafirmou que a informação veio do secretário municipal de Saúde de São Paulo, Wilson Pollara.


“O Programa Farmácia Popular está mantido. Está em mais de 34 mil farmácias de todo o Brasil”

Ministro da Saúde, Ricardo Barros, em vídeo postado no Facebook em 08/06/2017RECORTES-POSTS-EXAGERADODesde 2006, o Ministério da Saúde mantém dois programas simultâneos com nomes semelhantes: o “Rede Própria Farmácia Popular” e o “Aqui tem Farmácia Popular”. Os dois, no entanto, vem diminuindo sua abrangência.

Em março, o ministério fez um comunicado, informando que encerraria os repasses do programa “Rede Própria Farmácia Popular”. Ele funcionava em parceria com estados e municípios, financiando a distribuição de 112 remédios pelo país. Em 2016, chegou a possuir 517 unidades. Agora, no entanto, restam apenas 11 unidades.

O programa “Aqui tem Farmácia Popular”, que funciona em parceria com farmácias e drogarias privadas e só distribui 32 medicamentos gratuitos, também míngua. Até maio de 2017, tinha 34.543 farmácias credenciadas. Esse total é inferior às 34.626 de 2015 e às 34.595 do ano passado.

Procurado, o ministério reconhece que decidiu mudar o modo como ocorria o repasse da verba destinada às unidades. Todo o recurso agora é repassado às prefeituras para compra de medicamentos, e são elas que definem como distribuirão os produtos à população.


“Só no primeiro semestre do ano, foram registrados 12.086 transplantes”

Ministro Ricardo Barros, em post publicado no Facebook, 28/09/2017RECORTES-POSTS-VERDADEIRO-MASSegundo dados do próprio Ministério da Saúde, o país bateu um recorde no primeiro semestre deste ano, ao fazer 12.086 transplantes. O número é 8% maior do que o registrado no mesmo período de 2016, quando foram feitos 11.200 cirurgias desse tipo. Mas a própria pasta ressalta que o número de famílias que se recusa a doar órgãos de parentes mortos ainda é alto – de 43% – e se mantém constante desde 2013, quando 44% das famílias não autorizavam a doação. Ainda vale destacar que, atualmente, 41.122 pessoas estão na fila por transplantes no Brasil.


“[O programa Mais Médicos] Conta com 18.000 médicos”

Ministro da Saúde, Ricardo Barros, à revista Exame em 21/09/2017RECORTES-POSTS-VERDADEIRO-MASSegundo dados públicos disponíveis para consulta na Sala de Apoio à Gestão Estratégica do Ministério da Saúde (Sage), em 3 de outubro, o Mais Médicos tinha 18.240 “vagas autorizadas”, mas apenas 17.305 “médicos ativos” em municípios e distritos indígenas. 

*Nathalia Afonso sob a supervisão de Juliana Dal Piva.

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