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Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Nos EUA, Bolsonaro diz que um terço do Bolsa Família ‘é fraude’. Será?

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news
23.out.2017 | 10h30 |

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), pré candidato à Presidência em 2018, fez uma turnê pelos Estados Unidos nas últimas semanas. Além de se encontrar com investidores e analistas, deu entrevistas, fez pronunciamentos através de suas redes sociais e participou de palestras. Dando continuidade à cobertura da pré-campanha, a Lupa checou algumas de suas frases:

“Se você pegar os anais da Câmara dos Deputados, não encontra um só pronunciamento dos deputados do PT e do PCdoB condenando os ataques aqui [ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001]”

Deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), em transmissão feita ao vivo pelo Facebook no dia 13 de outubro

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Pelo menos quatro deputados do PT fizeram discursos em que condenaram os ataques às Torres Gêmeas, em Nova York. Na semana do 11 de setembro de 2001, a Câmara dos Deputados teve cinco sessões.

Na manhã da terça-feira 11, foi o deputado Valdeci Paiva (PSL-RJ) que levou a informação sobre os atentados à Câmara. Ele chegou a interromper a sessão solene daquele dia para falar do assunto. De tarde, ainda no calor dos eventos, o então deputado Aécio Neves (PSDB-MG) e Efraim Moraes (PFL-PB) mencionaram o assunto.

No dia seguinte, 12 de setembro, o deputado Osmar Terra (PMDB-RS) lembrou a tragédia. Classificou-a como “horror”.

Em 13 de setembro, Jair Bolsonaro, então deputado federal pelo PPB-RJ, ocupou a tribuna da Casa para criticar a conduta do governo Fernando Henrique Cardoso ao se solidarizar com o então presidente dos EUA, George W.Bush. Em sua opinião, FHC tinha tentado “tirar proveito politiqueiro de um grave episódio ocorrido nos Estados Unidos”.

Logo depois de Bolsonaro, foi a vez de o deputado Dr. Rosinha (PT-PR) fazer um pronunciamento e condenar de forma clara o ataque às Torres Gêmeas: “Assim como o nosso partido, lamentamos as vítimas inocentes desse atentado. Inocentes, acreditamos, não devem pagar por erros ou políticas internacionais imperialistas de governantes”.

O deputado Nelson Pellegrino (PT-BA) também foi à tribuna naquele dia 13 e também condenou o ataque: “O terrorismo há de ser repudiado, e a solidariedade reafirmada. Solidariedade não só às vítimas, mas à própria nação atingida”, afirmou. Uma busca no acervo da Câmara ainda mostra uma série de falas sobre o mesmo assunto durante a sessão solene daquele dia.

Na sexta-feira, dia 14 de setembro de 2001, o deputado Paulo Paim (PT-RS) tomou os microfones da Casa para afirmar sua posição: “a nação norte-americana foi agredida de forma covarde por terroristas, cujos atos devem ser repudiados por qualquer homem de bem”.

Por fim, na mesma sexta-feira, Pedro Celso (PT-DF) leu a nota de seu partido em solidariedade às vítimas e foi enfático: “Os trágicos acontecimentos de terça-feira, nos Estados Unidos, constituem-se em crime hediondo que merece o repúdio de toda a humanidade.”

Procurado para comentar essa checagem, Bolsonaro não respondeu.


O governo do PT, em 2010, doou R$ 25 milhões para construção de um hospital na Palestina”

Deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), em transmissão feita ao vivo pelo Facebook no dia 13 de outubro

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Em 20 de julho de 2010, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 12.292, autorizando uma doação de R$ 25 milhões para “reconstrução de Gaza”. Mas o texto não cita hospitais ou unidades médicas. Consiste no repasse de “recursos à Autoridade Nacional Palestina, em apoio à economia palestina”.

Ainda vale ressaltar que a sanção presidencial só aconteceu depois de o projeto ser aprovado pelo plenário da Câmara dos Deputados e do Senado.

O Executivo enviou o projeto à Câmara em fevereiro de 2009 e, lá, a matéria tramitou até dezembro daquele ano, quando foi aceita e submetida ao Senado. Em junho de 2010, após passar pelas comissões de Relações Exteriores e Assuntos Econômicos da casa, entrou na pauta e foi autorizada pelos senadores sem votação nominal.

Procurada para comentar esta checagem, a assessoria de Bolsonaro enviou a imagem de uma reportagem com o título “Lula doou, através de decreto, R$ 25 milhões para Palestina, em região comandada por terroristas”.


Bolsa Família, ninguém quer acabar, mas um terço [do programa] é fraude”

Deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), em transmissão feita ao vivo pelo Facebook no dia 13 de outubro

RECORTES-POSTS-EXAGERADO

Em novembro do ano passado, o Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário suspendeu 1,1 milhão de bolsas por fraude. Na época, isso equivalia a 8% dos 13,9 milhões de beneficiários. O pente-fino foi fruto de um levantamento feito pelo Ministério Público Federal e divulgado seis meses antes. Esse estudo analisou cuidadosamente as “suspeitas de irregularidade” no Bolsa Família entre 2013 e maio de 2016 e concluiu que, dos 21,5 milhões de beneficiários do programa nesse período, 4,23% podiam ser considerados “perfis suspeitos”, o equivalente a 909,7 mil pessoas.

Se analisados os recursos aplicados, a afirmação de Bolsonaro também não se sustenta. Entre 2013 e maio de 2016, o programa custou R$ 86,1 bilhões, e o total suspeito de fraude nesse período foi de 3,84% – ou R$ 3,31 bilhões. Os dois índices ficam, portanto, bem distantes do “um terço” citado pelo deputado.

Procurada, a assessoria de imprensa de Bolsonaro enviou à reportagem uma imagem que remete a um estudo publicado pelo governo federal em 20 de maio de 2014. Segundo este levantamento, 75,4% dos beneficiários do programa trabalhavam – supondo que outros 24,6% não o faziam. “Segundo o Censo 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 75,4% dos beneficiários do Bolsa Família trabalham. Desde o lançamento do programa, em 2003, 1,7 milhão de brasileiros deixaram de receber o benefício por não precisar mais da ajuda do governo”, diz trecho do estudo.


“Eu posso considerar a privatização da Petrobras, mas seria uma das últimas empresas [a ser privatizada]”

Deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), em entrevista concedida à Bloomberg no dia 13 de outubro

RECORTES-POSTS-CONTRADITORIO

Em entrevista concedida ao programa do Jô Soares, na TV Globo, em 2005, o deputado Jair Bolsonaro era radicalmente contra as privatizações: “barbaridade é privatizar, por exemplo, a Vale do Rio Doce, privatizar as telecomunicações, e entregar as reservas petrolíferas para o capital externo”.

O deputado foi procurado para comentar essa checagem, mas não retornou.

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